Especialista alerta para impacto emocional em crianças criadas sem a presença dos pais

A crescente realidade de crianças e adolescentes criados pelos avós, devido à morte dos pais, abandono familiar, negligência, alcoolismo ou fuga às responsabilidades parentais, continua a levantar preocupações quanto aos efeitos no desenvolvimento emocional dos menores. O alerta é do psicólogo clínico Francisco Adriel, que defende uma intervenção mais efetiva da família, da sociedade e das instituições públicas.
Segundo o especialista, a ausência dos pais durante a infância deixa marcas profundas no desenvolvimento psicológico das crianças, influenciando a forma como constroem a autoestima, estabelecem relações interpessoais e enfrentam os desafios da vida.
“O vínculo afectivo com os pais desempenha um papel determinante no crescimento saudável da criança. Quando esse vínculo é interrompido pelo abandono ou por outras circunstâncias, podem surgir sentimentos de rejeição, insegurança e dificuldades emocionais que se prolongam até à idade adulta”, explicou.
Em Luanda, muitas destas crianças encontram nos avós o único suporte familiar. São, na maioria dos casos, as avós que assumem integralmente a responsabilidade de cuidar, educar, alimentar e proteger os netos, apesar das limitações financeiras e físicas próprias da idade.
Embora reconheça que os avós desempenham um papel essencial na proteção e estabilidade emocional dos menores, Francisco Adriel alerta que a sobrecarga enfrentada por estes cuidadores pode comprometer a qualidade do acompanhamento prestado, sobretudo quando não existe apoio da restante família ou das instituições.
O especialista considera que esta realidade exige políticas públicas mais consistentes de proteção à infância e de apoio às famílias cuidadoras, bem como mecanismos que reforcem a responsabilização dos pais pelo cumprimento dos seus deveres parentais.
Além do apoio material, defende a criação de serviços de acompanhamento psicológico e social para crianças e adolescentes afetados pelo abandono familiar, permitindo minimizar os impactos emocionais e favorecer um desenvolvimento saudável.
Entre histórias de perda, abandono e sacrifício, milhares de avós continuam a assumir o papel de pais para garantir que os netos não fiquem desamparados. Para Francisco Adriel, contudo, esta resposta familiar, embora fundamental, não substitui a responsabilidade parental nem dispensa uma ação coordenada do Estado e da sociedade na proteção das crianças.



