Um talento em ascensão na música, do estilo Afro House. Tímido, cauteloso na fala, gestos controlados, aparência marcante e agradável de se apreciar. Falamos de Zip Cola, nome artístico do jovem Manuel Nzinga Miguel, que inicia a carreira cimentando os primeiros passos no bairro Paraíso, em Cacuaco, na província de Luanda, de onde é natural.
Sem sucesso ainda na carreira, o jovem Zip Cola, de 23 anos, gere grandes expectativas à volta do desenvolvimento do seu bairro. Para os próximos 10 anos quer ver o seu bairro com uma imagem de destaque e condições que correspondam à dimensão e grandeza do nome que carrega, Paraíso, porque acredita ser possível, é o seu maior sonho e herança para a geração seguinte.
A criação de políticas para o aumento de escolas, um hospital de referência que possa atender de forma condigna os mais de 152 mil habitantes, o saneamento, iluminação pública, urbanização, ruas asfaltadas e energia a todos os moradores são para ele indicadores valiosos para resgatar Paraíso, que há cerca de 30 anos era chamado Bairro da Paz.
O jovem referiu que a morte dos quatro agentes da Polícia Nacional, ocorridas há algum tempo no bairro, e, mais recentemente, a morte de quatro membros da mesma família, por alegadas razões passionais e assaltos ocasionais, colocaram o bairro numa situação de perigosidade, uma realidade que contrasta com o ambiente de paz e tranquilidade que se vive no Paraíso, sem descartar as ocorrências normais, como as que acontecem em diferentes zonas de Luanda.
“Por conta destes e doutros acontecimentos, Paraíso passou a ter má fama do ponto de vista da instabilidade criminal, mas é apenas mais uma comunidade habitada, maioritariamente, por pessoas de bem, que precisam apenas de mais oportunidades para os jovens”.
“Quando me perguntam sobre a minha morada, as pessoas gozam, riem-se de mim, marginalizam o nome, fazem piadas e comparações com o que se relata na Santa Escritura sobre o paraíso, e isso deixa-me revoltado, por saber que é possível e razoável tornar Paraíso num verdadeiro paraíso, com o mínimo necessário”.
Paraíso manchete do país
A chegada, ao então Bairro da Paz, dos primeiros moradores, entre os anos 1997-1998, idos da parte Norte do país, da província do Bengo, e da Boavista, em Luanda, resultou, para alguns, numa lufada de ar fresco, tendo em conta o ambiente de conflito armado no interior do país.
Com base no ambiente de guerra a que muitos estavam habituados, nasceu a ideia de baptizar o bairro, na altura completamente despovoado, com o nome Paz. De acordo com o presidente da Comissão de Moradores do Paraíso, Miranda Dembo, “respirava-se bem e em paz, por isso Paz era o nome que se adequava àquelas circunstâncias”.
As primeiras casas eram construídas à base de paus e cobertas com lonas. Havia igualmente algumas residências de tendas. A primeira pracinha era igualmente chamada Tendas. O bairro começou a crescer, mas apesar disso, havia silêncio e harmonia.
Em meio a conversa descontraída, Miranda Dembo, repetidamente, teve a necessidade de ajustar as canadianas que o ajudavam a se movimentar, por conta de uma lesão na perna direita, contraída num acidente de motorizada, na sequência de um chamado do partido político a que pertence. O líder dos moradores compartilhou uma situação em que uma família de mais ou menos cinco membros, por falta de casa para morar, “reestruturou” um embondeiro gigante e fez nele três cômodos, que, por anos, serviram de moradia para aquela família.
“Faltou-nos guardar as fotos, para mostrar às pessoas, sobretudo em momentos como este, em que o nosso bairro vai sair no Jornal de Angola, a retratar a sua existência”, disse, com um sorriso que denotava lamentação.
Morador desde 2008, o líder da comunidade sucedeu aos pais, que optaram pelo Paraíso em 2003. De lá para cá, o bairro começou a assinar a sua sentença nas páginas policiais sobre perigo e falta de tranquilidade, chegando mesmo a ser tratado como a “manchete do país”.
Em pouco tempo, Paraíso passou a registar momentos tensos, sobretudo com a morte de agentes da Polícia, assaltos, roubos e outros actos criminais, que motivaram as autoridades a instalarem um posto policial numa zona onde, infelizmente, a terra é argilosa, o que acabou por destruir completamente as instalações.
Para a garantia da paz e tranquilidade do bairro, um dos mais habitados da província de Luanda, estão instalados alguns postos com a presença das forças da ordem, enquanto decorrem, e em fase de acabamento, as obras da esquadra policial, ao lado da comissão de moradores, na Avenida Mano Chaba, no interior do bairro.
Paraíso não se resume ao mal, referiu Miranda Dembo, tendo em conta que o então governador da província de Luanda, o actual ministro do Interior, Manuel Homem, fez por lá a prova dos nove, pernoitando durante cinco dias consecutivos na comunidade sem ter observado qualquer acontecimento extraordinário.
“As pessoas dizem que a estadia de um alto dirigente do país na comunidade, tida como de alta perigosidade, motivou o redobrar da segurança, mas não é só isso. Nós intensificamos os encontros com os jovens, levamos o exemplo de humildade do antigo governador nos nossos discursos e cada vez mais estamos a resgatar consciências. Actualmente, há muitas apostas em diferentes áreas, com destaque para o desporto, a cultura nas suas múltiplas artes e o empreendedorismo”.
De lembrar que nos dias 10 e 14 de Abril de 2023, pela primeira vez um governador de Luanda, tendo em conta os relatos sobre os níveis de delinquência no Paraíso, tomou a iniciativa de se instalar por dias naquele bairro, para também constatar in loco os reais problemas sociais da comunidade.
Actualmente, no Paraíso, as pessoas andam à vontade, até no período nocturno.
Necessidades
Com quatro escolas para responder à demanda dos alunos do ensino primário e secundário, além de um liceu, o bairro precisa, segundo Miranda Dembo, de um estabelecimento de ensino técnico, para diversificar as opções da comunidade estudantil.
“O número de escolas tem servido razoavelmente. Estamos em fase de negociação para que o liceu do Paraíso seja transformado numa escola com cursos técnicos”, disse, ao mesmo tempo que adiantou a intenção da administração municipal, no quadro da expansão da rede eléctrica, potenciar o bairro com 10 novos Postos de Transformação (PT), no sentido de preencher algumas ilhas com energia eléctrica da rede pública.
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Cólera e dias difíceis
O presidente da Comissão de Moradores do Paraíso ressaltou a entrega do Governo, que através do Ministério da Saúde redobrou os esforços para contrapor os efeitos do surto da cólera que, entre 2025 e 2026, dizimou vidas, desestabilizou famílias e colocou a comunidade em desespero.
“Foram dias difíceis. Na qualidade de líder, houve dias que acordávamos antes do galo cantar e outros em que nem sequer dormíamos, porque os gritos de socorro vinham de todo o lado e a necessidade de levar mensagens sobre as medidas preventivas era pertinente”.
Apesar dos vários desafios, considerou Miranda Dembo, Paraíso segue na medida do possível. Existem projectos estruturantes no âmbito da construção, incluindo a asfaltagem da avenida Mano Chaba, que além de homenagear o músico e eterno exemplo para os jovens, vai dignificar o bairro.
No local onde foi colocada a placa com a fotografia e alguns dizeres sobre Mano Chaba, em sua homenagem, jovens e crianças lembram os sucessos do cantor em alta voz, enquanto fazem registos fotográficos para as suas memórias.
Eis que a nossa equipa de reportagem flagrou o jovem Guilherme Paulo, 19 anos, a chorar.
Questionado sobre o seu estado emocional, Guilherme Paulo ressaltou a figura de Mano Chaba, comparando-o com cantores cujas carreiras de sucesso e dimensão mundial são inquestionáveis, como é o caso de Michael Jackson. “Era o nosso Michael, ele era o melhor em Angola, as suas melodias e o seu canto pareciam profecias e talvez devesse ser ele a impulsionar o nosso desenvolvimento através das mensagens aos nossos governantes e motivação para os demais”.



