A 1 de Outubro de 2024, Ismael Mateus deixou de fazer parte do quotidiano dos que com ele conviveram, trabalharam e aprenderam. O jornalista, escritor e educador deixou também uma editora concebida para preservar histórias, documentar conhecimentos e impedir que determinadas memórias ficassem condenadas à fragilidade da transmissão oral.
Dois anos depois, a Ta- moda continua a escrever essa história. Fá-lo, porém, com outras ferramentas, novas técnicas e uma visão que, sem romper com a vocação inicial, alarga o universo de possibilidades do livro.
Nas mãos dos filhos e de outros familiares que assumiram a continuidade do projecto, a editora passou a explorar a encadernação artesanal, a produção de papelaria, a impressão manual e a transformação de materiais reciclados.
O livro permanece no centro da actividade, mas já não é visto apenas como suporte de texto. É também um objecto, cuja forma, textura, papel, costura e acabamento participam na experiência de leitura.
A mudança tem uma dimensão empresarial, mas representa, igualmente, uma forma de lidar com a herança de um homem que atribuía particular importância à produção e à partilha do conhecimento.
«Não queremos apenas conservar a Tamoda que recebemos. Queremos fazer com que aquilo que Ismael construiu continue a produzir conhecimento, formar pessoas e criar novas possibilidades», afirma Pamina Sebastião, responsável pelo projecto.
A frase resume o espírito de uma transformação que não pretende reproduzir exactamente a estrutura deixada pelo fundador. A intenção é preservar o que esteve na origem da editora e, a partir daí, construir uma nova etapa.
Um projecto concebido para preservar memórias
A Tamoda nasceu pelas mãos de Ismael Mateus com uma missão essencialmente editorial. O propósito inicial era investigar, documentar e divulgar histórias, conhecimentos e experiências que, em muitos casos, circulavam apenas através da oralidade.
A preocupação com a memória ocupava um lugar central nessa visão. Muitas narrativas transmitidas entre pessoas e gerações correm o risco de desaparecer quando não são registadas. Transformá-las em texto escrito significava criar outras condições para a sua preservação, circulação e consulta.
A editora procurava, assim, contribuir para que diferentes saberes encontrassem lugar no universo da publicação, permitindo que fossem conhecidos para além dos círculos em que tinham sido originalmente transmitidos.
A dimensão artesanal não fazia parte do projecto inicial. A actividade estava mais directamente ligada à edição, à impressão gráfica e à produção de publicações. A encadernação e a experimentação com o livro enquanto objecto surgiram posteriormente, num processo que ganhou outra dimensão com a morte do fundador.
Para a família, dar continuidade à Tamoda significou assumir mais do que uma estrutura de trabalho. Implicou preservar uma determinada concepção do conhecimento, da educação e da relação com as novas gerações.
Ismael Mateus não era apenas o homem que criara uma editora. Era também um educador e uma referência para jovens que encontraram nele incentivo para escrever, investigar, questionar e produzir conhecimento.
Essa dimensão tornou-se uma das referências da nova etapa. A família entendeu que manter vivo o projecto exigia não apenas conservar o que existia, mas encontrar formas de continuar a cumprir a missão que lhe dera origem.
A transformação não deve, por isso, ser entendida como uma ruptura com a actividade editorial. Trata-se de uma ampliação do campo de intervenção, em que a edição passa a dialogar mais directamente com o design, a impressão artesanal, a encadernação e a investigação de materiais. A memória do fundador permanece como referência, mas a sua continuidade é procurada através de novas práticas.
Duas marcas numa visão editorial
A actual estrutura da Tamoda está organizada em torno de duas marcas complementares. A Editora Tamoda mantém a ligação à edição e aos objectos editoriais, enquanto o Estúdio Mafumeira concentra uma parte importante do trabalho de impressão artesanal, encadernação e experimentação material.
A divisão permite distinguir áreas de actividade que, na prática, se alimentam mutuamente. O que é desenvolvido no estúdio pode ser incorporado numa publicação da editora, tal como as necessidades de um projecto editorial podem estimular novas experiências com papel, impressão ou técnicas de encadernação.
O livro deixa, assim, de ser pensado apenas a partir do conteúdo e da paginação. A sua construção física passa a integrar o processo criativo desde as primeiras decisões.
Que papel utilizar? Que tipo de capa se adequa ao conteúdo? Que técnica de costura responde melhor ao formato e ao número de páginas? Que textura, cor ou acabamento pode acrescentar significado ao objecto?
São questões que fazem parte da pesquisa desenvolvida no Estúdio Mafumeira e ajudam a definir a linguagem que a Tamoda procura construir.
O último ano foi marcado pela aprendizagem de novas técnicas, pelo investimento em equipamentos e pelo desenvolvimento de um catálogo de papelaria artesanal. Foi, também, um período de experimentação, durante o qual diferentes materiais e processos foram testados para avaliar as suas possibilidades e limitações.
A intenção é que o resultado não seja apenas uma colecção de produtos feitos à mão, mas uma proposta editorial com identidade reconhecível.
A relação entre as duas marcas constitui uma das particularidades do projecto. A produção artesanal não aparece isolada da edição, nem a editora se limita a encomendar a terceiros todas as operações necessárias à construção de um livro.
O objectivo é desenvolver competências que permitam acompanhar várias etapas, desde a concepção até ao acabamento, explorando a relação entre conteúdo e materialidade.
A actividade da Tamoda abrange actualmente cadernos, agendas, blocos de notas, cartões, cartazes, zines, livros de artista, pequenas edições e outros objectos em papel. A estes produtos juntam-se encomendas de papelaria artesanal destinadas a empresas e instituições, uma área que a equipa começou a desenvolver de forma mais estruturada.
O catálogo encontra-se em expansão e reflecte a diversidade de técnicas que o estúdio procura dominar. Há produtos de concepção relativamente simples e outros que exigem operações mais demoradas, sobretudo quando incluem capas especiais, impressão manual ou materiais produzidos no próprio espaço.
A papelaria corporativa representa uma oportunidade de aproximar o trabalho artesanal de clientes institucionais. A equipa procura adaptar os seus processos às necessidades das empresas, sem transformar o produto numa peça industrial padronizada.
A tarefa exige conciliar a identidade artesanal com requisitos de apresentação, precisão e consistência. Uma encomenda institucional pode exigir vários exemplares com características semelhantes, o que obriga a controlar as diferenças naturais de um processo em que a intervenção humana continua a ser determinante.
Ao mesmo tempo, os artistas e escritores oferecem espaço para uma exploração mais livre do livro enquanto objecto.
Nas publicações de artista, a impressão, o papel, a costura e a capa podem dialogar com a proposta visual e conceptual da obra. A encadernação deixa de ser apenas uma operação destinada a manter as páginas unidas e passa a participar da linguagem da publicação.
É essa possibilidade que a Tamoda procura explorar, tanto nas colaborações com criadores como nas futuras edições da obra de Ismael Mateus.
A costura como linguagem
A encadernação artesanal constitui uma das áreas centrais da nova etapa. No Estúdio Mafumeira, a equipa trabalha diferentes técnicas de costura, procurando compreender as suas características e a adequação a cada tipo de publicação.
Entre as técnicas exploradas estão a costura japonesa, o ponto de sela, a costura de corrente, a costura francesa, a copta e a belga. A costura de centro, realizada à máquina, integra igualmente as possibilidades de produção.
A escolha depende de factores como o formato do livro, o número de páginas, os materiais utilizados e o efeito pretendido.
Algumas técnicas permitem deixar a costura visível, tornando-a parte da identidade visual do objec- to. Outras respondem a necessidades específicas de montagem, resistência ou acabamento.
A experimentação não se limita às técnicas de costura. A pesquisa inclui a construção das capas, a escolha de materiais, a utilização de diferentes superfícies e a exploração de processos de impressão.
No estúdio, o papel pode assumir diferentes texturas, cores e espessuras. Pode ser adquirido no mercado ou produzido a partir de materiais reciclados e elementos orgânicos. Pode receber textos, padrões, desenhos ou imagens através de técnicas distintas.
A intenção é construir uma linguagem em que as decisões materiais não sejam meramente decorativas, mas participem da concepção do objecto editorial.
Uma das referências dessa pesquisa é a Biblioteca Mafumeira, constituída pelo encontro entre a biblioteca pessoal de Ismael Mateus e a biblioteca pessoal de Pamina Sebastião.
O acervo representa uma ligação entre memória, conhecimento e criação. A partir dele, a equipa procura desenvolver uma relação com o livro que ultrapasse a sua função de transportar informação e valorize também a forma como é construído, manuseado e preservado.
O percurso de um exemplar
Produzir um livro artesanal exige uma sequência de operações que começa antes da montagem propriamente dita.
O primeiro passo é definir o objecto. É necessário estabelecer o formato, o número de páginas, o tipo de papel, a capa e a técnica de encadernação. Estas escolhas condicionam as etapas seguintes e determinam, em grande medida, os materiais e o tempo de trabalho necessários.
Segue-se a preparação dos ficheiros e a impressão. As folhas são depois cortadas, dobradas e organizadas em cadernos, de acordo com a estrutura prevista para a publicação.
Em paralelo, prepara-se a capa, incluindo o corte, o revestimento e os elementos gráficos. Dependendo do projecto, pode haver aplicação de títulos por carimbo a quente, impressão em serigrafia ou outros acabamentos. Depois da preparação dos diferentes componentes, os cadernos são unidos através da técnica de costura escolhida. Seguem-se a montagem, a prensagem e os acabamentos finais.
A sequência varia em função do tipo de publicação e da técnica utilizada. Quando o projecto inclui papel artesanal, por exemplo, a produção do suporte acrescenta novas operações ao processo. É necessário preparar a matéria-prima, experimentar a consistência e a textura, produzir as folhas e avaliar a sua adequação à impressão e à encadernação.
A equipa trabalha tanto com papéis disponíveis no mercado angolano como com materiais que começa a produzir no próprio estúdio.
O investimento em máquinas tradicionais de encadernação, prensas, ferramentas de corte e outros equipamentos permite controlar melhor várias etapas e obter maior precisão.
Ainda assim, o acompanhamento humano continua a ser indispensável. Mesmo quando uma operação é realizada com recurso a uma máquina, é necessário preparar os materiais, ajustar o equipamento e verificar o resultado. A concepção e a execução continuam dependentes das pessoas.
Menos de dez colaboradores
A Tamoda conta, actualmente, com menos de dez pessoas, na maioria jovens e mulheres. A equipa integra diferentes funções, ligadas à impressão, à contabilidade, à encadernação e a outras áreas de produção.
A estrutura é complementada por uma rede de artistas, designers e colaboradores especializados, cuja participação permite desenvolver projectos que exigem competências específicas.
Na serigrafia, a Tamoda conta com Sabalo Vintém, Josimar Quiximba e Dárcio Costa. Na lino gravura, trabalha com o mestre Manuel Ventura. Na área do design, tem colaborado com Akira Mazambi e Aldair Cajicua.
Gegé M'Bakudi, Victoria Marques e Tiago Mena Abrantes estão entre os artistas locais envolvidos em trabalhos de papelaria artesanal.
A colaboração permite à editora e ao estúdio aceder a diferentes linguagens visuais e técnicas, ao mesmo tempo que cria oportunidades para a partilha de conhecimentos.
A Tamoda não pretende funcionar como um espaço fechado, concentrando todas as competências no seu núcleo permanente. A rede de parceiros faz parte do modelo de trabalho e permite reunir pessoas de diferentes áreas em função das necessidades de cada projecto.
Esta abertura está relacionada com a concepção de conhecimento que a família associa ao legado de Ismael Mateus. A produção e a aprendizagem são entendidas como processos que ganham quando existe partilha.
A equipa reduzida, por outro lado, coloca desafios à organização do trabalho, sobretudo quando é necessário conciliar encomendas, formação e experimentação.
A ampliação dos recursos humanos está entre as perspectivas futuras, mas deverá acompanhar a consolidação dos processos e a capacidade de assegurar condições adequadas de trabalho.
A encadernação artesanal exige conhecimentos técnicos, mas também características pessoais que in- fluenciam a aprendizagem. É necessário dominar operações de corte, dobragem, costura, colagem e preparação de capas, conhecer os materiais e compreender o comportamento de diferentes papéis e revestimentos.
A impressão, a gravura, a serigrafia e o design são igualmente importantes para quem pretende trabalhar de forma integrada na produção de livros e papelaria. A actividade exige paciência, atenção ao detalhe, precisão e disponibilidade para repetir operações até alcançar o resultado pretendido.
A aprendizagem faz-se, em grande medida, através das mãos. É preciso experimentar, observar, corrigir e voltar a executar. Um gesto que parece simples pode exigir várias tentativas até ser realizado com consistência.
A equipa considera que essa dimensão prática pode tornar a encadernação artesanal uma área de formação profissional para jovens.
O estágio realizado na PULP Paperworks, na África do Sul, teve um papel importante no percurso. A experiência permitiu aprender directamente técnicas e processos que começaram depois a ser adaptados à realidade do estúdio.
A formação não se esgotou no estágio. A produção diária tem funcionado como espaço de aprendizagem, permitindo testar materiais, avaliar resultados e compreender melhor as exigências de cada técnica.
Os intervenientes reconhecem que ainda está a consolidar conhecimentos. Não pretende se apresentar como uma estrutura que já domina todas as possibilidades da encadernação artesanal.
A opção tem sido aprender, experimentar, corrigir e transmitir o que vai sendo adquirido. Também não existe, por enquanto, um prazo definido para que um aprendiz alcance autonomia técnica. É possível compreender rapidamente os princípios de uma técnica, mas reproduzi-la com qualidade e consistência exige prática.
A autonomia depende da repetição, da experiência e da capacidade de compreender não apenas como executar uma operação, mas por que razão se escolhe determinado material ou procedimento.
A equipa prefere, por isso, não apressar a formação. O objectivo é que cada pessoa compreenda o trabalho que realiza e desenvolva competências que possam ser aplicadas de forma consistente.
O tempo necessário para produzir um exemplar varia em função da técnica e da complexidade do objecto.
Um caderno simples pode ser relativamente rápido de executar. Já uma encadernação com costuras elaboradas, capa especial ou papel produzido manualmente pode exigir várias horas.
A duração total não corresponde apenas ao tempo de costura e montagem. Inclui a preparação dos ficheiros, a impressão, o corte, a dobragem, a preparação dos materiais e a organização dos cadernos. Quando é necessário produzir o próprio papel, o processo torna-se ainda mais demorado.
A Tamoda está a desenvolver mecanismos para medir melhor os tempos de produção e identificar possibilidades de ganhar eficiência sem comprometer a qualidade.
A questão tem consequências directas na formação dos preços. O valor de um objecto artesanal não depende apenas do papel, da tinta ou dos materiais utilizados. Inclui também o tempo de trabalho, o conhecimento técnico, a utilização dos equipamentos e as operações necessárias para chegar ao produto final.
A mão-de-obra representa, por isso, uma componente importante da estrutura de custos.
Uma agenda ou um caderno pode parecer um objecto simples, mas envolve várias etapas. A introdução de técnicas de impressão manual, serigrafia, papel artesanal ou costuras especiais aumenta o tempo de execução e, consequentemente, o custo.
A equipa está ainda a aprender a calcular esses encargos com maior rigor. É necessário considerar os materiais, o tempo de trabalho, o desgaste dos equipamentos, a manutenção, o desperdício e os custos associados à aprendizagem.
O investimento inicial em máquinas e ferramentas representa igualmente um encargo que precisa de ser considerado na sustentabilidade do projecto.
A editora procura encontrar um equilíbrio entre a valorização do trabalho, a qualidade dos produtos e os preços que o mercado angolano pode comportar.
Máquinas ao serviço do trabalho manual
A aquisição de equipamentos foi uma das decisões importantes na transformação da Tamoda. O estúdio dispõe de guilhotinas, prensas, máquinas de costura, equipamento de carimbo a quente, instrumentos de gravura e serigrafia, além de ferramentas específicas para encadernação.
O investimento pretende criar condições para que a produção artesanal alcance um nível de acabamento compatível com as exigências de diferentes clientes.
A utilização de máquinas, contudo, não significa que a Tamoda esteja a adoptar um modelo industrial.
Parte dos equipamentos corresponde a máquinas tradicionais utilizadas na encadernação artesanal. A sua função é facilitar determinadas operações, aumentar a precisão e permitir um controlo mais rigoroso da produção.
O corte da capa, a preparação do forro, a dobragem das folhas, a organização dos cadernos, a costura e a montagem continuam a exigir intervenção humana.
A diferença em relação à produção industrial está, em grande medida, no grau de automatização e padronização. Na produção artesanal, cada etapa é acompanhada de perto, permitindo ajustar procedimentos em função dos materiais e das características de cada exemplar.
Isso não significa que todos os livros sejam necessariamente únicos, nem que a produção artesanal esteja impedida de responder a encomendas de vários exemplares. Significa, antes, que a execução depende de operações em que o conhecimento técnico e o trabalho manual mantêm um papel central.
Para a Tamoda, o desafio consiste em garantir que a intervenção humana não seja sinónimo de improvisação. “A máquina é uma ferramenta. A decisão criativa e a execução continuam a passar pelas pessoas”, afirma Pamina Sebastião.
A precisão técnica é entendida como parte da qualidade artesanal, e não como uma característica exclusiva da produção industrial.
Caminhada ainda está longe da meta
O primeiro ano de actividade artesanal estruturada não foi orientado para a produção em grande escala.
O percurso está longe de concluído. A memória de Ismael Mateus está presente na origem do projecto, na Biblioteca Mafumeira, nos livros que a família pretende reeditar e na convicção de que o conhecimento deve continuar a ser produzido e partilhado.
Se a editora que deixou não é exactamente a mesma que hoje existe, a mudança não significa necessariamente o afastamento do seu legado. A Tamoda procura honrá-lo através da transformação.
Os livros de Ismael poderão voltar a circular com novas capas, novos papéis e novas costuras. Os textos permanecerão, mas os objectos que os transportam poderão adquirir outras formas. Neles estarão também as mãos de quem os produziu, as técnicas que foram aprendidas e a história de uma família que decidiu continuar a editora.
Dois anos depois da morte de Ismael Mateus, a Tamoda tem mais do que uma memória para evocar. Tem um projecto em curso, com novos desafios e possibilidades.
Uma editora criada para impedir que determinadas histórias se perdessem procura, agora, garantir que a sua própria história continue a ser escrita. Não apenas nas páginas dos livros, mas também nas mãos que os constroem.




