O historiador Cristiano Pinheiro de Paula Couto destacou hoje, por ocasião do centenário do nascimento de Fidel Castro, a influência do antigo líder cubano nas guerras de libertação nacional em Angola e na África do Sul.
“A luta de Fidel não se interrompeu com o triunfo da Revolução Cubana, pois desdobrou-se, ganhou vida própria, tendo sido determinante nas guerras de libertação nacional do continente africano, nomeadamente em Angola e na África do Sul”, afirmou o investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (IHC-UNL) à agência Lusa.
Durante a primeira fase da guerra civil em Angola, logo após a proclamação da independência, a 11 de Novembro de 1975, milhares de cubanos - os números apontam para mais de 300 mil militares e outros 50 mil civis - combateram np país, apoiando as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contra a guerrilha da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), então apoiada, até ao início da década de 1990, pelas forças sul-africanas.
Ainda hoje, milhares de cubanos trabalham em Angola, como médicos, enfermeiros, professores e outros técnicos, ao abrigo dos acordos de cooperação entre os dois países aliados.
Os laços entre Fidel e a África do Sul estão fortemente associados à amizade com Nelson Mandela, o líder histórico sul-africano anti-apartheid.
A relação de Mandela, Cuba e Fidel Castro começaram na década de 1970, com o apoio concedido pela ilha comunista ao Congresso Nacional Africano (ANC), o partido de Mandela, quando este estava preso.
Uma das batalhas mais determinantes na queda do apartheid sul-africano, nas palavras do antigo líder Nelson Mandela, foi a Batalha de Cuito Cuanavale, a maior batalha no continente desde a Segunda Guerra Mundial, e que opôs forças cubanas e angolanas contra o exército da África do Sul (SADF).
Havana, sob a liderança de Castro, participou com soldados, aviação e sistemas de defesa antiaérea, resultando na derrota sul-africana e nos consequentes Acordos de Nova Iorque (1988) que, por sua vez, resultaram na independência da Namíbia e no enfraquecimento do regime de apartheid na África do Sul.
Os laços entre Havana e Pretória também foram mudando com a passagem dos anos, mas continuaram fortes sobretudo durante a pandemia de covid-19, quando, em 2020, Cuba enviou centenas de profissionais de saúde para o território sul-africano.
Nas declarações à Lusa, Cristiano Pinheiro de Paula Couto afirmou que um dos momentos-chave do revolucionário cubano no panorama internacional aconteceu em 1961 quando “sob a influência das tensões geopolíticas engendradas pela Guerra Fria, é declarado o carácter socialista da Revolução Cubana, alinhando Cuba ao Bloco do Leste”.
"Esta é a Revolução Socialista e democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes. E essa revolução socialista defenderemos com armas. Viva a revolução socialista", disse Fidel Castro em Abril de 1961.
Ainda sobre o legado do líder histórico cubano, o historiador referiu que as recentes reformas económicas anunciadas pelo actual Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel - de abertura do tecido económico cubano ao investimento estrangeiro face às pressões dos Estados Unidos – foram beber inspiração na liderança de Fidel, porque Havana sempre procurou reformas devido a “desafios provenientes tanto de fora como de dentro”.
“Desde sempre a Revolução Cubana avança no tempo a perseverar nos seus princípios históricos, ao passo que se move e ganha robustez acolhendo reformas. Essas reformas, portanto, não começaram depois do desaparecimento de Fidel, há somente dez anos, mas estiveram sempre presentes, até mesmo sob Fidel, basta lembrar o difícil ‘período especial’, nos anos 1990, na sequência da queda da União Soviética, um importante aliado, não apenas ideológico, como também económico”, detalhou.
O “Período Especial em Tempos de Paz” em Cuba foi uma das mais profundas crises económicas na ilha (entre 1989 e 1991) que, à semelhança do embargo actual de combustível imposto por Washington, afectou o fornecimento de petróleo proveniente da União Soviética e dos incentivos ao comércio externo cubano.
Como consequência, o Produto Interno Bruto (PIB) cubano caiu drasticamente e levou o regime a uma abertura controlada do sector do turismo e de investimento estrangeiro e, em meados dos anos 2000, a uma aproximação da Venezuela, que sob a liderança do antigo presidente Hugo Chávez, começou a fornecer petróleo a Havana.
Desde a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro em Janeiro pelas Forças Armadas norte-americanas, Washington interrompeu o fornecimento de hidrocarbonetos à ilha e adoptou novas medidas de “pressão máxima”, como sanções a funcionários governamentais e do complexo militar cubano.
“O actual momento é inegavelmente de enorme risco para o processo revolucionário cubano”, adiantou Cristiano Pinheiro de Paula Couto.
E acrescentou: “Cuba tem sido acossada ao longo de várias décadas por diversos mecanismos de intimidação: incursões militares (como a invasão da Baía dos Porcos), inúmeras tentativas de assassinato e de decapitação de seus dirigentes, campanhas de desinformação e propaganda, além do bloqueio económico”.
Apesar das pressões da administração liderada pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, o historiador defendeu que “a situação actual está longe de estar definida”.
“Poderá evoluir para um quadro diametralmente oposto, já que estão previstas eleições nos Estados Unidos. Isso poderá provocar dificuldades políticas para a actual administração, com reflexos na política externa para Cuba. Embora isso não implique o fim do assédio, pode conter aventuras temerárias e irresponsáveis”, concluiu, referindo-se às eleições intercalares norte-americanas marcadas para 3 de Novembro.
Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu a 13 de Agosto de 1926, em Birán, uma pequena localidade do município cubano de Mayari, no seio de uma família de origens galegas.
Após 47 anos no poder, a 31 de Julho de 2006, Fidel Castro decidiu afastar-se devido a problemas de saúde e delegou a liderança do regime cubano ao irmão Raul, mais novo cinco anos.
A passagem de testemunho seria definitiva dois anos mais tarde, em 2008.
Fidel Castro morreu em 2016, aos 90 anos.




