Durante as aulas, palavras em Umbundu rompem, por instantes, com a rotina habitual do ensino em língua portuguesa. À frente dos estudantes, a professora Amália Mbenguela transforma palavras, saudações e expressões numa oportunidade para aproximar os alunos das suas raízes culturais.
Mais do que ensinar vocabulário e regras gramaticais, a docente procura despertar nos estudantes o interesse por uma parte da história e da cultura angolana durante muito tempo afastada do ambiente escolar.
Nas aulas, os alunos aprendem Umbundu através de exercícios, conversas e exemplos ligados ao quotidiano. Especialista na língua, Amália Mbenguela acredita no papel decisivo da escola para transmitir este património às novas gerações.
O trabalho, contudo, não está isento de dificuldades. Durante muito tempo, línguas como o Umbundu permaneceram associadas sobretudo ao ambiente familiar e comunitário. Perante esta realidade, a professora procura adaptar os conteúdos e desenvolver estratégias capazes de despertar o interesse dos estudantes pela aprendizagem.
A experiência de Amália Mbenguela traduz um desafio muito mais amplo. No presente ano lectivo, o ensino geral público conta com cerca de 9,8 milhões de estudantes matriculados. Neste universo, a implementação efectiva das línguas nacionais continua a ser um dos desafios do sistema educativo, apesar da existência de instrumentos legais favoráveis à sua introdução nos diferentes subsistemas de ensino.
Linguistas, sociólogos e educadores defendem a inclusão destas línguas no ambiente escolar como forma de preservar a identidade cultural e aproximar o ensino da realidade sociocultural dos alunos, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade.
Para a professora de Kimbundu Luísa Gama, a importância das línguas nacionais ultrapassa a simples comunicação. Cada língua representa um factor de identidade colectiva e constitui um marco histórico, permitindo compreender a existência das comunidades angolanas antes do período colonial.
Segundo a docente, os povos do actual território angolano possuíam formas próprias de organização, hábitos, costumes e espiritualidade, transmitidos de geração em geração através da oralidade, dos contos, provérbios e adivinhas. Defende, por isso, a preservação destes conhecimentos e a sua transmissão aos mais novos, encontrando na escola um dos principais espaços para garantir a continuidade deste património.
Os desafios persistem desde o período colonial
A discussão sobre a inclusão das línguas nacionais no sistema de ensino angolano tem raízes históricas. Académicos recorrem ao período colonial para explicar parte dos obstáculos ainda presentes na realidade educativa.
Mateus Chicumba destaca o papel central atribuído à língua portuguesa na educação durante o colonialismo. O académico recorda as disposições legais da época, favoráveis ao português como língua de ensino e restritivas relativamente ao uso das chamadas línguas indígenas nas escolas e nas actividades oficiais.
Após a Independência, em 1975, o português manteve-se como língua oficial e principal idioma de ensino, num país marcado pela diversidade linguística. Teresa Patatas salienta, por sua vez, o reconhecimento das línguas angolanas como património cultural e histórico no período pós-independência.
Na perspectiva de Luísa Gama, preservar estas línguas significa também manter vivas referências históricas e culturais transmitidas oralmente ao longo de gerações. A perda de um idioma, adverte, coloca em risco parte do conhecimento acumulado por uma comunidade durante a sua história.
As línguas nacionais continuam presentes no quotidiano
A língua portuguesa mantém uma presença expressiva na sociedade angolana. Dados apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística indicam uma proporção de 45,5% de falantes de português na população.
Entre as línguas nacionais, o Umbundu apresenta a maior percentagem de falantes, com 17,1%, seguido do Kimbundu, com 10,8%. O Cokwe regista 6,9%, enquanto o Kikongo representa 6,8%.
Os números evidenciam a diversidade linguística existente para além dos muros da escola. Em numerosas famílias e comunidades, as línguas nacionais continuam a fazer parte da comunicação diária, embora a sua presença formal no sistema educativo permaneça limitada.
Entre a permissão legal e a realidade das escolas
O Decreto-Lei n.º 32/20, no artigo 16.º, prevê a possibilidade de ministrar línguas de Angola nos diferentes subsistemas de ensino. Contudo, entre as disposições legais e a realidade das instituições escolares persistem dificuldades relacionadas com a formação de professores, a produção e distribuição de materiais didácticos e a organização do ensino.
Para Afonso Teca, chefe do Departamento de Línguas Angolanas da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto, a introdução destas línguas no sistema educativo ultrapassa a dimensão pedagógica. O processo envolve, igualmente, a identidade, a cultura e a afirmação nacional.
O sociólogo Carlos Matari considera a inclusão das línguas nacionais uma questão ligada à preservação da identidade e ao reforço do sentimento de pertença. Na sua perspectiva, um idioma representa muito mais do que um instrumento de comunicação, pois nele estão presentes memórias, valores e conhecimentos acumulados por uma comunidade.
“A língua não é apenas falar. A língua é um lugar onde a cultura mora. Se a língua desaparece, uma parte da comunidade desaparece com ela”, defende Carlos Matari.
Luísa Gama, por sua vez, defende a elaboração de currículos segundo critérios científicos semelhantes aos aplicados no ensino de outras línguas, com recurso aos estudos existentes, aos livros publicados e aos docentes formados nas diferentes línguas nacionais.
As línguas nacionais ainda procuram espaço na escola
Do ponto de vista da gestão escolar, a implementação das línguas nacionais exige condições ainda inexistentes em várias instituições de ensino.
Visitas realizadas a escolas públicas e privadas permitiram constatar a presença reduzida destas disciplinas. O Magistério Mutu-ya-Kevela constitui um exemplo de instituição pública onde o Kimbundu integra a formação dos estudantes das especialidades de Educação
Pré-Escolar e Ensino Primário.
Na Escola Primária n.º 1131, 1.º de Agosto, o ensino das línguas nacionais ainda não é uma realidade. A directora Madalena Chilepa explicou a inexistência de um professor para assegurar a disciplina, mas manifestou esperança de uma solução por parte do ministério de tutela, permitindo aos estudantes aprenderem as línguas nacionais.
O sociólogo e linguista Gilson Lázaro considera insuficientes algumas das iniciativas destinadas a introduzir estas línguas nos ensinos geral e superior. Segundo o académico, muitas experiências não tiveram continuidade devido à falta de trabalho de base, sobretudo na produção de conhecimento, na formação de especialistas e na definição dos idiomas a ensinar em função das características de cada região.
O investigador destaca ainda o papel da escola na valorização das línguas nacionais e no combate à discriminação linguística.
Metodologias apropriadas podem ajudar na aprendizagem
Questionado sobre a reduzida implementação das línguas nacionais nos currículos escolares, Afonso Teca aponta dificuldades relacionadas com as metodologias de ensino, a preparação dos professores e a disponibilidade de materiais didácticos.
Segundo o académico, um dos problemas reside na utilização de métodos excessivamente baseados no português para ensinar línguas nacionais. “Não se pode ensinar uma língua nacional como se ela fosse apenas uma tradução do português”, alerta.
Afonso Teca defende metodologias centradas na oralidade e na realidade linguística dos estudantes. O processo deve partir dos conhecimentos já adquiridos pelas crianças, avançando posteriormente para a escrita e para o desenvolvimento progressivo das competências linguísticas.
Luísa Gama também considera fundamental alargar a aprendizagem para além da sala de aula. Entre as estratégias propostas estão actividades lúdicas, visitas de estudo, excursões e contactos directos com os idiomas no ambiente familiar e comunitário.
Para Afonso Teca, a inclusão das línguas nacionais no sistema educativo depende da preparação dos professores, da existência de materiais acessíveis e de uma política linguística capaz de aproximar a escola da realidade cultural dos alunos.
Gilson Lázaro acrescenta a necessidade de uma abordagem integrada, envolvendo o Estado, investigadores, instituições de ensino e comunidades, de modo a garantir a preservação do património linguístico e cultural angolano.
Professores habilitados são parte do desafio
Afonso Teca reconhece a existência de materiais didácticos, mas identifica dificuldades na preparação, selecção, distribuição e enquadramento dos profissionais responsáveis pelo ensino das línguas nacionais.
O linguista considera possível formar docentes para leccionar Kikongo, Cokwe, Umbundu e outras línguas angolanas, à semelhança do processo de preparação de professores para as restantes disciplinas curriculares.
Adão Quibumo também reconhece a existência de materiais, mas aponta problemas na reprodução, distribuição, sistematização e disponibilização dos conteúdos às escolas, aos professores, aos estudantes e às comunidades. O docente destaca ainda a necessidade de uniformizar os materiais e as normas de ensino das diferentes línguas.
Gilson Lázaro reforça a importância de uma política linguística clara e do investimento na investigação científica sobre a diversidade linguística do país. Na sua perspectiva, a valorização das línguas angolanas no sistema educativo exige uma estratégia estruturada, capaz de articular o conhecimento científico com as necessidades das escolas e das comunidades.
Aprender uma língua é reencontrar a cultura
Para os estudantes do Magistério Mutu-ya-Kevela, aprender Kimbundu constitui uma experiência capaz de ultrapassar os limites de uma disciplina escolar. Apesar das dificuldades, os alunos manifestam satisfação pela oportunidade de estudar uma língua nacional.
Os conhecimentos adquiridos nas aulas são posteriormente aplicados no ambiente familiar, reforçando a ligação entre a aprendizagem escolar e as práticas linguísticas da comunidade.
A estudante Serafina Vunge considera positiva a experiência, embora reconheça algumas dificuldades. Habituada a ouvir Kimbundu em casa, sobretudo através dos avós, encontrou nas aulas uma nova forma de compreender o idioma.
“No início, achei estranho, porque estou acostumada a ouvir a língua Kimbundu em casa com os avós, porque na escola só falávamos português”, contou.
Leonilson Cassule também demonstra interesse pela aprendizagem. O estudante procura compreender os conteúdos apresentados na sala de aula e associa o domínio da língua à preservação cultural.
“É uma forma de conservar a nossa cultura e valorizar cada vez mais a nossa história, não se pode apagar”, acrescentou.
César Francisco, outro estudante do magistério, considera igualmente positiva a experiência. O interesse pelo Kimbundu já existia antes do início das aulas, embora a aprendizagem tenha revelado particularidades da língua.
“Porque no Kimbundu, muitas das vezes, a maneira como falamos não é a maneira que vamos escrever, e a maneira que vamos escrever não é a maneira que vamos ler”, explicou.
Para aprofundar os conhecimentos, o estudante pratica saudações e números com os colegas, tenta falar em casa com familiares e presta atenção às conversas dos mais velhos na comunidade.
O ensino precisa respeitar cada região
Além da inclusão das línguas nacionais nos currículos, os especialistas discutem quais línguas devem ser priorizadas na educação.
Afonso Teca defende uma planificação linguística capaz de considerar a realidade sociocultural de cada região. Para o académico, a aprendizagem deve privilegiar inicialmente a língua presente no contexto sociocultural do aluno.
Esta política, segundo o linguista, deve promover a convivência entre as diferentes línguas nacionais e o português, criando condições para o domínio de mais de uma língua.
“Os professores devem conhecer a língua e a cultura do lugar onde ensinam. O aluno deve encontrar na escola vários aspectos da sua convivência diária”, sublinhou Afonso Teca.
Adão Quibumo também considera importante respeitar a língua de origem de cada comunidade. Para o linguista, valorizar um idioma local não significa abandonar outras formas de expressão, mas reconhecer a diversidade linguística como parte da realidade angolana.
As línguas nacionais também servem para ensinar ciência
A capacidade das línguas nacionais para acompanhar conceitos científicos, tecnológicos e outras áreas do conhecimento constitui outro ponto de análise.
Afonso Teca rejeita a ideia de limitar idiomas como Kikongo, Kimbundu, Umbundu e Cokwe ao espaço familiar. O académico recorre a experiências de países africanos, como a Tanzânia, o Quénia, a Guiné-Conacri e o Uganda, para demonstrar as possibilidades de estruturar processos educativos com recurso significativo às línguas locais.
Carlos Matari considera igualmente importante garantir a transmissão dos códigos culturais às novas gerações. Para o sociólogo, uma educação exclusivamente centrada no português pode afastar os jovens de parte das referências linguísticas e culturais das suas comunidades.
A valorização das línguas nacionais no ensino exige, assim, o reconhecimento da sua capacidade de transmitir conhecimentos em diferentes áreas, sem as restringir à comunicação quotidiana ou às manifestações tradicionais.
Ancião enaltece a iniciativa
Fora da escola, os mais velhos continuam a desempenhar um papel importante na transmissão do conhecimento linguístico.
Aos 74 anos, Francisco José considera possível associar a transmissão comunitária ao ensino escolar. Para o ancião, a presença das línguas nacionais nas escolas constitui uma iniciativa positiva, capaz de contribuir para a sua continuidade entre as novas gerações.
“A língua é o que nos identifica, quem foge da língua não tem identidade, então, os mais velhos devem continuar a ensinar aos mais novos, bem como na escola também podem começar a ensinar”, concluiu.
Luísa Gama atribui igualmente aos jovens uma responsabilidade directa na preservação deste património. A professora apela à aprendizagem, à utilização e à transmissão das línguas das respectivas comunidades.
“Podemos aprender todas as línguas do mundo, mas se não soubermos a nossa própria língua, seremos considerados pessoas sem identidade cultural”, defende.
A presença das línguas nacionais na escola exige, portanto, mais do que a abertura de disciplinas. O processo passa pela formação de professores, produção e distribuição de materiais didácticos, definição de metodologias adequadas, organização da carga horária e adopção de uma política linguística ajustada à diversidade sociocultural de Angola.
Mário Pascoal e Neuza Sacuxipo




