“Eu vejo pessoas que levei ao colo com os seus próprios bebés. Fico feliz, mas também gostaria de ter um filho.”
O desabafo traduz parte do sofrimento vivido por casais confrontados com dificuldades para conceber. Às lágrimas e à frustração juntam-se, muitas vezes, as pressões familiares e sociais, tornando ainda mais difícil lidar com a infertilidade.
Enquanto alguns casais procuram, durante anos, uma resposta para o desejo de ter filhos, outros recorrem a métodos contraceptivos para evitar gravidezes não desejadas e planear a vida familiar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a infertilidade é definida como a incapacidade de conseguir uma gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem protecção.
Em Angola, a discussão sobre saúde reprodutiva envolve desafios relacionados com o acesso à informação, planeamento familiar e utilização de métodos contraceptivos. Entre adolescentes, a ocorrência de gravidezes não planeadas pode interferir na continuidade dos estudos e alterar projectos de vida.
Uma espera marcada pela pressão familiar
Aos 24 anos, Beatriz Moreira vive uma experiência marcada pela dificuldade de engravidar e pelas consequências da pressão dentro da relação. Durante um ano, procurou ter um filho, mas não conseguiu. Pouco tempo depois, o marido iniciou uma relação com outra mulher, que acabou por engravidar, levando ao fim do relacionamento.
Beatriz afirma não saber se é realmente infértil. Nas várias consultas ginecológicas a que recorreu, os médicos terão informado não existir qualquer problema aparente no seu sistema reprodutivo.
“Eu não sei mais nada. Os médicos dizem que está tudo bem comigo, mas não consigo engravidar na casa do meu marido”, disse.
O caso de Beatriz junta-se a outras histórias de homens e mulheres confrontados com dificuldades de concepção e com a pressão exercida por familiares e parceiros.
Adão Gaspar contou o desabafo feito pelo tio, homem com quem partilha uma história familiar marcada pelo desejo de ter filhos.
Segundo o relato, o tio recordou os tempos em que carregava o sobrinho ao colo e comparou essa experiência com a realidade actual, na qual vê Adão levar o próprio filho nos braços.
Apesar de se sentir feliz pela conquista do sobrinho, o homem lamenta ainda não ter conseguido concretizar o desejo de ser pai.
Adão Gaspar contou também ter ouvido da mãe a sugestão para o irmão procurar tratamento tradicional. A família tentou convencê-lo, mas, segundo o relato, o homem acabou por recusar.
“Não posso fazer nada. A princípio ele aceitou, mas, no dia de irmos, não apareceu. Sempre procura uma desculpa para fugir”, reproduziu Adão Gaspar, citando a mãe.
Infertilidade exige acompanhamento especializado
A profissional de saúde Núria José defende uma abordagem da infertilidade e da contracepção como questões de saúde, afastando preconceitos e julgamentos.
“É importante melhorar a educação sexual e reprodutiva, incentivar o acompanhamento médico e combater a ideia de a responsabilidade pela reprodução ser apenas da mulher”, destacou.
A especialista chamou ainda a atenção para os receios relacionados com os métodos contraceptivos. Segundo explicou, algumas pessoas acreditam que a utilização desses métodos pode provocar infertilidade permanente ou outros problemas graves.
A circulação de informações incorrectas, acrescentou, contribui para alimentar o medo e dificulta a tomada de decisões informadas.
Para Armando Catito, perante dificuldades de concepção, o casal deve procurar primeiro orientação hospitalar e acompanhamento médico. O cidadão considera ainda necessário combater a interpretação exclusivamente espiritual da infertilidade.
“Nós encaramos a infertilidade num pendor muito espiritual e ela é conotada negativamente por questões de feitiçaria ou bruxaria”, afirmou.
País possui mais de um milhão de casos de infertilidade
A médica Ana Furtado considera a infertilidade um problema de saúde pública e aponta para a existência de aproximadamente mais de um milhão de casos no país.
De acordo com a especialista, o Hospital Materno-Infantil Azancot de Menezes recebe semanalmente entre 10 a 20 casos relacionados com problemas de reprodução.
A médica informou ainda existir uma unidade especializada em saúde reprodutiva na Maternidade Lucrécia Paim, dirigida pelo médico Pedro de Almeida, dedicada ao acompanhamento e estudo da problemática da infertilidade no país.
Entre as principais causas de infertilidade feminina, Ana Furtado apontou alterações ovulatórias, problemas nas trompas, endometriose e idade avançada. Nos homens, referiu o varicocele, a baixa concentração de espermatozóides, alterações hormonais e determinados hábitos.
A especialista apelou aos casais para procurarem acompanhamento especializado nas unidades hospitalares e desaconselhou acusações e pressões por parte de familiares e amigos.
Sobre a contracepção, informou existir uma rotina de palestras dirigidas a mulheres e homens, com o objectivo de incentivar o uso informado dos métodos contraceptivos e contribuir para a melhoria da vida familiar.
Segundo a médica, o planeamento familiar está disponível para mulheres sexualmente activas, incluindo jovens e adolescentes, como forma de prevenir gravidezes não desejadas e permitir uma decisão consciente sobre o momento de ter filhos.
O Hospital Materno-Infantil Azancot de Menezes dispõe de diferentes métodos contraceptivos, entre eles dispositivos intra-uterinos, métodos hormonais, pílulas, injectáveis e preservativos, disponibilizados gratuitamente.
Lei enquadra tratamento da infertilidade
Em Angola, a infertilidade tem também enquadramento legal. A Lei n.º 29/21, de 9 de Novembro, regula a Reprodução Humana Medicamente Assistida e estabelece normas para o recurso a técnicas destinadas a auxiliar pessoas com dificuldades de concepção.
O diploma reconhece a infertilidade como um problema de saúde pública com implicações médicas, sociais, culturais, religiosas e psicológicas e prevê o recurso a técnicas como a inseminação artificial, a fertilização in vitro, o diagnóstico genético pré-implantacional e a injecção intracitoplasmática de espermatozóides.
Somente 15,6 por cento das mulheres usam métodos
O Instituto Nacional de Estatística lançou este mês o Relatório sobre Género 2023-2024, resultante do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde, IIMS.
Segundo o documento, a promoção da saúde sexual e reprodutiva passa pelo acesso a informação adequada, serviços de qualidade e métodos eficazes de planeamento familiar.
O relatório indica ainda que a utilização de métodos contraceptivos contribui para prevenir gravidezes não desejadas e reduzir a mortalidade materna.
Os dados mostram que 85,8 por cento das mulheres angolanas conhecem pelo menos um método contraceptivo. Apesar desse nível de conhecimento, apenas 15,6 por cento utilizam métodos contraceptivos modernos.
Entre os homens, 23,1 por cento utilizam um método contraceptivo moderno, apesar do elevado conhecimento sobre a existência desses métodos.
Os resultados revelam, assim, uma diferença significativa entre conhecimento e utilização. Entre os factores associados estão influências socioculturais, crenças religiosas, condições socioeconómicas e localização geográfica.
Médica obstetra aborda infertilidade e contracepção
A ginecologista obstetra Jesuina Dimbu afirmou existir infertilidade feminina entre mulheres de diferentes idades e condições sociais, considerando a patologia complexa e de múltiplas causas.
Segundo a especialista, existem tratamentos de baixa e alta complexidade. Na Maternidade Lucrécia Paim, estão disponíveis alguns procedimentos de baixa complexidade.
No serviço de planeamento familiar da maternidade são atendidas, em média, 30 pacientes por dia, número capaz de ultrapassar 700 atendimentos mensais, segundo os dados apresentados pela obstetra.
A unidade dispõe igualmente de diversos métodos contraceptivos com acesso gratuito.
Psicóloga alerta para pressão social e mitos
A psicóloga clínica e directora da Clínica de Neuro Diversidade e Saúde Mental, Diana João, afirmou que a infertilidade pode provocar impactos emocionais e sociais significativos no casal.
Para a especialista, a pressão exercida por familiares e amigos constitui uma das principais dificuldades enfrentadas por pessoas com problemas de concepção.
“Expressões como ‘quando vem o bebé’ ou referências ao chamado relógio biológico podem aumentar a pressão sobre quem já enfrenta dificuldades para engravidar”, afirmou.
Entre as consequências dessa cobrança, apontou o isolamento social. Alguns casais passam a evitar convívios familiares, encontros com amigos e outras actividades sociais.
A psicóloga explicou ainda que a infertilidade pode afectar a intimidade do casal e retirar espontaneidade à relação sexual, transformando-a numa actividade condicionada pelos períodos férteis, ciclos e tentativas de gravidez.
A tristeza e a frustração podem ser renovadas a cada resultado negativo, enquanto o sofrimento nem sempre é reconhecido pelas pessoas próximas, alertou.
Sobre os métodos contraceptivos, Diana João relacionou a resistência à falta de informação e à circulação de mitos. Entre as crenças existentes está a ideia de os contraceptivos poderem “secar” a mulher ou provocar infertilidade definitiva.
A especialista apontou ainda os tabus socioculturais, o receio de efeitos secundários e a falta de acompanhamento médico como factores capazes de afastar algumas pessoas dos métodos contraceptivos.
Para a psicóloga, os métodos devem ser encarados como instrumentos de cuidado, planeamento da vida e tomada consciente de decisões sobre o momento de constituir uma família.
Giráfrica regista cerca de 150 casos de infertilidade por semana
O naturopata e PhD em Medicina Integrativa, Saúde e Bem-estar Gabriel Joaquim informou ao Jornal de Angola registar, em média, cerca de 150 casos de infertilidade por semana nas clínicas da Giráfrica espalhadas pelo país.
“O número dos casos de infertilidade que a gente recebe, no balanço de uma semana, nos cinco centros da Giráfrica, totaliza quase 150 casos”, disse.
O especialista defende uma abordagem baseada na nutrição e no uso de plantas medicinais. Na sua perspectiva, a saúde reprodutiva depende, em grande medida, da qualidade da alimentação.
Gabriel Joaquim apelou aos casais confrontados com dificuldades de concepção para procurarem tratamento em conjunto, defendendo o apoio mútuo durante o processo.
Segundo o naturopata, a infertilidade pode gerar desconfiança, insegurança, infidelidade e conflitos no relacionamento.
Sobre os métodos contraceptivos, o especialista alertou para a necessidade de utilização adequada, apontando especificamente para a pílula e o Depo-Provera. Na sua perspectiva, o uso sem orientação médica pode estar associado a problemas de fertilidade.
“O uso de anticoncepcionais, estou a falar da pílula e do Depo, sem orientação dos médicos, tem aumentado os casos de infertilidade”, afirmou.
Visão religiosa
Para o secretário-geral do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola, CICA, reverendo Vladimir Agostinho, a Bíblia não aborda directamente os métodos contraceptivos modernos.
O líder religioso recomendou aos casais a observância dos princípios bíblicos relacionados com o mútuo acordo no relacionamento, citando a passagem de Coríntios 7, versículos 3 a 5.
Segundo o reverendo, o CICA aceita métodos contraceptivos considerados não abortivos, desde que a decisão seja tomada pelo casal. A utilização para planeamento familiar, protecção da saúde da mãe e sustentabilidade da família é igualmente aceite pela organização, acrescentou.
No trabalho de aconselhamento matrimonial, os líderes religiosos abordam questões relacionadas com a vida conjugal, incluindo situações ligadas à reprodução.
O padre católico Adelino Moma considera o tema complexo e íntimo, razão pela qual entende ser mais adequado abordá-lo em espaços de preparação para o matrimónio.
“Esses temas nós os abordamos nos cursos de preparação para o matrimónio”, disse.
Segundo o sacerdote, as comunidades têm recebido casais com dificuldades de concepção. O acompanhamento pastoral, explicou, procura incentivar a compreensão, o apoio mútuo e a procura de soluções, incluindo o tratamento médico.
“Temos muitos casos nas nossas comunidades. O acompanhamento que fazemos é de aproximação, compreensão e encorajamento, de busca de uma solução”, afirmou.
O pastor Maiomona Afonso, do Ministério Renascer, por sua vez, afirmou acompanhar casos de infertilidade entre casais e defendeu a importância da fé para aqueles que procuram uma resposta para o problema.
Na sua abordagem religiosa, citou a passagem bíblica de Lucas 1, versículos 36 e 37, relacionada com a gravidez de Isabel em idade avançada.
O pastor defendeu igualmente a procura de tratamento médico, sem deixar de incentivar os fiéis a manterem a fé.
Já o pastor Laurindo António, da igreja Pentecostal, afirmou ter acompanhado, ao longo da experiência pastoral, casais com dificuldades para conceber, sobretudo recém-casados submetidos, depois de um ou dois anos, à pressão de familiares, amigos e membros da comunidade.
Segundo o líder religioso, as comunidades devem incentivar o amor ao próximo e a compreensão do sofrimento alheio.
“Aquilo que não queres que te façam, não faças à outra pessoa. Trata os outros da mesma maneira como queres ser tratado”, disse.
Uma gravidez depois de anos de espera
Aos 26 anos, Jamba Francisco, promotora de eventos e moradora da Boa Esperança, começou a perceber dificuldades para engravidar aos 21 anos. A partir daí, iniciou uma procura por respostas e tratamentos para compreender o que estava a acontecer.
“Foi muito difícil. Recebi muitas críticas e procurei ajuda para tentar perceber realmente o que se passava comigo e qual era o motivo daquela situação”, relatou.
Na procura por uma solução, recorreu a acompanhamento médico e a outras formas de tratamento. O objectivo, explicou, era encontrar respostas e concretizar o desejo de ser mãe.
A pressão vinha principalmente da família, do noivo e dos familiares dele. “Eu senti principalmente a pressão da minha família, do meu noivo e da família do meu noivo. Já havia muita cobrança porque eu ainda não estava a conseguir engravidar”, afirmou.
Quando finalmente descobriu que estava grávida, Jamba sentiu-se feliz, mas a emoção veio acompanhada pelas marcas deixadas pelos anos de cobranças e críticas.
“Fiquei feliz, mas não foi uma felicidade completa. Eu tinha procurado muito essa gravidez por causa das críticas da família, dos amigos e das amigas que convivem comigo”, frisou.
A experiência levou-a a aconselhar outras mulheres confrontadas com dificuldades semelhantes a procurar ajuda. “Não sejam desencorajadas. Essas situações acontecem com muitas pessoas. Não desistam e não deixem a medicação pela metade”, sublinhou.
Na sua perspectiva, os comentários de familiares, amigos ou de outras pessoas não devem determinar o caminho de quem enfrenta dificuldades para engravidar.
A procura de acompanhamento médico, o acesso ao planeamento familiar e a redução da pressão exercida sobre os casais surgem ao longo dos depoimentos como aspectos presentes nas experiências. Entre a infertilidade e a contracepção, permanece a necessidade de informação para que mulheres e homens conheçam as possibilidades disponíveis e tomem decisões sobre a sua vida reprodutiva.
Armindo Tone e Marisa Quienda




