Autor de “Mankiko”, Sérgio Piçarra recusa condecoração dos 50 anos da Independência:- “Seria uma incoerência”

O prestigiado cartoonista angolano Sérgio Piçarra, criador da célebre personagem “Mankiko”, recusou nesta sexta-feira, 18 de julho, a condecoração proposta pela Presidência da República, no âmbito das celebrações dos 50 anos da independência de Angola.
Por meio de uma nota pública no seu perfil do Facebook, Sérgio Piçarra agradeceu a distinção, mas afirmou que não poderia aceitá-la por razões de consciência e coerência com os seus princípios.
Segundo o cartoonista, o seu trabalho tem sido ignorado pelos meios públicos de comunicação, como o Jornal de Angola e a TPA, onde, afirma, é impedido de publicar ou ter os seus lançamentos divulgados. Para Sérgio, aceitar a homenagem seria compactuar com um sistema que marginaliza vozes críticas.
“Venho através desta nota, agradecer à Presidência da República pela honra da colocação do meu nome na lista das condecorações dos 50 anos da independência do país. Informo, porém, que por razões de consciência, sou obrigado a recusar tal condecoração por não fazer sentido receber uma medalha das mãos do mais alto representante de um governo que não permite que eu publique o meu trabalho no Jornal de Angola, que não permite que a TPA e as suas congéneres reportem o lançamento dos meus livros, que não me entrevistem, que mantenha os órgãos de informação estatais (pagos por todos nós) como máquinas de propaganda ao seu único e exclusivo serviço”, começou por escrever Piçarra.
Sérgio, cuja obra é reconhecida por abordar com ironia e coragem temas sensíveis da sociedade angolana, transformou o gesto de recusa num forte protesto em defesa da liberdade de expressão e do pluralismo na imprensa estatal.
“Aceitar uma medalha nestas condições em que se pretende homenagear a liberdade de expressão ao mesmo tempo que se mantém a imprensa pública enjaulada e se reprimem manifestações pacíficas, ou ainda quando se exclui parte da nossa história na atribuição dessas mesmas condecorações, seria uma incoerência da minha parte que o Mankiko e a Fatita, mas sobretudo a Esperança e o Futuro, não me perdoariam. Com o devido respeito e renovado agradecimento, declino a medalha como sinal de protesto na esperança de que num futuro próximo, num momento de total liberdade, as condecorações a atribuir sejam verdadeiramente dignas do seu significado”, disse.
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