Comunidades periféricas denunciam exclusão e carência de serviços na província de Icolo e Bengo

Moradores de vários bairros periféricos da província do Icolo e Bengo denunciam viver em condições de exclusão social, marcadas pela ausência de serviços básicos como água potável, energia eléctrica, saneamento, escolas, unidades de saúde e transporte público.
A situação foi constatada pelo Correio da Kianda durante uma visita aos bairros Sector 3 e Rio Seco, localizados nos arredores do Mayé Mayé, município do Sequele, onde as populações afirmam sentir-se afastadas do desenvolvimento que chega a outras zonas da província.
No Sector 3, Sofia Pedro, residente há sete anos, conta que a falta de energia eléctrica continua a condicionar a vida das famílias. Sem acesso regular à água, muitos moradores recorrem a chafarizes, tanques ou condomínios vizinhos para satisfazer as necessidades básicas.
“Não temos energia, a água também não sai constantemente. Para engomar usamos ferro de carvão. Não temos bancos e existe apenas uma escola”, relatou.
A mesma realidade é vivida por Guida Maria Filipe, que reside no bairro há nove anos. Apesar das dificuldades, mantém a esperança de que as condições venham a melhorar com os investimentos anunciados pelas autoridades.
No bairro Rio Seco, os moradores enfrentam desafios semelhantes. Isabel Teixeira João afirma que a falta de água, energia, escolas e transporte dificulta o quotidiano das famílias e agrava problemas de saúde.
“As crianças sofrem muito com diarreias, vómitos, febres tifóides e paludismo. Aqui é muito difícil viver”, lamentou.
Já Luís Santos refere que os moradores recorrem a um fornecedor privado de energia, suportando custos mensais para terem acesso à electricidade. O cidadão denuncia igualmente a inexistência de escolas públicas, hospitais e postos policiais na localidade.
“Quando precisamos de assistência médica ou de resolver questões de segurança, temos de ir ao Sequele. As crianças caminham longas distâncias para estudar”, explicou.
Segundo os moradores, bairros como Rio Seco, Mulundo, Kivuvu, Vila Kativa, Tande, Sector 3, Bênção e Kifangondo integram um conjunto de cerca de 73 bairros adjacentes ao Mayé Mayé que continuam à espera de melhores condições de vida.
O coordenador-adjunto da Comissão de Moradores do Sector 3, Henrique, explicou que o bairro surgiu em 2012 e enfrentou vários conflitos relacionados com a ocupação dos terrenos. Apesar das dificuldades, assegura que os moradores possuem documentação e mantêm contactos com a Administração Municipal do Sequele para a resolução gradual dos problemas existentes.
Para a socióloga Antónia Alberto, a situação demonstra a necessidade de maior fiscalização do crescimento urbano e de uma intervenção mais efectiva das autoridades para garantir serviços essenciais às populações já instaladas.
A especialista defende ainda a mobilização de instituições públicas, igrejas e organizações da sociedade civil para apoiar comunidades que permanecem afastadas das infra-estruturas básicas e dos serviços públicos.
A equipa de reportagem do Correio da Kianda procurou ouvir as autoridades da Administração Municipal do Sequele para obter esclarecimentos sobre as preocupações apresentadas pelos moradores e os projectos previstos para aquelas localidades. Contudo, até ao fecho desta reportagem, os responsáveis contactados mostraram-se indisponíveis para prestar declarações.
Enquanto aguardam por soluções concretas, milhares de famílias continuam a viver em bairros onde a urbanização ainda não chegou, alimentando o sentimento de exclusão e abandono numa das mais recentes províncias do país.


