Cancro da cabeça e pescoço interrompe percurso académico de adolescentes e jovens

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, por ano, cerca de 450 mil pessoas morrem em todo o mundo, devido ao cancro da cabeça e pescoço, mas as possibilidades de cura variam de 80 a 90 por cento, sobretudo na fase inicial.
Em Angola, particularmente, segundo o que a reportagem deste Jornal apurou, por ocasião do Dia Internacional do cancro da cabeça e no pescoço que hoje se assinala, a doença tem estado a interromper o percurso normal de vida e académico de muitos adolescentes e jovens. O médico especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, Leonel Manuel, colocado no Hospital Josina Machel, em Luanda, disse que a unidade sanitária acompanha actualmente, mais de 100 pacientes com esta doença. Ao Jornal de Angola explicou que dois a três casos novos são registados quinzenalmente, no hospital, afectando mais adultos, embora apareçam também pacientes com 14 e 15 anos de idade. “Mensalmente, atendemos 160 pacientes nas consultas externas e importa referir que temos uma capacidade de oito camas para o internamento, quatro para cada sexo. Mas estamos autorizados a internar em qualquer sala que tenha vaga fora dos nossos serviços”, disse. O cancro da cabeça e pescoço, explicou, é um termo geral que designa um grupo de tumores malignos que se desenvolvem nas vias aerodigestivas superiores (VADS), elementos que formam o conjunto de estruturas anatómicas compartilhadas pelos sistemas respiratório e digestivo do corpo, como o nariz, a cavidade nasal, a faringe, laringe e na pele da região. Estes tumores, segundo o especialista, afectam maioritariamente homens devido à maior exposição a factores de risco e a diferenças biológicas. Para já, disse não existir uma causa específica do problema, mas avançou que há vários agentes que podem se associar para a produção desses inchaços. Agentes de riscoEntre os agentes de risco que aumentam de forma significativa, a probabilidade de contrair a doença, explicou, constam o consumo de tabaco, álcool, infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), exposição solar sem protecção e má higiene oral. Leonel Manuel, precisou, quando diagnosticado em fase inicial, as possibilidades para a cura da doença são de 90 por cento, apenas com cirurgia e radioterapia, mas em estado avançado, a situação torna-se mais difícil, exigindo recurso a quiomiorradioterapias. Incidência em pessoas negras Além disso, o médico esclareceu que o cancro da cabeça e pescoço não escolhe uma raça específica, mas estudos indicam uma maior incidência e mortalidade deste tipo de patologia em pessoas negras, factores impulsionados pelas desigualdades socioeconómicas, ambientais e de acesso aos cuidados de saúde do que pela genética em si. “A nível mundial, os tumores de cabeça e pescoço matam mais pessoas do que a tuberculose, o VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e a malária juntas. Dados do Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC), entre 2008 e 2011, apontam como o terceiro cancro mais frequente no país, depois do cancro da mama e do colo do útero”, disse. O médico sublinhou que a chegada tardia dos doentes às unidades hospitalares é um dos maiores desafios para a saúde pública no país, facto que tem limitado a actuação dos profissionais do sector. “Os pacientes chegam já com tumores avançados, dificuldade em respirar, engolir e falar, o que torna o tratamento mais difícil e agressivo”, frisou. Escassez de especialistas em cirurgia entre os principais desafios para o tratamento A escassez de especialistas em cirurgia do cancro da cabeça e pescoço é um dos principais desafios que deixa de ser um simples alerta em Angola, visto que o país tem apenas quatro médicos formados nesta área, apontou Leonel Manuel. “Somos quatro apenas em todo o país, mas a OMS recomenda um cirurgião para cada 100 a 150 mil habitantes. Agora, para 34 milhões de angolanos, precisaríamos de muito mais”, sublinhou, salientando que deste número, dois operam no Hospital Josina Machel, uma das unidades sanitárias de referência do país. Formas de tratamento O médico explicou que o tratamento do cancro da cabeça e pescoço depende da localização, do tamanho do tumor e do estado de saúde geral do paciente. As abordagens baseiam-se em três pilares principais, entre os quais, cirurgia, radioterapia e quimioterapia. O tratamento, prosseguiu, envolve uma equipa multidisciplinar desde especialista em Maxilo-facial, Otorrinolaringologia e Oncologia. “Alguns pacientes depois da cirurgia ficam com sequelas na fala, mastigação e deglutição, mas depende muito do caso”, explicou. Leonel Manuel disse que os medicamentos para o tratamento da doença são muito caros, por exemplo, a Mitomicina e a ampola de Docetaxel servem para a cobertura do combate à malária. O médico destacou o diálogo como a melhor arma para a prevenção, a população precisa estar em alerta aos seguintes sinais, caroços no pescoço ou abaixo da mandíbula, feridas, manchas vermelhas ou brancas na boca, dificuldade ao falar ou engolir. Ao notar isso, continuou, devem procurar primeiro um centro de saúde ou hospital de referência, se a situação for complicada são enviados directamente para uma unidade sanitária. Papel da família A família, segundo o médico, tem um papel fundamental na identificação precoce e no apoio emocional, tendo em conta que muitos pacientes são abandonados durante o tratamento e ficam como "pacientes sociais". “Aconselhamos a estarem sempre com os vossos familiares, quando estão nessas condições, porque não é fácil. O apoio psicológico, espiritual e alimentação saudável faz diferença na recuperação”, realçou. Crianças no Hospital Geral Heróis do Kifangondo O Hospital Geral Heróis do Kifangondo, município do Cacuaco, província de Luanda, atende diariamente em quimio e radioterapia 60 crianças com diferentes tipos de cancro, disse ao Jornal de Angola a oncologista pediátrica Dália Santos. Apesar de ser uma área de Pediatria, explicou, a unidade tem acordo com outras instituições para atender também dez adultos na radioterapia. “Um dado muito importante, aquando do processo de quimioterapia as defesas do organismo baixam muito. Ao terminar, o paciente deve ficar em isolamento e usar máscara, até uma gripe pode ser fatal”, alertou. O cancro da cabeça e pescoço é considerado raro na população pediátrica, em faixa etária infantil, disse para explicar que são mais comuns tumores malignos encontrados no sangue (leucemias) ou no sistema nervoso central (tumores cerebrais), do que nas vias aerodigestivas e na região cervical como nos adultos. “Como são doenças raras, os sintomas iniciais nestas faixas etárias são muitas vezes confundidos com infecções banais ou problemas benignos da infância”, salientou. Dália Santos referiu ainda que o cancro da cabeça e pescoço não é hereditário, pois, cerca de cinco a dez por cento dos diagnósticos estão associados a uma mutação genética transmitida de pais para filhos, na sua maioria, surge por alterações no ADN adquiridas ao longo da vida. A médica realçou que o hospital tem 34 camas para o internamento, um salão para os pacientes oncológicos e cinco especialistas. Huíla, Benguela, Moxico e Cabinda são as que mais transferem pacientes para o Hospital Geral Heróis do Kifangondo. “Recebemos uma boa notícia. A província da Huíla lidera a transferência de doentes para Luanda. Em breve, vão passar a fazer quimioterapia e radioterapia”, avançou, salientado que muitos pacientes abandonam o tratamento médico devido a longas distâncias, altos custos de transporte e o tempo que ficam em Luanda. O tratamento para o cancro da cabeça e pescoço, de acordo com a médica, dura no máximo dois anos, daí que sem alojamento para as famílias a situação torna-se muito complicada. Dificuldades Dália Santos explicou que a falta de informação e estigma têm criado barreiras críticas e dificuldades para o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados. Segundo a especialista em Oncologia Pediátrica, o medo e a desinformação fazem com que as famílias escondam as crianças à sua condição, essa situação faz com que muitos procurem os tratamentos tradicionais ao invés do convencional. Dália Santos referiu que é fundamental que os pais levem as crianças à consulta de puericultura, sete dias após o nascimento, porque o pediatra consegue identificar sinais de suspeita. “Em casa, podem estar atentos à febre, convulsões, em crianças mais crescida, dor de cabeça persistentes, atraso nos marcos do desenvolvimento, vómitos, perda de força nos braços ou nas pernas”, alertou, salientando que o pediatra é a atenção primária, depois se encaminha o paciente ao oncologista para exames como tomografia ou ressonância para resultados concretos. A médica realçou que os medicamentos para o tratamento do cancro da cabeça e pescoço só são encontrados em hospitais com serviços oncológicos e não nas farmácias. “A Temozolomida é um fármaco usado para tumor cerebral. A mãe não consegue comprar na farmácia e se tiver é super caro, o Ministério da Saúde faz a compra e garante a conservação com todas as normas. O país tem todos os quimioterápicos necessários para dar seguimento ao tratamento dos nossos doentes”, garantiu. Testemunho de pacientes com “drama” da patologia Aos 15 anos, Manuel Capita deveria estar preocupado apenas com os estudos, conviver com amigos e os sonhos próprios da adolescência, mas, há oito meses, a rotina passou a ser marcada por dores intensas, limitações físicas e sucessivas deslocações a hospitais em busca de tratamento. Desde o aparecimento dos primeiros sintomas, com a mãe, Marinela Capita, o adolescente, que no ano lectivo 2025-26 esteve matriculado na 8.ª classe, percorreu várias unidades sanitárias na esperança de encontrar uma solução. Além de limitações para falar, com o tempo, Manuel passou a enfrentar dificuldades para engolir alimentos, inclusive, beber água. As dores são constantes e tão intensas que, em muitos dias, impedem-no até de dormir e, durante meses, o pescoço permaneceu completamente inclinado para um dos lados, obrigando-o a manter praticamente a mesma posição, como se estivesse imóvel. O Jornal de Angola soube que a doença interrompeu também os estudos do adolescente e devido à falta de condições físicas para frequentar as aulas, não conseguiu concluir o ano lectivo. Esperança A esperança está no Hospital Josina Machel, onde o adolescente, natural de Calumbo, província do Icolo e Bengo, deu entrada à unidade por volta das 13h00 do dia 15 deste mês, com enormes nódulos na região cervical. Os médicos que deram a primeira assistência consideram que o estado avançado da doença indica que o tratamento será agressivo, exigindo não apenas cuidados clínicos especializados, mas também acompanhamento psicológico e emocional para o paciente e para a família. Aliás, por conta da doença de Manuel, a mãe vê-se frequentemente obrigada a abandonar o trabalho sempre que o estado de saúde do filho se agrava. Em casa, limitava-se a administrar comprimidos para aliviar temporariamente as dores, enquanto aguardava por uma resposta que nunca chegava. Ao Jornal de Angola, a mãe do Manuel Capita teve dificuldades de contar a história do estado de saúde do filho, pois o sofrimento estampado no rosto dizia muito mais do que as palavras. “Desculpa, minha filha! Não consigo falar. Vai ser difícil. Aliás, está a ver o estado em que ele se encontra. Falo mais o quê? Está difícil”, disse Marinela Capita. Manuel Domingos A par de Manuel Capita que enfrenta o desafio de voltar a viver uma adolescência normal, outra história de resistência comove quem passa por uma das enfermarias do Hospital Josina Machel. O Jornal de Angola encontrou a experiência de outro Manuel, que tem o sobrenome Domingos, internado na unidade sanitária, na 402, onde o paciente de 32 anos, natural da província do Uíge, recebe tratamento médico. Manuel Domingos está internado há um mês, e já foi submetido a uma delicada cirurgia que representa a esperança de um novo começo. Segundo contou, tudo começou quando tinha apenas dez anos de idade, cujo quadro clínico começou quando os primeiros sintomas surgiram com fortes dores de cabeça. Depois, a visão começou a ficar turva, consequência provocada pelo tumor, que aumentava a pressão dentro do crânio e comprometia gradualmente ver de perto e à distância. No início, disse, apareceu apenas um pequeno furúnculo, aparentemente inofensivo, mas a família não imaginava que aquele sinal escondia uma doença tão grave. Com o passar do tempo, contou, as dores tornaram-se cada vez mais intensas e as crises obrigaram-no a abandonar a escola, ainda na 4.ª classe. Sofrimento Os anos passaram e o tumor continuou a crescer, chegando a pesar cerca de quatro quilogramas, disse. O volume transformou-se num enorme fardo físico e emocional em que cada movimento era acompanhado por dores e enormes dificuldades, afirmou. Mesmo assim, nunca deixou de procurar uma forma de ajudar a família, visto que vive com a mãe, já idosa, e uma irmã. O jovem tentou conseguir emprego, mas a sua condição física fechava-lhe todas as portas, tendo por isso recorrido a pequenos trabalhos, que também se tornavam quase impossíveis devido às limitações provocadas pela doença. Apoio social Em 2019, graças ao apoio do Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade de Género do Uíge, deslocou-se a Luanda, onde foi observado no Instituto Oftalmológico Nacional de Angola (IONA), na tentativa de encontrar tratamento para os problemas de visão. Na altura, foi informado de que o país ainda não dispunha de especialistas para um caso tão complexo e que seria iniciado um processo para tratamento no exterior, facto que levou a regressar ao Uíge. Instituto Oncológico com registo de casos novos em um ano Cento e 93 casos de cancro da cabeça e pescoço foram registados de 2025 a 2026 no Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC). Em declarações ao Jornal de Angola, a directora clínica da instituição e especialista em Oncologia, Sales Cândido, explicou que dez ou mais casos novos são descobertos mensalmente com idades compreendidas entre 30 e 65 anos. Muitos desses pacientes, explicou, chegam à unidade sanitária em estado avançado de doença e, a quimioterapia e radioterapia tornam-se mais fácil para o tratamento em relação à cirurgia. “Nosso instituto tem 76 camas para internamento. Temos feito tudo para proporcionar um bom atendimento aos nossos pacientes, envolvendo uma comunicação clara, um ambiente acolhedor e respeito. Esse cuidado faz toda a diferença para o bem-estar de quem precisa”, frisou. A médica avançou que o IACC está a trabalhar para reduzir a taxa de mortalidade na instituição que ronda entre 12 e 15 casos de óbitos por ano, tendo apontado a chegada tardia dos pacientes como maior dificuldade para o tratamento da doença. Cuidar O coordenador provincial da Saúde Mental, Sebastião André, alertou que o paciente enfrenta o cancro, mas quem está ao lado também adoece por dentro. “Quem cuida precisa dividir tarefas, descansar e buscar apoio psicológico para não entrar em esgotamento durante o tratamento. “Nós orientamos que ele compartilhe responsabilidades com outros familiares, é importante que participe em grupos de apoio, porque pedir ajuda não significa fraqueza, mas uma estratégia importante para se prevenir do cansaço físico e emocional “, realçou. Segundo o psicólogo, ao lidar com o impacto emocional do diagnóstico da doença, a família deve reconhecer que sentimentos como medo, tristeza, revolta e insegurança são reacções naturais diante da situação.


