O Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR) teve um papel fundamental na assistência às populações angolanas que procuraram refúgio nos países vizinhos durante a luta de libertação, assegurando cuidados médicos, distribuição de medicamentos e alimentos e a instalação de dispensários junto à fronteira com o então Congo-Leopoldville.
A informação é avançada pelo historiador João Zamba, que destaca a contribuição da organização para o atendimento às populações angolanas deslocadas pela repressão colonial, num período marcado pelo aumento do fluxo de refugiados para os países limítrofes.
A repressão desencadeada pelas autoridades coloniais contra os nacionalistas angolanos levou milhares de pessoas a abandonar o país em busca de segurança. Muitos atravessaram as fronteiras para o Congo-Leopoldville, Congo-Brazzaville e a então Rodésia do Norte, actual Zâmbia.
No Congo-Leopoldville, os refugiados encontravam-se dispersos por diferentes localidades próximas da fronteira com Angola e enfrentavam dificuldades relacionadas com a falta de alimentos, medicamentos, vestuário e assistência sanitária.
A situação era agravada pela ocorrência de doenças tropicais e por casos de subnutrição. Os doentes em estado grave necessitavam, em alguns casos, de tratamento nas unidades sanitárias congolesas, o que exigia recursos financeiros e apoio especializado.
Organização criada para assistir os refugiados
Foi neste contexto que surgiu o Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados.
Segundo João Zamba, a organização foi criada em Conacri, em Julho de 1961, por iniciativa do Comité Director do MPLA, com o propósito de mobilizar quadros médicos angolanos para prestar assistência aos refugiados.
O regulamento interno foi aprovado no mesmo mês e os estatutos ratificados a 21 de Agosto de 1961, data que marcou a oficialização da organização.
Nos termos dos seus estatutos, o CVAAR apresentava-se como uma organização filantrópica e apolítica, aberta à colaboração de pessoas independentemente da origem, sexo, raça, convicções políticas ou crenças religiosas.
Entre os seus principais objectivos estavam a assistência aos refugiados, a promoção da higiene e da profilaxia, o combate às doenças, a protecção materno-infantil e a distribuição gratuita de medicamentos, alimentos e vestuário.
O primeiro Comité de Administração ficou instalado em Brazzaville e era presidido pelo médico Américo Boavida.
Médicos mobilizados para a assistência
A assistência médica constituiu uma das principais áreas de intervenção do CVAAR.
Médicos e enfermeiros angolanos deslocaram-se para as zonas de concentração de refugiados, deixando, em alguns casos, actividades profissionais que desenvolviam noutros países africanos.
Entre 1961 e 1962, o Presidente da Guiné-Conacri, Ahmed Sékou Touré, facilitou a deslocação de médicos angolanos que trabalhavam naquele país para o Congo-Leopoldville e o Congo-Brazzaville, com o objectivo de prestarem assistência às populações refugiadas.
Os profissionais solicitaram igualmente às autoridades congolesas autorização para trabalhar junto dos refugiados. Embora o CVAAR não tenha recebido reconhecimento oficial como organização, as autoridades do Congo-Brazzaville facilitaram a entrada do seu pessoal técnico.
A organização contou também com o apoio de instituições humanitárias e de vários países africanos
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Medicamentos foram obtidos através das Cruz Vermelhas da Suécia, Inglaterra e Brasil, enquanto organizações religiosas e organismos internacionais contribuíam com outros meios de assistência.
Dispensários ao longo da fronteira
Embora a actividade do CVAAR tenha começado no Congo-Brazzaville, foi no Congo-Leopoldville que a organização ampliou significativamente a sua acção.
A 7 de Novembro de 1961, foi inaugurado o dispensário central em Leopoldville, numa cerimónia que contou com a presença de representantes das autoridades congolesas.
No ano seguinte, a organização recebeu autorização para estender a sua actividade a outras zonas do território, principalmente junto à fronteira com Angola, incluindo Songololo e Matadi.
No período de maior actividade, o CVAAR chegou a manter 27 dispensários distribuídos ao longo da fronteira, onde eram prestados cuidados aos refugiados angolanos e, igualmente, a cidadãos congoleses.
A actividade dos profissionais de saúde decorria num ambiente de grande tensão política. Segundo João Zamba, médicos e enfermeiros foram, em algumas ocasiões, agredidos por apoiantes da União das Populações de Angola (UPA).
Apesar das dificuldades, a organização manteve a assistência às populações refugiadas durante o período de maior fluxo de deslocados.
Mudanças políticas levam ao encerramento
A actividade do CVAAR viria a ser afectada pelas mudanças políticas registadas no Congo-Leopoldville em 1963.
Na sequência do reconhecimento, pela Organização da Unidade Africana, do Governo Revolucionário Angolano no Exílio, as autoridades de Leopoldville determinaram o encerramento da organização, a 29 de Outubro daquele ano.
Posteriormente, foi autorizada a reabertura do dispensário central, mas sob a condição de não desenvolver qualquer actividade política. A organização passou a ser vigiada pelas autoridades locais.
Com a transferência da sede do MPLA para o Congo-Brazzaville e o progressivo enfraquecimento das actividades do CVAAR, a estrutura acabou por ser oficialmente extinta em Janeiro de 1964.
Mais tarde, foi criado o Serviço de Assistência Médica, destinado sobretudo a assegurar o apoio médico-sanitário às estruturas da luta de libertação.
Um legado de assistência humanitária
Para o historiador João Zamba, o percurso do CVAAR constitui um importante capítulo da assistência prestada às populações angolanas durante a luta de libertação.
A organização mobilizou médicos, enfermeiros e outros profissionais para atender pessoas que se encontravam em situação de vulnerabilidade nos países vizinhos, contribuindo para responder às necessidades de saúde num período marcado pela guerra, deslocação populacional e dificuldades de acesso aos serviços sanitários.
A instalação de dispensários, a distribuição de medicamentos e alimentos e a prestação de cuidados médicos fizeram do CVAAR uma das estruturas de apoio às populações refugiadas durante aquele período.
O historiador considera, por isso, que a experiência do CVAAR deve ser preservada na memória colectiva, sobretudo pelo contributo dos profissionais que, em condições difíceis, participaram na assistência às populações angolanas refugiadas.
Sobre o autor
João Zamba é licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto e concluiu a parte curricular do Mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada de Angola.
É autor do livro A Solidariedade Africana Durante a Luta de Libertação de Angola (1958-1974), publicado em Novembro de 2025, no âmbito das celebrações do 50.º aniversário da Independência Nacional.




