Há mais de 60 anos, a zona hoje conhecida como bairro da Madeira, no município do Cazenga, era praticamente uma mata. Na altura, a área era conhecida por Honga Bebengue e tinha poucas habitações. Entre o capim, destacava-se uma casa de madeira, que além de acolher a família de dona Maria Isabel, o esposo e dois filhos, deu origem ao nome do bairro.
Aos 95 anos, apesar de já ter parte do corpo trémulo, a anciã ainda consegue caminhar sozinha e sem ajuda de uma “bengala”. Ao receber o Jornal de Angola em sua residência para abordar a situação da vala do Cazenga-Cariango, localizada na zona, dona Maria Isabel apenas lamentou. “O cheiro que vem desta vala é insuportável”, desabafou.
Hoje, a anciã lamenta a situação em que o bairro se encontra. “O Governo fez um bom trabalho em melhorar essa vala, mas devido ao lixo, sofremos com o mal cheiro, os mosquitos e as ratazanas”, criticou.
Mosquitos como vizinhos
Há poucos metros da vala, também vive Joana Boa, de 67 anos, moradora do bairro da Madeira há mais de 30 anos. Ao relatar as transformações que o bairro sofreu, fez referência de que as grandes inundações do passado deixaram de ser a principal preocupação com a construção da vala de drenagem do Cazenga-Cariango.
Segundo a moradora, hoje o que mais incomoda é a quantidade de lixo acumulada no canal. “A vala escoa toda a água da chuva, mas as pessoas insistem em deitar lixo nela e isso nos prejudica”, lamentou, afirmando a seguir que os mosquitos são como vizinhos para quem vive na área.
Dona Joana reconhece que a administração municipal tem realizado, ocasionalmente, trabalhos de limpeza. No entanto, considera que o esforço acaba por perder efeito quando, pouco tempo depois, o lixo volta a ser lançado no interior da vala. “Os moradores precisam mudar de atitude. É demais”.
Tragédia
No princípio do ano passado, concretamente na vala do Cazenga-Cariango, uma anciã morreu depois de cair no interior da vala de drenagem quando tentava deitar água no canal. A vítima, relataram os moradores, foi socorrida pelos vizinhos, mas morreu durante o trajecto para o hospital.
O cenário reforça a necessidade de manter as zonas de protecção das valas devidamente vedadas e livres de actividades que possam colocar em risco a população, uma acção que tem sido levada a cabo pela Unidade Técnica de Gestão de Saneamento de Luanda (UTGSL).
Valas obstruídas aumentam riscos à Saúde Pública
A chefe do Departamento de Saúde Pública do Gabinete Provincial de Saúde de Luanda, Luísa Paulo, alertou que a obstrução das valas de drenagem por lixo e águas residuais pode transformar estas estruturas, essenciais para o escoamento das águas pluviais, em focos de risco para a Saúde Pública, sobretudo durante a época chuvosa.
Segundo a especialista, a acumulação de resíduos e a formação de águas paradas favorecem a proliferação de mosquitos e outros vectores transmissores de doenças. Entre as principais preocupações, destacou, estão a malária, dengue e outras arboviroses, como a chikungunya, além de doenças de transmissão hídrica, com destaque para a cólera, que continua a registar casos esporádicos em Luanda.
Luísa Paulo chama ainda a atenção para o risco de leptospirose, doença associada à exposição à urina de roedores, bem como para possíveis infecções da pele resultantes do contacto com águas contaminadas. “A presença de lixo nas valas também contribui para a proliferação de ratos, moscas e baratas, aumentando os riscos sanitários para as comunidades que vivem nas proximidades”, alertou.
Águas contaminadas
Para reduzir os riscos, a responsável apela à colaboração dos munícipes na conservação das valas de drenagem, sobretudo por meio da correcta deposição dos resíduos sólidos. “Devemos manter o ambiente limpo para garantir saúde de qualidade aos munícipes”, defende Luísa Paulo, que recomenda à população a não depositar lixo, incluindo sacos plásticos e outros resíduos nas valas de drenagem.
A especialista aconselha, igualmente, a evitar o contacto directo com a água das valas, principalmente quando estiver contaminada, com particular atenção às crianças que vivem ou circulam junto destas estruturas.
Comércio desafia zona de protecção no Cassequel
A vala do Senado da Câmara atravessa uma zona marcada por intensa actividade comercial, o Cassequel do Buraco. Apesar da existência de placas que proíbem a venda no local, alguns comerciantes continuam a ocupar as margens da vala com o comércio. É notório que a presença dos vendedores naquele local contribui para o aumento da produção e deposição de lixo no interior da vala. Há, inclusive, relatos de fetos deitados no local constantemente.
Numa ronda realizada no local, a equipa de reportagem do Jornal de Angola captou, por volta das 14h00, a imagem de um adolescente trajado de uma t-shirt amarela, calções castanho e a conhecida “cupapata” nos pés. O rapaz carregava uma sacola nas mãos. A caminhada feita no interior da vala começou no bairro Terra Vermelha e a passos lentos chegou ao Cassequel do Buraco.
Tratava-se de uma busca incessante de sucatas e ferros para pesar. Com o clima frio, o rapaz não se deixou intimidar pela água suja, lixo e o mal cheiro que se verificava no local. O adolescente revelou que se chama Sozinho e está com 16 anos. “Minha cota, esse é o meu trabalho quando não estou na escola”, confessou, frisando que vive no bairro Canjala e todos os dias aquela tem sido a sua rotina para conseguir algum dinheiro, porém, tem encontrado dificuldades em função do encerramento das casas de pesagem pela Polícia Nacional.
As vendedoras no local confirmaram a situação e alegaram que diariamente cidadãos de várias idades e sexo, recorrem ao interior da vala de drenagem para procurar sucatas.
Antiguidade
Morador da zona há mais de 30 anos, Eduardo Bumba, de 74 anos, lamentou o facto de a actividade comercial realizada no perímetro estar a colocar em causa a imagem do bairro e consequentemente a saúde dos moradores.
Embora, actualmente, a zona esteja ocupada maioritariamente por cidadãos estrangeiros, alguns moradores antigos, como é o caso de Eduardo Bumba e Domingos Júnior, permanecem em suas residências e almejam a mudança da realidade actual.
“Quando vim para este bairro, a vala já existia, mas não estava construída conforme está agora. Porém, não tinha muito lixo, a água corria normalmente, diferente de agora com o aumento da actividade comercial”, recorda Eduardo Bumba.
Contudo, vê nas novas estruturas da vala uma possibilidade de melhoria, sobretudo pela utilização de materiais mais resistentes.
Unidade Técnica de Gestão trabalha para reduzir riscos de inundações
As autoridades responsáveis pelo saneamento de Luanda continuam a realizar intervenções de limpeza, manutenção e melhoria das valas de drenagem, com o objectivo de garantir o escoamento das águas pluviais e reduzir os riscos de inundações.
Apesar das intervenções, a deposição irregular de resíduos sólidos, a vandalização das estruturas e a construção ou ocupação das zonas de protecção continuam a representar desafios para o funcionamento dos canais. Em vários pontos de Luanda, a situação preocupa moradores e autoridades, sobretudo com a aproximação do período de maior ocorrência de chuvas.
O director da Unidade Técnica de Gestão de Saneamento de Luanda (UTGSL) avançou que existem sete projectos em carteira destinados a materializar novas infra-estruturas, melhorar a rede de micro e macrodrenagem da província, incluindo a recuperação de canais existentes.
Henrique Tavira admite que existem troços que ainda precisam ser materializados, mas a presença de residências construídas nos espaços destinados às infra-estruturas de drenagem tem dificultado a execução de alguns projectos.
Segundo o responsável, as residências existentes nessas áreas estão a ser identificadas e cadastradas, devendo posteriormente ser adoptados procedimentos para a sua retirada e continuidade das obras de macrodrenagem. “Não consigo avançar um número exacto, porque carece de actualização, pois todos os dias alguém constrói em lugar impróprio”, disse.
A existência de valas estruturadas reduz significativamente os problemas de alagamento, afirmou Henrique Tavira, admitindo, contudo, que continuam a existir pontos críticos em bairros onde a rede de drenagem ainda é insuficiente ou onde a passagem natural da água foi obstruída.
“Algumas pessoas insistem em construir em zonas de risco e por esse motivo, ainda temos casos de inundações, principalmente em época chuvosa”, afirmou o responsável, sem avançar o número de famílias ou casas afectadas.
Limpeza diária
Uma das experiências implementadas pela UTGSL ocorreu no município da Samba, onde a unidade mantém equipas permanentes em determinadas valas. O modelo começou na vala do corredor da zona da Mabunda, com trabalhadores encarregues de retirar diariamente os resíduos e realizar acções de sensibilização junto das comunidades.
Segundo Henrique Tavira, desde a implementação do modelo, a quantidade de resíduos acumulados na vala diminuiu. A intenção, revelou, é replicar a experiência noutras valas, avançando progressivamente para os restantes corredores considerados prioritários.
“A aproximação do período chuvoso levou-nos a concentrar esforços nos municípios considerados mais vulneráveis, com operações de retirada dos maiores volumes de resíduos. Actualmente, estão em curso trabalhos nos municípios de Belas, Kilamba Kiaxi, Cazenga e Viana”, disse.
Segundo o director da UTGSL, a manutenção das valas não depende apenas das intervenções públicas. “A deposição de resíduos pelas comunidades é um dos principais factores que contribuem para o assoreamento dos canais”, afirmou, acrescentando que a instituição que dirige tem vindo a desenvolver acções de sensibilização junto das comissões de moradores e administrações municipais, alertando para os riscos da deposição de lixo nas valas.
Cazenga-Cariango ainda preocupa moradores
Na vala do Cariango, uma das zonas observadas pela equipa de reportagem, os moradores relatam a existência de lixo acumulado em determinados troços e reclamam da irregularidade da limpeza.
Entretanto, o director municipal do Ambiente e Saneamento Básico do Cazenga, Leonilde Macaca, em resposta à preocupação dos moradores residentes na zona adjacente à vala do Cariango, disse que a administração do Cazenga tem vindo a desenvolver acções de limpeza, saneamento e melhoria das condições ambientais.
Por meio da direcção municipal do ambiente e saneamento básico, avançou, tem sido realizada intervenções de remoção de resíduos, sobretudo em valas de drenagem, eliminação de focos de deposição de lixos e realização de acções de sensibilização junto das comunidades, com o objectivo de melhorar as condições de salubridade e garantir o normal escoamento das águas.
A administração municipal, adiantou, reconhece que a vala carece de uma atenção permanente sobretudo nos pontos onde se verifica acumulação de resíduos e águas paradas. “Também temos realizado trabalhos de fumigação, em articulação com o Ministério da Saúde”, revelou.
A sensibilização ambiental, continuou, tem sido o principal foco. “Não importa o quanto limpamos as valas de drenagem, mas quando a comunidade não entende que o lixo é de responsabilidade comum e não só da administração, teremos um município transformado”.
Canal do Suroca é a mais estruturada
A província de Luanda conta, actualmente, com quatro bacias hidrográficas, sendo a do Quifica, Cambamba, Mulenvos e Centro. No total, a capital do país dispõe de 16 valas estruturadas, além de um canal subterrâneo de aproximadamente 4.028 metros e 28 linhas naturais de água.
Entre as valas estruturadas, a do Suroca, afecta à bacia dos Mulenvos, é a maior com 3.826,96 metros de extensão. O canal começa no bairro Cipal, no Rangel, e culmina no bairro Suroca, no Hoji-ya-Henda, em Luanda.
Entretanto, o Jornal de Angola constatou que no momento estão a ser desenvolvidas obras de reabilitação na vala de drenagem do Senado da Câmara, concretamente na zona do Cassequel do Buraco.
De acordo com Henrique Tavira, o projecto de intervenção à vala inclui a substituição dos antigos pilaretes por placas, com o objectivo de reforçar a segurança ao longo do corredor da vala. A intervenção, frisou, surge também como resposta aos riscos de queda de pessoas, sobretudo crianças, nas valas abertas.
Barreiras contra resíduos no mar
Para reduzir a quantidade de lixo que chega ao mar, Henrique Tavira afirma ter instalado barreiras em pontos estratégicos. Na foz do rio Cambamba, na Baía do Mussulo, no Talatona, existem, de acordo com Henrique Tavira, estruturas destinadas a reter parte dos resíduos transportados desde a montante, ou seja, na direcção oposta ao fluxo da água.
A unidade pretende replicar o sistema noutros pontos, estando prevista uma intervenção semelhante na vala do Suroca. “O processo está a ser articulado com outras instituições, incluindo entidades ligadas ao ambiente e ao Porto de Luanda. O objectivo é impedir que os resíduos sólidos transportados pelas linhas de água acabem na orla marítima”, avançou.




