Milhares de agregados familiares em situação de vulnerabilidade social, na província do Zaire, encontraram no Programa de Transferências Monetárias Sociais (Kwenda) um ponto de partida para melhorar as suas condições de vida.
Muitos beneficiários investiram os valores recebidos na agricultura e na pecuária e hoje sustentam as suas famílias com os rendimentos dessas actividades. É o caso de Madidila Paulina Nzila, de 68 anos, residente na aldeia Ngombe-a-Ngombe, município do Kuimba. Em declarações ao Jornal de Angola, contou que beneficiou-se do programa em três ocasiões. Nas duas primeiras transferências, no valor de 51 mil kwanzas, não conseguiu investir porque utilizou o dinheiro para custear o tratamento do marido, que acabou por falecer após uma intervenção cirúrgica. Já viúva, recebeu mais 66 mil kwanzas e decidiu aplicá-los na agricultura. Os rendimentos da lavra passaram a garantir a alimentação da família, a educação dos netos e bisnetos, a compra de vestuário e parte das despesas com assistência médica. “Investi o dinheiro na lavra. Contratei pessoas para desmatar o terreno e depois fiz as sementeiras. Não sei quantos hectares cultivo nem quantas toneladas produzo, mas a lavra é grande. Depois de cada colheita de mandioca e ginguba, vendemos os produtos e reinvestimos numa nova campanha agrícola”, explicou, em kikongo. Segundo a anciã, os lucros obtidos permitem-lhe ajudar parte dos seus 45 netos e 25 bisnetos, sobretudo nas despesas escolares e de saúde, com o apoio dos respectivos pais. Madidila Paulina Nzila considera que essa iniciativa do Executivo através do Kwenda tem contribuído para reduzir as dificuldades das famílias vulneráveis e defende a continuidade do programa. “Aconselho todos os beneficiários a investirem na agricultura, na criação de animais ou noutro negócio rentável. Também tentei criar porcos, mas morreram. Mesmo assim, não desisti e continuei a apostar na agricultura”, afirmou. Mãe de dez filhos, dos quais sete vivos, lamentou ainda a falta de energia eléctrica e de água na aldeia, situação que levou grande parte da família a mudar-se para Mbanza Kongo. Outro beneficiário do Kwenda, Domingos Mbeta, de 65 anos, revelou que apenas conseguiu investir na segunda transferência recebida pelo programa. A primeira prestação, de 25.500 kwanzas, foi utilizada para custear o tratamento dos filhos. Já os 66 mil kwanzas recebidos posteriormente foram investidos na compra de um casal de porcos. Investimento na SuiniculturaSegundo contou, os animais reproduziram-se, mas uma doença dizimou grande parte da criação. Ainda assim, conseguiu manter uma fêmea, que voltou a reproduzir-se e permitiu retomar a actividade. Uma das suas maiores preocupações é a inexistência de campanhas regulares de vacinação para suínos. “Os técnicos da Agricultura já vacinaram cães e gatos, mas nunca fizeram campanhas para porcos e cabras. Precisamos de apoio para identificar a doença e proteger os animais”, apelou. Domingos Mbeta reconheceu que nunca utilizou ração industrial, alimentando os animais com mandioca, folhas de mandioqueira e outros produtos disponíveis na aldeia. Apesar das perdas registadas, acredita que conseguirá recuperar o investimento nos próximos tempos. Mais de 39 mil famílias beneficiadasDesde o início da implementação do Kwenda, em Maio de 2020, mais de 39 mil dos 43.009 agregados familiares previstos já beneficiaram do programa em nove dos 11 municípios da província do Zaire, com um desembolso no valor de 4.315.428.000 kwanzas. O programa começou no município do Nzeto e foi posteriormente alargado aos municípios do Tomboco, Kindege, Quêlo, Lufico, Nóqui, Kuimba, Soyo e Serra de Kanda, abrangendo, actualmente ,16 comunas e 364 bairros e aldeias. Os municípios de Mbanza Kongo e Luvo deverão ser incluídos na segunda fase do projecto, denominada Kwenda II, destinada às zonas urbanas. Inclusão produtiva O chefe do Departamento Executivo do Instituto de Desenvolvimento Local (FAS), João Maurício da Costa, explicou que o programa se encontra na quarta fase de implementação e destacou que muitos beneficiários têm aplicado os recursos na agricultura, criação de animais e pequenos negócios. Segundo o responsável, as transferências monetárias contribuem para reforçar a autonomia económica das famílias, permitindo responder às necessidades nas áreas da Educação, Saúde, bem-estar social e melhoria das habitações. João Maurício da Costa adiantou que, entre os quatro eixos do Kwenda, a componente de Transferências Monetárias Sociais continua a ser a mais desenvolvida. Já a componente de Inclusão Produtiva, que esteve em fase-piloto, prepara-se para ser expandida a todo o país. “A Direcção Central do FAS trabalha na expansão desta componente. Estamos a identificar potenciais beneficiários e projectos com viabilidade económica”, explicou. Acrescentou que várias cooperativas agrícolas e piscatórias da província do Zaire já manifestaram interesse em beneficiar-se deste apoio. Entre os principais constrangimentos enfrentados durante a execução do programa, João Maurício da Costa destacou o mau estado das vias de acesso, a inexistência de pontes em algumas localidades, as dificuldades de comunicação e a falta de energia eléctrica, factores que dificultam o trabalho dos Agentes de Desenvolvimento Comunitário e Sanitário (ADECOS). O Programa Kwenda está estruturado em quatro componentes, nomeadamente :“Transferências Monetárias Sociais”, “Inclusão Produtiva”, “Municipalização da Acção Social” e “Reforço do Cadastro Único”, uma base de dados que reúne informação socioeconómica e de localização de todos os beneficiários.




