A população mundial está estimada em mais de oito mil milhões de pessoas, entre as quais se encontra uma parcela crescente com mais de 60 anos. O Dia Mundial das Pessoas Idosas é celebrado anualmente a 1 de Outubro, como oportunidade para reconhecer o percurso, a experiência e o contributo desta faixa etária para a sociedade.
Em diferentes comunidades, os idosos desempenham funções como conselheiros, transmissores de tradições, orientadores familiares e participantes em actividades religiosas e sociais.
Em Angola, os idosos representam cerca de quatro por cento da população. Para a defesa desta faixa etária, especialistas, líderes religiosos e pessoas idosas defendem maior atenção da família, do Estado e da comunidade, como requisito para garantir uma velhice com dignidade.
Protecção dos idosos integra políticas públicas
A responsabilidade pela protecção dos idosos também está contemplada nas políticas públicas nacionais. No Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023-2027, uma das iniciativas do Executivo no domínio da acção social e valorização da família está relacionada com a melhoria das condições de vida e a salvaguarda dos direitos das pessoas idosas, sobretudo as que se encontram em situação de vulnerabilidade social.
O documento reconhece a im-portância dos idosos na sociedade angolana, destacando o papel desempenhado enquanto conselheiros e guias morais das gerações mais jovens.
O PDN defende, igualmente, o respeito pelos idosos enquanto elementos fundamentais do património cultural e da coesão comunitária. A valorização desta faixa etária ultrapassa a assistência social e en- volve o reconhecimento do contributo prestado às famílias, comunidades e à sociedade em geral.
Igrejas chamadas a reforçar inclusão
A valorização da população idosa envolve também as comunidades religiosas. Segundo o reverendo da Igreja Comunidade Cristã, Domingos José, os idosos desempenham um papel fundamental e insubstituível no seio das igrejas.
A experiência e a sabedoria, acumuladas ao longo dos anos, constituem, para o líder religioso, elementos importantes no fortalecimento das comunidades.
“Os idosos estão longe de ser membros passivos das igrejas”, afirmou, considerando-os importantes alicerces espirituais, históricos e comunitários.
O reverendo reconhece, no entanto, a existência de obstáculos que dificultam a participação plena das pessoas da terceira idade nas actividades religiosas.
Para ultrapassar esses constrangimentos, Domingos José defende medidas que facilitem o acesso e a participação dos idosos, entre as quais a instalação de rampas e elevadores, a reserva de lugares nas primeiras filas e a criação de redes de transporte voluntário para pessoas com dificuldades de locomoção.
Assistência religiosa passa também pelo apoio social
A Igreja Comunidade Cristã, de acordo com Domingos José, tem desenvolvido acções de acompanhamento às pessoas idosas.
Equipas constituídas por pastores, bispos, obreiros e membros do grupo coral realizam visitas aos idosos nas suas residências, hospitais e lares de acolhimento.
Segundo o reverendo, o acompanhamento não se limita à assistência material. A dimensão espiritual também assume importância, sobretudo para idosos em situação de solidão ou afastamento familiar.
Momentos de conversa, oração e leitura de textos sagrados constituem algumas das formas de acompanhamento referidas pelo líder religioso.
Na sua mensagem às famílias e à sociedade, o responsável apelou ao respeito, à protecção e à valorização da pessoa idosa, recorrendo, igualmente, à Bíblia para reforçar a importância da experiência acumulada durante a velhice.
“Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento”, lê-se no livro de Jó, capítulo 12, versículo 12.
A experiência de quem vive a terceira idade
Enquanto especialistas e líderes religiosos analisam a situação dos idosos, aqueles que vivem directamente esta realidade apresentam também as suas preocupações.
Aos 68 anos, Joaquim Baião conhece as dificuldades enfrentadas diariamente por muitas pessoas idosas. Ao falar sobre a sua experiência na comunidade, apelou a maior atenção por parte da sociedade.
O idoso referiu dificuldades no acesso a determinados serviços públicos e chamou atenção para a necessidade de os mais velhos serem tratados com respeito e dignidade.
A preocupação estende-se à relação entre jovens e idosos. Para o ancião, o respeito pelas pessoas mais velhas deve continuar a constituir uma responsabilidade colectiva, sobretudo numa sociedade onde a transmissão de conhecimentos entre gerações é de extrema importância.
“Para os jovens de agora, respeitar os mais velhos ficou um pouco difícil”, contou. O idoso reconheceu, igualmente, o papel desempenhado por algumas igrejas no apoio às pessoas da terceira idade, destacando iniciativas de assistência médica e alimentar.
Papa Leão XIV destaca sabedoria dos anciãos
O reconhecimento do valor da população idosa também esteve presente durante a visita do Papa Leão XIV a Angola.
No dia 20 de Abril de 2026, o Pontífice visitou o Lar de Assistência à Pessoa Idosa, no município de Muangueji, na província da Lunda-Sul, durante a sua viagem apostólica ao país. No local, manteve contacto com os residentes e dirigiu uma mensagem de proximidade, escuta e valorização da pessoa idosa.
Na ocasião, Leão XIV sublinhou a importância de os idosos serem acolhidos num ambiente familiar e valorizados pela experiência acumulada ao longo da vida.
A visita reforçou a necessidade de olhar para a velhice para além da assistência material, reconhecendo os idosos como pessoas com experiências, memórias e conhecimentos relevantes para as famílias e comunidades.
Sociólogo defende maior intervenção
Uma acção conjunta entre Estado, família e comunidade é apontada como necessária para responder aos problemas enfrentados pela população idosa.
Segundo o sociólogo Geovane Dala, apesar da existência de iniciativas destina- das à protecção dos idosos, sua aplicação prática ainda não produz efeitos visíveis para muitos cidadãos da terceira idade.
Uma observação das condições enfrentadas por muitos idosos nas comunidades, de acordo com o especialista, permite compreender a dimensão dos desafios persistentes. Geovane Dala considera a protecção da pessoa idosa uma responsabilidade de todos, Estado, família e a comunidade.
A família, defende, deve constituir um espaço seguro para o idoso, proporcionando amor, respeito, carinho, alimentação e outras condições necessárias para uma vida digna.
Ao Estado cabe criar e implementar políticas públicas direccionadas para a terceira idade, bem como reforçar os mecanismos legais destinados a proteger os idosos contra actos que atentem contra a sua dignidade, afirmou.
Em relação à sociedade, acrescentou, compete cooperar, denuncian- do e repudiando situações de violência, abandono ou outras práticas capazes de colocar em risco a integridade da pessoa idosa.
Para Geovane Dala, a importância dos idosos ultrapassa a dimensão familiar. Esta faixa etária constitui uma fonte de conhecimento e referência para as novas gerações. “Os idosos são bibliotecas vivas e autoridades morais”, sublinhou.
Abandono familiar ameaça dignidade dos longevos
Entre os problemas apontados pelos intervenientes está o abandono familiar. Para o responsável pela área da acção social da Igreja Comunidade Cristã, bispo Severino Gwoto, os idosos representam as raízes de qualquer comunidade, por acumularem experiências nos domínios social, cultural e religioso.
O bispo destaca o abandono familiar como um dos principais desafios enfrentados pelos idosos que procuram apoio nas igrejas. Segundo explicou, existem casos de pessoas idosas que chegam às igrejas sozinhas, devido à emigração de familiares ou à perda do cônjuge.
O líder religioso defende que a inclusão das pessoas idosas deve assentar no reconhecimento do seu valor e não apenas na assistência motivada pela compaixão. “A inclusão dos idosos deve ser feita por honra”, defendeu.




