Homenagem às crianças vítimas do regime racista do Apartheid

No dia 16 de Junho de 1976, registou-se o massacre de Soweto, em Joanesburgo, na África do Sul, e em honra das crianças vítimas do regime racista do Apartheid a data é comemorada como uma autêntica memória histórica.
Na manhã desse dia, cerca de 20 mil estudantes do ensino público saíram em protesto contra a introdução obrigatória do ensino da língua africânder (usada apenas por uma parte da minoria branca do país). A manifestação começou pacificamente, mas acabou por ser alvo de repressão policial e culminou em várias semanas de motins, com centenas de mortos, sobretudo, crianças e adolescentes. Logo nos primeiros momentos, a Polícia fez 23 mortos com disparos de balas reais. Ao longo dos dias da manifestação, teria havido 700 mortos entre os estudantes.
Em 1991, a Organização da Unidade Africana (OUA) instituiu o 16 de Junho como o Dia da Criança Africana, para perpetuar a memória das vítimas da repressão no Soweto (South Western Townships), na África do Sul, e sensibilizar para a situação social em que se encontra a população jovem do continente, sistematicamente vítima de violência, exploração e abusos de todo o tipo.
Menos de dois meses antes, no dia 30 de Abril de 1976, os alunos da Escola Júnior de Orlando-Oeste, um bairro do Soweto, fizeram uma greve às aulas.
Este movimento grevista estendeu-se, durante o mês de Maio, a outras escolas do Soweto, em que os estudantes negros exigiam o mesmo tratamento que era dado aos estudantes brancos.
Em Junho, no dia 13, foiconstituído um comité de acção que organizou um grande encontro das escolas negras para o dia 16, neste dia, de manhã, iniciaram as manifestações pacíficas, apoiadas pelo Movimento de Consciência Negra. O comité de acção do Soweto tinha programado um desfile de estudantes até ao Orland Stadium.
Os jovens erguiam cartazes contra a obrigatoriedade do ensino da língua afrikânder e contra o Primeiro-Ministro John Vorster, proclamando a Azânia como o nome do país, defendido pelos movimentos de libertação. Ao local, foram enviados 50 polícias, encarregados de, segundo as ordens do ministro da Justiça, Jimmy Kruger, manter a ordem a todo o custo e usarem todos os meios para dispersar os manifestantes.
Os mesmos partiram de 20 escolas, mas, de repente, viram-se bloqueados por uma barricada da Polícia. Os estudantes desviaram o caminho para o estádio mas as forças policiais antimotim surgiram na sua frente. Alguns estudantes apedrejaram os polícias, mas a maioria continuou a desfilar pacificamente.
O coronel Kleingeld, responsável da operação policial, ordenou a dispersão dos manifestantes, no que não foi obedecido, faz o primeiro disparo com bala real, provocando o pânico e o caos entre os jovens, aumentado quando se começaram a registar tiros de gás lacrimogéneo. Um dos primeiros estudantes abatido foi Hector Pieterson, que se tornou o ícone da manifestação. A foto em que ele é socorrido pelo seu colega de classe Mbuyisa Nzima, deu a volta ao mundo. Os serviços médicos de urgência foram então inundados por jovens ensanguentados e feridos por balas, e os médicos recusaram dar os seus nomes à polícia.
No dia seguinte, para fazer frente à escalada de violência, veículos blindados, helicópteros e 1.500 polícias fortemente armados foram enviados para o Soweto. Veículos e autocarros foram incendiados, e as Forças Armadas colocadas em estado de alerta.
Os acontecimentos propagam-se rapidamente a outras townships do país, e mesmo algumas cidades brancas são atingidas. Em Joanesburgo, 300 estudantes brancos da Universidade de Witwatersrand desfilaram no Centro da cidade em protesto contra a repressão contra os estudantes negros.
Por todo o lado, trabalhadores negros fazem greve e na Universidade de Zululândia, prédios universitários são incendiados.
A violência só cessou no Soweto no dia 18 de Junho mas manteve-se noutras partes do país. No mês de Agosto, três dezenas de pessoas foram mortas em Port Elizabeth e outras 92 em townships da Cidade do Cabo.
A repressão foi brutal e Steve Biko, dirigente do Movimento de Consciência Negra, é preso e morre na prisão no dia 12 de Setembro de 1977.O ANC ganha força e aparece como uma organização estruturada para organizar os estudantes, com um discurso multirracial que envolveu camadas progressistas da comunidade branca.
Em Julho de 1976, um mês depois dos acontecimentos de Soweto, o regime racista retira o decreto que tornava obrigatório o ensino da língua afrikaner e três meses depois a língua inglesa é definida por lei como a língua principal do ensino nas escolas públicas para negros.
No ano seguinte, a ONU decreta o embargo da venda de armas a Pretória e um boicote económico é instituído a nível mundial.
Os Governos de John Vorster e depois de Pieter Botha nunca mais conseguiram devolver ao país a estabilidade política dentro do quadro do Apartheid.
Os trágicos acontecimentos de Soweto, de Junho de 1976, foram o tema do filme «Cry Freedom» do cineasta britânico Richard Attenborough.
Era a época da Consciência Negra, do Black Power nos EUA, dos escritos de Du Bois sobre a negritude. O regime racista sul-africano ligou Soweto ao Movimento de Consciência Negra (BPC), e à Convenção do Povo Negro e outros movimentos de consciência negra são banidos e os seus líderes presos e muitos torturados.
O seu líder, Steve Biko, não sobreviveu aos espancamentos na cabeça e morreu na cadeia. O BPC ressurgiu no Azania People’s Organization.
Todos os anos, o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), organiza eventos para chamar a atenção dos direitos da criança em África e no mundo.O 16 de Junho passou a ser um chamamento mundial para a dignidade e os direitos das crianças africanas.


