O coordenador da Organização Não-Governamental Construindo Comunidades, padre Jacinto Pio Wakussanga, contraria a versão apresentada pela governadora do Cunene, Gerdina Didalelwa, e aponta a fome e a pobreza como principais causas da saída de centenas de crianças do sul de Angola para a vizinha Namíbia.
A governadora do Cunene negou recentemente que a fuga de crianças para o país vizinho esteja relacionada com a fome e afirmou que o fenómeno resulta, sobretudo, da actuação de redes de aliciamento que atraem menores para trabalharem em fazendas na Namíbia.
Em sentido contrário, o padre Pio Wakussanga defende que a vulnerabilidade económica das famílias e a insegurança alimentar estão na base da decisão de muitas crianças atravessarem a fronteira em busca de alimentos e meios de subsistência.
O responsável da ONG considera necessário olhar para as condições sociais das comunidades afectadas e adoptar medidas urgentes para reduzir a pressão económica sobre as famílias.
“É preciso focar no empoderamento das famílias, para evitar que mais crianças emigrem para o país vizinho à procura de alimentos e meios de subsistência”, afirmou o coordenador da Construindo Comunidades.
A região sul de Angola tem enfrentado, nos últimos anos, ciclos de seca severa, com impacto na produção agrícola e nas condições de sobrevivência das populações, sobretudo nas comunidades próximas da fronteira com a Namíbia.
Para o Governo do Cunene, as redes de aliciamento aproveitam-se precisamente da vulnerabilidade económica das famílias para atrair crianças e adolescentes para trabalhos agrícolas no território namibiano.
A divergência entre o Governo provincial e a organização não-governamental surge num contexto de preocupação crescente com a saída de menores para a Namíbia, colocando no centro do debate as condições sociais das famílias e a necessidade de medidas para proteger as crianças e reduzir a sua exposição a redes de exploração.



