A definição das áreas prioritárias de formação em Angola está a gerar posições divergentes entre estudantes, sindicalistas e académicos. No centro do debate está a necessidade de reforçar os cursos técnicos e de engenharia, sem desvalorizar as ciências sociais.
O assunto esteve em análise, esta terça-feira, no espaço “O Dia em Análise”, do programa Prime Time, da Rádio Correio da Kianda, onde os participantes apresentaram diferentes perspectivas sobre a orientação da formação de quadros no país.
O presidente do Movimento dos Estudantes de Angola, MEA, Simão Formiga, defendeu que a definição das prioridades não deve significar a desvalorização de determinadas áreas do conhecimento. Para o líder estudantil, todos os cursos têm importância e é necessária uma orientação vocacional capaz de ajudar os jovens a escolherem as formações de acordo com as suas capacidades e interesses.
“Todos os cursos são importantes, nenhum país se desenvolve apenas com uma área. É necessário que tenhamos, sem desvalorizar ninguém, uma orientação vocacional séria”, afirmou.
Simão Formiga considera que a falta de orientação vocacional e a desvalorização do ensino técnico contribuem para a concentração de estudantes nos cursos de ciências sociais. Defendeu, por isso, que áreas como Sociologia, Psicologia e Filosofia continuem a ser valorizadas.
“Nós entendemos que o país desenvolve-se também com os cientistas sociais. É necessário que o país tenha sociólogos, psicólogos, filósofos. Estes também promovem o desenvolvimento do país, por isso é importante e ninguém pode ficar de fora”, sublinhou.
Já o secretário-geral do SINPTENU, Victorino Matias, considera que a definição das prioridades de formação deveria ter começado mais cedo e a partir da base, sobretudo no ensino geral.
“A medida vem tarde na perspectiva de regulamentação e de definir as prioridades que se pretende. Isso teria de vir a partir da base, do ensino geral sobretudo”, afirmou.
O sindicalista chamou ainda a atenção para a situação de vários institutos médios, que, segundo disse, acabam por formar muitos jovens essencialmente para o acesso ao ensino superior, sem uma componente técnica efectiva.
“Não é ensino técnico como tal e o ensino técnico que temos no país são pouquíssimas as instituições”, lamentou.
Victorino Matias defendeu, por isso, uma reorganização da formação desde os níveis iniciais de ensino, com maior atenção às áreas consideradas estruturantes e estratégicas para o desenvolvimento do país.
Por sua vez, o docente universitário Lindo Bernardo Tito defendeu uma maior aposta nos cursos de engenharia e nas áreas técnicas, considerando que a formação concentrada nas ciências sociais não responde, por si só, às necessidades de desenvolvimento do país.
“O Estado começou a compreender hoje que caminhar só com o curso de ciências sociais não é suficiente. Já levamos anos com esses cursos e, se olharmos para a principal necessidade que temos, é exactamente de cursos de engenharia”, afirmou.
O académico apontou a necessidade de formar mais técnicos nas áreas de informática e construção civil e citou as experiências da China e do Japão para destacar a importância atribuída à formação técnica e profissional.
“A revolução que hoje assistimos na China e no Japão é resultado dos cursos técnicos profissionais. Para além dos cursos técnicos superiores, há também cursos profissionalizantes”, referiu.
Lindo Bernardo Tito entende que cabe ao Estado definir as linhas de desenvolvimento do país e, consequentemente, orientar a formação de quadros de acordo com as necessidades identificadas.
“O Estado tem que definir a sua linha de desenvolvimento. Quem define a linha de formação em qualquer país é o Estado”, sustentou.
O debate revela, assim, diferentes perspectivas sobre a organização da formação em Angola. Enquanto o MEA defende uma abordagem que preserve a diversidade das áreas do conhecimento e reforce a orientação vocacional, o representante sindical e o docente universitário defendem uma maior atenção ao ensino técnico e às engenharias, tendo em conta as necessidades económicas e tecnológicas do país.



