Mais de 18.184 casos de hepatites virais foram diagnosticados em todo o país no período de 2021 a Junho de 2026, sendo que 11 por cento foi registado apenas nos primeiros seis meses do corrente ano.
Apesar do estado actual do país relativamente à doença, os esforços implementados para conter a propagação e controlar a doença são encorajadores, assegurou o director geral- adjunto do Instituto Nacional de Luta contra o Sida e outras doenças de Transmissão Sexual (INLS). Em declarações ao Jornal de Angola, José Carlos Van-Dúnem referiu que Luanda concentra maior número de casos notificados com 14.792 casos, seguindo-se a província de Benguela, 717, Cuanza-Sul ,704, e Icolo e Bengo com 603 casos, por serem regiões com maior densidade populacional, sublinhando que as faixas mais afectadas se situam entre os 20 e 29 anos. As hepatites virais, explicou, continuam a constituir um problema de saúde pública em Angola, sobretudo as hepatites B e C, responsáveis pela maioria dos casos de doença hepática crónica, cirrose e cancro do fígado. Nos últimos anos, o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica tem registado um aumento do número de casos notificados, facto que se deve, em grande medida, ao reforço das actividades de rastreio e à melhoria da capacidade diagnóstica, mas não necessariamente a um aumento da transmissão, revelou o responsável. José Van-Dúnem, que é especialista em Saúde Pública, frisou que os principais desafios continuam a ser a frequência do diagnóstico precoce, a expansão do acesso aos testes laboratoriais confirmatórios, a garantia do tratamento para todos os pacientes elegíveis, redução da transmissão vertical, combate ao estigma e aumento do conhecimento da população sobre a doença. Para evitar a propagação da doença, salientou, o INLS tem desenvolvido diversas iniciativas, como a disponibilização de testes rápidos para hepatite B, integração do rastreio em populações prioritárias, formação dos profissionais de saúde, reforço da vigilância epidemiológica e campanhas de sensibilização. Plano Estratégico NacionalAlém destes mecanismos, continuou, consta também a implementação do Plano Estratégico Nacional que integra VIH, hepatites virais e outras Infecções de Transmissão Sexual, bem como a promoção da vacinação contra a hepatite B, melhoria do acesso aos medicamentos antivirais e o reforço da cooperação com parceiros nacionais e internacionais. “O objectivo é identificar precocemente as pessoas infectadas e encaminhá-las para acompanhamento clínico. Neste contexto, o INLS está a promover uma campanha nacional de testagem e vacinação que decorre desde o dia 15 de Julho até 15 de Agosto em dez províncias”, disse. Relativamente ao número de crianças infectadas, o médico disse que o quadro corresponde a 0, 83 por cento, traduzido em 29 casos notificados. A principal preocupação nas crianças, disse, continua a ser a hepatite B adquirida durante o nascimento ou nos primeiros anos de vida. A expansão da vacinação infantil, especialmente a administração da dose ao nascimento, frisou, representa a principal estratégia para proteger esta franja. “Embora existam casos notificados, a vigilância continua a ser reforçada para melhorar a qualidade da informação e identificar precocemente novas infecções”, realçou. O director-adjunto do INLS salientou que a transmissão vertical continua a ser uma das principais formas de propagação da doença, fazendo com que as autoridades reforcem a integração do rastreio da hepatite B nos serviços de saúde materno-infantil. “O objectivo é que todas as mulheres grávidas sejam testadas durante as consultas pré- natais, permitindo identificar precocemente os casos positivos e implementar medidas de prevenção da transmissão vertical”, frisou. José Carlos Van-Dúnem sublinhou ainda que Angola tem dado passos significativos para a eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, conforme a meta da Organização Mundial da Saúde. Apesar dos avanços, disse, ainda persistem os desafios relacionados com a cobertura universal do rastreio e a disponibilidade de alguns exames complementares em determinadas localidades. Alcançar a meta de eliminação até 2030, reforçou, exige acelerar algumas intervenções, tais como o aumento significativo do rastreio da população, ampliação do acesso ao tratamento, reforço da vigilância epidemiológica, assegurar financiamento sustentável e consciencializar a população para reduzir o estigma e promover a procura dos serviços. Mais de 280 milhões de pessoas vivem com hepatite no mundo As hepatites virais continuam entre as principais ameaças à saúde pública, causando cerca de 1,34 milhão de mortes em 2024, o que equivale a aproximadamente 3.500 mortes por dia. Actualmente, permanecem entre as principais causas globais de mortalidade por doenças transmissíveis. A doença é considerada a segunda maior causa infecciosa de mortes a nível mundial, com cerca de um milhão de mortes por ano. Muitas pessoas desconhecem o seu estado serológico, uma vez que a doença pode evoluir silenciosamente durante anos, manifestando-se apenas quando surgem complicações graves, como cirrose hepática ou cancro do fígado. Na Região Africana da OMS, registaram-se progressos encorajadores, incluindo uma redução de 25 por cento das novas infecções por hepatite B entre 2015 e 2024. Ainda assim, milhões de pessoas continuam sem diagnóstico ou tratamento, o que compromete os esforços para reduzir a mortalidade e interromper a transmissão da doença. De acordo com o último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) publicado este ano, mais de 280 milhões de pessoas vivem com hepatite viral crónica em todo o mundo, das quais 250 com hepatite B e 50 milhões com hepatite C. O Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais é celebrado anualmente a 28 de Julho e visa aumentar a consciencialização sobre as hepatites virais e promover acções de prevenção, diagnóstico e tratamento. A data serve também para sensibilizar a população para os riscos das hepatites virais, reflectir sobre os progressos alcançados, identificar os desafios que persistem e debater acções capazes de acelerar os esforços dos governos para eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. O tema escolhido pela Organização Mundial da Saúde para este ano é “Hepatite: Vamos acabar com ela”, com o objectivo de eliminar as barreiras de acesso aos serviços de saúde e acelerar a erradicação da hepatite viral como ameaça à saúde pública até 2030. Importância do acompanhamento psicológicoNa ocasião, a psicóloga clínica afecta ao INLS, Zoraima Vieira Lopes, disse que o acompanhamento psicológico e a adesão ao tratamento são fundamentais para que as pessoas diagnosticadas com hepatites enfrentem a doença com mais confiança e qualidade de vida. A psicóloga destacou ainda que nos últimos anos tem se registado menos estigma social com relação às pessoas que convivem com a doença. “Felizmente, as pessoas com hepatite procuram cada vez mais o INLS para esclarecer dúvidas e receber apoio psicológico”, disse. A hepatite, sobretudo a B, disse, é uma condição que pode ser controlada e tratada, acrescentando que o diagnóstico precoce permite o acesso atempado aos cuidados de saúde, reduz a transmissão da doença e aumenta as oportunidades de tratamento e de uma melhor qualidade de vida. A especialista explicou que as pessoas que conhecem o seu estado de saúde devem manter o seguimento clínico e cumprir o tratamento a fim de reduzir o risco de complicações e preservar a sua saúde. “A prevenção continua a ser a maior aliada na luta contra as hepatites virais. Por isso, continuamos a incentivar a população a realizar o teste de rastreio, manter a vacinação em dia e a adoptar comportamentos que protejam a saúde”, aconselhou Segundo a psicóloga clínica, conhecer o estado de saúde é um acto de responsabilidade, autocuidado e compromisso com a vida. “Cuidar da saúde mental é também uma forma de promover a prevenção, frisando que, quando se combate o medo, a desinformação e o estigma, ajudamos as pessoas a procurarem o teste de rastreio, a aderirem à vacinação e a assumirem um papel activo na protecção da própria saúde e de todos em volta. “Cada gesto de prevenção protege uma vida, fortalece a nossa comunidade e aproxima-nos de uma Angola mais saudável, consciente e livre das hepatites virais”, disse. Formas de transmissãoDe acordo com José Carlos Van-Dúnem, as formas de transmissão da doença dependem do tipo de hepatite. As hepatites B e C, esclareceu, transmitem-se principalmente pelo contacto com sangue contaminado, relações sexuais desprotegidas, partilha de seringas ou objectos cortantes e da mãe infectada para o bebé durante o parto (hepatite B). As hepatites A e E, continuou, transmitem-se por meio de água e alimentos contaminados. Embora muitas vezes silenciosas, sublinhou, principalmente nas formas crónicas, as hepatites podem se manifestar por sintomas como cansaço, febre, dor abdominal, perda de apetite, náuseas e vómitos, sendo que a ausência de sintomas em estágios iniciais, continuou, dificulta o diagnóstico precoce e favorece a evolução da doença. Tratamento e prevençãoApesar dos desafios, o médico sublinhou que a testagem e o tratamento das hepatites virais estão à disposição de todos de forma gratuita nas unidades de saúde habilitadas. Além da assistência medicamentosa, acrescentou, o INLS dispõe ainda de um departamento de apoio psicológico e aconselhamento, com profissionais preparados para acompanhar os pacientes ao longo do processo. O tratamento, sublinhou, varia conforme o tipo e a gravidade da hepatite. Em casos agudos, repouso, hidratação e alimentação equilibrada são fundamentais. Já as formas crónicas, como as hepatites B e C, podem exigir o uso de medicamentos antivirais como o Tenofovir que ajudam a conter a multiplicação do vírus e a prevenir danos mais severos ao fígado. A cura da doença, explicou, depende da tipologia, frisando que a hepatite A normalmente se cura espontaneamente, já a hepatite B ainda não possui cura definitiva, mas existem medicamentos antivirais muito eficazes que controlam a replicação do vírus e reduzem significativamente as complicações. No caso da hepatite C, frisou, actualmente pode ser curada em mais de 95 por cento dos casos através dos antivirais de acção directa. A prevenção e o diagnóstico precoce continuam a ser a melhor arma contra as hepatites virais. A vacinação contra a hepatite B, o uso do preservativo, esterilização dos objectos cortantes, bem como a melhoria do saneamento básico e da higiene alimentar, acrescentou, também são fundamentais para evitar o contágio O acesso ao diagnóstico, frisou, tem aumentado progressivamente, uma vez que todas as províncias dispõem de algum nível de capacidade para rastreio, embora existam diferenças relativamente à capacidade laboratorial e ao acesso ao tratamentoespecializado. VacinaçãoO director geral-adjunto do INLS disse que a vacinação constitui uma das medidas mais eficazes para prevenir a hepatite B, além de mais de 95 por cento das infecções, reduzir significativamente o risco de cirrose e cancro do fígado. Actualmente, realçou, o país inclui a vacina contra a hepatite B no Programa Alargado de Vacinação. Sendo que nos últimos anos foram registados progressos na cobertura vacinal infantil, embora persistam desafios relacionados com acesso às zonas remotas, manutenção da cadeia de frio, vacinação nas primeiras 24 horas após o nascimento, redução das desigualdades entre províncias. Segundo o médico especialista em Saúde Pública, o reforço da dose ao nascimento, acrescentou, representa actualmente uma das prioridades da Organização Mundial daSaúde para eliminar a transmissão vertical. José Carlos Van-Dúnem despertou a sociedade salientando que a hepatite pode ser prevenida, diagnosticada e tratada apesar de ser silenciosa durante muitos anos, apelando aos cidadãos a conhecerem o seu estado serológico por meio da realização do teste, aderirem à vacinação, evitarem comportamentos de risco e a procurarem os serviços de saúde sempre que necessário. “Às mulheres grávidas, apelamos para que iniciem precocemente as consultas pré-natais e realizem todos os testes recomendados, incluin- do o da hepatite B, pois proteger a mãe é também proteger o bebé”, disse. Informar-se, adoptar comportamentos saudáveis e combater o estigma, sublinhou, são atitudes fundamentais para que Angola alcance o objectivo de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030.




