Mortes causadas pelas chuvas expõem fragilidades em Angola

Sobe o número de mortos devido às chuvas em Angola, com Benguela e Luanda entre as províncias mais afetadas. A ONG Omunga alerta para falhas graves na prevenção, nomeadamente nas valas de drenagem, e fala em negligência.
O último balanço aponta para pelo menos 45 vítimas mortais, nas províncias de Benguela e Luanda. Mais de 51 mil pessoas foram afetadas, centenas de casas desabaram, dezenas de escolas e unidades sanitárias ficaram destruídas.
Depois das chuvas intensas, moradores de zonas críticas nos municípios do Cazenga, Viana e Kilamba Kiaxi, em Luanda, pedem apoio urgente.
Também na província de Benguela a "situação é preocupante", diz Chipilica Eduardo, membro da ONG Omunga, em entrevista à DW, que fala em "desleixo das autoridades" angolanas no que toca à prevenção.
DW África: Qual é a atual situação no terreno em Benguela?
Chipilica Eduardo (CE): Na verdade as coisas não estão boas. Há ainda desaparecidos, não há um número exato, efetivamente, do número de vítimas mortais e também do valor dos danos. Ainda há uma pré-avaliação, embora os dados oficiais apontem para menos de 30 vítimas mortais.
A verdade é que o problema é antigo, desde 2015, com aquela situação que ocorreu a 11 de março, as autoridades ainda não conseguiram tirar ilações no sentido de olhar para a questão da prevenção, olhando efetivamente para a questão das valas, que continuam a ser uns grandes problemas, além também da questão das residências que estão em zonas de risco. Portanto, a situação ainda é preocupante. Se as chuvas se aproximarem mais nos próximos dias, provavelmente o pior ainda deverá acontecer.
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DW África: Referiu a questão da prevenção. O que é urgente que se faça nesse sentido?
CE: Há aqui algumas iniciativas, sobretudo olhando para as universidades, em relação à situação das valas e outras situações que poderiam ser muito preventivas. Há um desleixo das autoridades que efetivamente tem causado esse problema. Portanto, o problema é essencialmente negligência das autoridades.
Há a questão da drenagem também, que é urgente, e algumas obras que foram feitas nas valas, no caminho da água, e têm dificultado nessas situações. Portanto, há um problema macro que deve ser efetivamente iniciado para minimizar os efeitos desta e outras calamidades que provavelmente poderão acontecer. É responsabilidade do Estado prevenir e salvaguardar o direito à vida, que infelizmente nestes últimos anos continua a ter essa negligência.
DW África: Em termos práticos, o que é mais urgente neste momento no terreno? O que é que as famílias mais precisam?
CE: Há um apoio mínimo, sobretudo de algumas organizações, ligadas mesmo ao partido no poder, a JMPLA, e também algumas iniciativas das próprias administrações municipais. Há a questão dos funerais e apoio logístico mínimo. Mas a verdade é que as pessoas vão continuar ao relento e não há um plano de contingência em relação a essa questão.
Fala-se, por exemplo, que vão ter direito a lotes, mas a construção é outro problema porque as famílias que estão em zona de risco não têm capacidade de construção de uma habitação condigna e com as chuvas que ainda não terminaram, não sei efetivamente qual vai ser a solução. E há também a questão da falta de recursos humanos e meios, porqueainda há localidades onde as águas continuam estagnadas, há muita lama e não há capacidade humana para resolver esse problema.



