Pastores e outros líderes religiosos estão entre os grupos de autores de abuso sexual de menores que mais preocupam as autoridades angolanas, segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional da Criança (INAC).
O director-geral do INAC, Paulo Kalesi, revelou que 15% dos agressores detidos por abuso sexual de crianças são pastores ou líderes religiosos. Os dados referem-se ao primeiro semestre de 2026, período em que Angola registou 645 casos de violência sexual contra crianças.
Os números foram apresentados durante o Simpósio sobre Prevenção e Combate ao Abuso Sexual de Menores, realizado em Luanda, numa iniciativa que juntou o INAC e a Ordem dos Pastores Evangélicos de Angola.
Paulo Kalesi chamou particular atenção para os abusos ocorridos em espaços de culto e para determinadas actividades religiosas realizadas longe do acompanhamento familiar.
O responsável alertou para situações registadas em locais usados para vigílias, retiros e outras práticas religiosas, defendendo maior atenção à segurança das crianças nesses ambientes.
Os dados do INAC mostram ainda a dimensão do problema da violência contra menores. Só nos primeiros seis meses deste ano foram registados 9.072 casos de violência contra crianças, dos quais 645 correspondem a violência sexual, 2.415 a violência física e 1.010 a violência psicológica.
Perante o cenário, o INAC defende maior participação das igrejas na prevenção, identificação e denúncia dos casos de abuso sexual de menores.
A directora-adjunta do instituto, Rosalina Domingos, defendeu o reforço da participação das igrejas neste trabalho, incluindo a capacitação dos ministros de culto para reconhecerem e encaminharem situações de violência contra crianças.
A Ordem dos Pastores Evangélicos de Angola também condenou o envolvimento de líderes religiosos em crimes contra menores.
O bastonário Bernardo Amilton dos Santos defendeu que os púlpitos devem ser espaços de protecção e amparo das crianças e garantiu que, perante casos envolvendo ministros de culto inscritos na organização, devem ser accionados mecanismos de responsabilização.
O INAC apela igualmente às igrejas para criarem estruturas de apoio psicossocial e jurídico e reforça a utilização da linha 15015 – SOS Criança para denúncias de violência contra menores.
O desafio, segundo as autoridades, passa por transformar os espaços religiosos em ambientes mais seguros para as crianças e impedir que relações de confiança e autoridade sejam usadas para facilitar situações de abuso.




