Jornalista, repórter de guerra, fotógrafo, produtor e realizador de televisão, Nguxi dos Santos é uma voz autorizada dos audiovisuais em Angola. Quando questionado acerca do estado em que se encontra o cinema no país, hoje em dia, o autor de produções marcantes como “Pelo Silêncio das Armas”, “Mamã Muxima”, “O Grande Desafio” e “Um Homem Enterrado Vivo”, disse, na primeira pessoa, que “do ponto de vista do que se faz, como se faz e do que se fala, diria que o cinema angolano está a dar os passos que dá por esforço de várias pessoas que gostam de cinema e que apostaram no cinema, porque, na verdade, grande esforço governamental não vejo a nível de financiamento. Noto que há apoio em termos institucionais, o que já é muito bom, mas que peca pela componente mais importante, ligada ao financiamento”.
Como exemplo sobre o que se faz, o antigo repórter de guerra e realizador falou do filme de curta-metragem “Time to Change”, 2024, premiado no Festival de Locarno em 2026, da directora angolana Pocas Pascoal, que, na sua opinião, constitui modelo paradigmático do esforço que tem sido feito. “E nós temos visto que as pessoas que ganham, que participam em grandes festivais de cinema, são aquelas que vivem fora do país. Nós que vivemos aqui temos ou pouca informação ou pouco dinheiro para poder participar em alguns festivais de cinema no mundo”, considerou Nguxi dos Santos.
Papel da juventude
Para Nguxi dos Santos há uma considerável presença de jovens com muita vontade de fazer cinema e que, pessoalmente, acredita que têm potencial. E alguns com formação.
Disse saber dessa realidade porque, como disse, “convivo com eles, estou no meio deles e interajo com os mesmos”.
Mas voltou a insistir que o cinema não se faz só com gosto, faz-se também, e, fundamentalmente, com dinheiro, educação e políticas públicas que, em muitos aspectos, constituem ainda desafios a serem ultrapassados por todos os intervenientes.
“Hoje, é difícil fazer cinema em Angola, mas trata-se de um desafio que é possível superar, se todas as variáveis se juntarem, com o papel de cada um devidamente enquadrado. O sucesso de cada um passará a ser uma realidade”, afirmou Nguxi dos Santos.
Melhores formatos no contexto angolano
Relativamente à realidade angolana, questionámos a Nguxi dos Santos qual o formato que, em termos de exequibilidade e contexto económico, social e cultural, melhor se adequa ao país, e o antigo produtor do histórico programa televisivo “Opção”, que retratava o período de guerra em Angola 1975-1991, disse que “qualquer um documentário, de longa ou de curta-metragem, serve o contexto em que nós estamos a viver e é, sempre, muito importante, na abordagem de qualquer um dos temas nesse momento”. Acrescentou que “o cinema ou os documentários são coisas que vão acontecendo, é uma realidade que se vive”.
Nguxi dos Santos lembrou, ainda, que “depois da nossa Independência, em 1975, já estávamos a fazer cinema, porque já tínhamos mais ou menos um formato que estava a ser feito que era o documentário de pendor mais político”.
O que Angola precisa
Tendo em conta a herança da luta anticolonial, o contexto de rivalidade política entre os movimentos nacionalistas MPLA, UNITA e FNLA, que contribuíram para a polarização da sociedade angolana, o cinema foi chamado a contribuir para afugentar a desunião e as tendências do regionalismo e do tribalismo que ameaçavam a pretendida unidade nacional,.
Foi nesta senda que os documentários de pendor político e cultural ganharam expressão em nome da unidade nacional, segundo Nguxi dos Santos, independentemente de alguns excessos que terão sido cometidos por força do referido contexto em que Angola precisava de unir os seus povos na construção da tão almejada “uma só nação”.
“O cinema e a televisão começaram a fazer documentários, filmes que, de certa forma, esclareciam, reuniam o povo angolano, que era de Cabinda ao Cunene, o seu povo, uma só nação. Então era desta maneira que os filmes eram rodados. Eram filmes e documentários políticos que fomos vendo e, naquela altura, quem tinha entre 15 e 20 anos de idade, conseguia ver nas salas de cinema, no Karl Marx, no 1º de Agosto, 1.º de Maio, Miramar, entre outras salas de cinema, aqui em Luanda, o que eram e para que serviam as peças cinematográficas ali produzidas. Eram documentários de sensibilização ao povo angolano”, disse Nguxi dos Santos.
Para o galardoado, duas vezes, com o Prémio Nacional de Cultura e Artes e homenageado em festivais como o FESC Kianda, a realidade actual do país precisa de ser transportada para a tela prateada, na medida em que ajuda à melhor compreensão acerca do que Angola vive hoje, quais os desafios que enfrenta e como perspectiva o seu caminho para o futuro. “Sou de opinião que tudo o que se vive hoje, sem escamotear nada e até para evitar aproveitamentos que manipulam a opinião pública, deve retratado em vários formatos, porque em meu entender isso ajuda a informar, a formar e a preparar o povo contra tentativas de manipulação da sua opinião”, disse Nguxi dos Santos.
Contributo económico
Economicamente falando, disse o realizador e produtor, quanto ao que o cinema produz hoje e o que, em condições normais, iria produzir, “com financiamento, formação de actores, realizadores, produtores e outros intervenientes, o país pode assistir a um contributo expressivo da sétima arte à economia nacional”. Nguxi dos Santos explicou que “o cinema é um mundo muito grande, onde tens que ter os contabilistas, tens que ter a produção séria, tens que ter o dinheiro, tens que ter os temas. Assim, iríamos fazer muito mais. Acho que nós em Angola não queremos fazer filmes de Hollywood, mas queremos fazer filmes da nossa realidade, desde a Angola Independente. Nós temos muitos temas para fazer filmes”.
Hoje, segundo o realizador e produtor, “não estão a dar essa possibilidade, não estão a usar a sétima arte para se fazer uma Angola renovada, para termos uma Angola em condições, porque em condições normais, para aqueles que conhecem e gostam da televisão, gostam do cinema, nós estaríamos bem. É aquilo que eu disse antes, nós temos vários temas, vários cenários em Angola, nós somos um povo que não tem os grandes problemas que se tem a nível da África, porque nós somos unidos. Nós falamos vários dialectos, várias línguas maternas em Angola, e todos nós nos conhecemos, nós somos um povo, temos família em todo o sítio”.
Nguxi dos Santos disse, ainda, que “se nós agarrarmos nesses nossos temas e fIzermos bons documentários, bons filmes, acho que Angola iria vender bem e teria um retorno de dinheiro muito grande. Agora, a verdade é que não há financiamentos, a verdade é que não há pessoas que querem apostar no cinema, no audiovisual e na formação das pessoas. Podemos ter tudo, mas sem ter formação, não vamos fazer filmes com qualidade”.



