Os automobilistas da província do Icolo e Bengo enfrentam severas dificuldades para abastecer as suas viaturas devido a falhas generalizadas nos Terminais de Pagamento Automático (TPA), decorrentes do ciberataque sofrido pela Unitel na madrugada de 28 de Julho.
O Jornal de Angola constatou que, apesar do restabelecimento gradual da rede de dados e dos serviços de voz, a interrupção afectou milhões de clientes da operadora e continua a paralisar as transacções electrónicas na região. Durante uma ronda efectuada pelas principais bombas de combustível, verificou-se que a maior parte dos postos permanecia sem clientes nas áreas de abastecimento electrónico face às limitações de conectividade da rede móvel. Sem o funcionamento dos TPA associados à rede da operadora, tornou-se impossível efectuar o pagamento de gasolina, gasóleo ou lubrificantes com o cartão Multicaixa. Desde o início da intrusão na infra-estrutura tecnológica da empresa, os abastecimentos passaram a ser comercializados exclusivamente em numerário. A medida gerou fortes transtornos aos condutores, que alegam escassez de dinheiro físico devido a constrangimentos adicionais no levantamento de fundos nas caixas electrónicas locais. Enchentes nos bancosO funcionário público Cláudio Baltazar relatou que tem enfrentado sérios obstáculos para abastecer a sua viatura, uma vez que as bombas de combustível localizadas no itinerário entre o Sequele e Luanda operam exclusivamente com Terminais de Pagamento Automático (TPA) integrados com cartões de dados da operadora Unitel. Ao Jornal de Angola, o automobilista explicou que a única alternativa tem sido o uso de dinheiro físico. Contudo, nos últimos dias, a estratégia esbarrou na escassez de notas provocada pelas longas filas de espera nos caixas electrónicos (multicaixas) e nas agências bancárias. “Nesta fase de pagamento de salários, a procura por numerário aumenta significativamente. O acesso ao dinheiro fica cada vez mais difícil, porque os bancos e os ATM estão sobrelotados”, desabafou. Cenário oposto vive o funcionário Cláudio Cabral, que consegue abastecer com regularidade no posto da Sonangol instalado no Quilómetro 32 (KM 32), no sentido KM 25–Catete, próximo da sua residência. A referida estação de serviço processa os pagamentos electrónicos através de TPA que operam com o sinal da rede móvel Africell. Cláudio Cabral confirmou que, desde o início da instabilidade tecnológica na operadora concorrente, nunca enfrentou dificuldades para efectuar transacções financeiras. “Os pagamentos são processados sem sobressaltos porque a rede sempre esteve estável”, concluiu. Identificação CivilOs serviços do Posto de Identificação Civil e Criminal na Centralidade do Sequele também foram afectados pela falha na rede da Unitel. Devido à instabilidade, a emissão de Bilhetes de Identidade e Registos Criminais encontra-se condicionada, estando a unidade a emitir apenas Boletins de Óbito provisórios em formato manual, cujos dados serão inseridos no sistema informático assim que a conectividade for restabelecida. Desde o primeiro dia da instabilidade da rede, a emissão de Bilhetes de Identidade, cédulas e outros documentos estão suspensos, estando os técnicos em serviço fazer apenas a colheita dos dados. Carolina Ngueve, de 29 anos, procura obter o primeiro registo para posteriormente tratar do Bilhete de Identidade e registar o filho. Na Loja de Registos, onde se dirigiu, foi informada que terá de regressar na quarta-feira, a fim de tratar o documento. “Cheguei de madrugada e, mais uma vez, não fui bem sucedida, mas deixei ficar a minha documentação e recebi a informação de que vou tratar na quarta-feira, caso haja sistema”, relatou. Economista fala dos prejuízos na vida dos cidadãosO economista Miguel Kizua afirmou, ontem, em Luanda, que, quatro dias depois da instabilidade na rede Unitel, o país continua a sentir os efeitos de um incidente que ultrapassa a dimensão tecnológica, expondo a vulnerabilidade da economia digital local e os prejuízos aos cidadãos. As telecomunicações, considerou, constituem hoje um sector estratégico indispensável para o funcionamento do comércio, da banca, dos transportes, da educação e dos serviços públicos. “Quando uma infra-estrutura desta magnitude falha durante vários dias, os prejuízos recaem sobre os comerciantes que deixam de facturar, as empresas que interrompem operações, os trabalhadores que perdem rendimento e os cidadãos que veem comprometidas as actividades essenciais do seu quotidiano”, alertou o especialista. Como desafio futuro, o especialista refere que a Unitel terá de mitigar os danos reputacionais e recuperar a credibilidade junto dos seus clientes. Este processo, concluiu, exigirá total transparência, o reforço dos sistemas de cibersegurança e a implementação de mecanismos robustos que garantam a continuidade dos serviços perante eventuais crises. O analista sublinhou que a resiliência tecnológica deve ser encarada como um pilar de soberania económica nacional.




