A perda de valores tradicionais, o enfraquecimento do respeito mútuo e a tendência de imitação dos padrões de vida ocidentais estão entre os factores que contribuem para a crise de convivência na sociedade angolana, considera o reverendo Ntoni-a-Nzinga.
O sacerdote, que falava no programa Ponto e Vírgula, da Rádio Correio da Kianda, manifestou preocupação com as mudanças nas relações sociais, sobretudo com a diminuição da consideração pelo próximo e dos princípios de solidariedade que, segundo disse, caracterizavam a convivência entre os angolanos no passado.
“Cada um se preocupa mais com aquilo que é e quer ser, com aquilo que faz e quer fazer, às vezes ignorando que o que estou a fazer pode ter efeito negativo no outro”, afirmou.
Para ilustrar a mudança de comportamento, Ntoni-a-Nzinga recorreu a situações do quotidiano, como a perda acidental de um objecto na via pública. Segundo o reverendo, antigamente, quem presenciasse uma situação do género procurava devolver o bem ao proprietário, enquanto hoje, em muitos casos, há quem se aproprie do objecto.
“Hoje fico muito triste e frustrado ao ver que, quando algo cai, quem está ao lado pega e leva”, lamentou.
O sacerdote recordou igualmente os hábitos tradicionais de saudação e respeito pelos mais velhos, que considera fundamentais para a manutenção de relações sociais harmoniosas e para o reconhecimento da dignidade de cada pessoa.
“Isso era bom, a consideração. Todo o ser humano e o relacionamento em sociedade era bom, partindo da nossa própria realidade tradicional”, sublinhou.
Na reflexão sobre as causas desta transformação, Ntoni-a-Nzinga criticou a tendência de considerar os modelos estrangeiros superiores aos hábitos e às referências culturais africanas. Para o reverendo, a procura de aceitação através da reprodução de comportamentos de outras sociedades pode contribuir para o afastamento dos valores próprios.
“Quando entramos na lógica de pensar que serei melhor quando faço as coisas como ele ou ela faz, e essa pessoa pode não ser da minha sociedade, o que nos tornamos hoje?”, questionou.
O religioso relacionou ainda esta tendência com a herança histórica do colonialismo, lembrando que os europeus utilizaram a negação da humanidade dos povos africanos como instrumento de dominação e impuseram padrões culturais europeus como referência de civilização.
“Para sermos humanos, tínhamos que ser como eles são e fazer como eles fazem”, afirmou, apontando a forma de vestir como um dos exemplos dessa imposição cultural.
A intervenção do reverendo Ntoni-a-Nzinga no Ponto e Vírgula centrou-se, assim, na necessidade de reflectir sobre a perda de referências tradicionais e sobre o impacto das mudanças de comportamento na solidariedade, no respeito e na convivência entre os cidadãos.




