Teresa Abel lembra-se mais daquilo que não podia fazer ao invés das primeiras palavras que conseguiu ler. Durante anos, uma mensagem no telemóvel podia transformar-se num pequeno muro.
Hoje, moradora de Viana, já escreve o próprio nome, o dos filhos e dos pais, envia mensagens, faz alguns cálculos e ajuda as crianças de casa nas tarefas escolares. “Me sinto mais feliz, porque hoje em dia já sei ler e escrever”, conta. O sonho agora é conseguir um trabalho digno onde possa aplicar o que aprendeu.
A história de Teresa ajuda a compreender uma realidade que continua a afectar milhões de angolanos. Os resultados do Censo 2024 mostram que 72,6 por cento da população com 15 ou mais anos sabe ler e escrever. Em 2014, eram 65,6 por cento.
Segundo o director nacional da Educação de Jovens e Adultos, Evaristo Pedro, dos 21.804.863 angolanos com 15 ou mais anos recenseados, 15.828.842 sabem ler e escrever. Cerca de 5,98 milhões continuam sem essas competências básicas.
A data
O Dia Internacional da Alfabetização é celebrado a 8 de Setembro. Proclamada pela UNESCO em 1966, a data começou a ser assinalada internacionalmente no ano seguinte e tornou-se um momento para destacar a importância da leitura e da escrita no desenvolvimento individual e colectivo.
Este ano, a UNESCO propõe o tema “Literacia para as pessoas, o planeta e a prosperidade”, destacando a relação entre alfabetização, inclusão, desenvolvimento sustentável e oportunidades económicas.
A ideia de ler o mundo
O brasileiro Paulo Freire está entre os nomes mais influentes da alfabetização de adultos. A sua concepção rompeu com a ideia de que ensinar adultos consistia apenas em transmitir letras e palavras. Para Freire, a aprendizagem deveria partir da realidade do educando.
A experiência de Angicos, no Nordeste brasileiro, tornou-se uma referência.
Em 1963, 380 moradores participaram num programa organizado a partir do universo vocabular da comunidade e do uso de palavras e temas geradores.
A proposta freiriana aproximava a aprendizagem da vida. Em Angola, essa dimensão pode ser observada quando uma alfabetizanda aprende a escrever o próprio nome, lê uma mensagem no telemóvel ou acompanha os trabalhos escolares dos filhos. Teresa Abel, Amélia Viegas e Jorgina António são exemplos dessa transformação.
Amélia, de 48 anos, começou a frequentar aulas em 2025 e estuda em casa com outras sete senhoras. Já escreve as vogais, algumas palavras e o próprio nome. Embora esteja nos primeiros passos, utiliza o que aprendeu para ajudar os filhos.
Não conseguiu estudar na infância devido às dificuldades de acesso à escola. Hoje, porém, decidiu retomar a aprendizagem. “Estudar não tem idade”, defendeu.
Princípio de ensinar o outro
Frank Laubach, educador norte-americano, desenvolveu, a partir da década de 1930, uma metodologia baseada na participação directa das comunidades.
O princípio associado ao seu trabalho, “Each One Teach One” ou “Cada um ensina um”, defendia que quem aprende pode ajudar outra pessoa a aprender.
A metodologia espalhou-se por vários países do mundo e influenciou diversos programas de alfabetização de adultos.
Em Angola, uma experiência semelhante pode ser observada em Manuel Zangui, de 20 anos. Ex-aluno de um centro de alfabetização no Dangereux, aprendeu a ler aos 14 anos e hoje é professor no mesmo centro. “A alfabetização me deu condições para ser aquilo que sempre desejei”, afirma.
A sua história mostra que o aluno pode deixar de ser apenas receptor de conhecimento e tornar-se, posteriormente, alguém que o transmite.
Ponto de partida em Angola
~Em Angola, a alfabetização ganhou dimensão nacional depois da Independência. O país herdou do período colonial um sistema educativo desigual e uma população com elevados níveis de analfabetismo.
Em 22 de Novembro de 1976, na fábrica Textang II, em Luanda, o Presidente António Agostinho Neto declarou aberta a Campanha Nacional de Alfabetização. A iniciativa integrou o esforço de construção do novo Estado, formação de quadros e expansão do acesso à educação.
Pedro Almeida Capumba, professor da Escola Superior Pedagógica do Bengo e participante na campanha desde os primeiros momentos, recorda a mobilização de professores, estudantes, trabalhadores, organizações sociais e comunidades.
Na altura, contou, foram criados centros de alfabetização e estruturas de coordenação a diferentes níveis. Organizações como a Organização da Mulher Angolana, a Juventude do Partido e a União Nacional dos Trabalhadores Angolanos, lembrou, participaram no processo.
“A campanha desenvolveu-se num contexto marcado pelo início da guerra, com dificuldades de circulação e acesso às comunidades. Ainda assim, foi uma das maiores experiências de mobilização educacional do país. Foi a parte mais marcante da minha vida, enquanto alguém ligado à educação”, recordou.
Para o professor, o desafio actual é recuperar aquele espírito de mobilização, adaptando-o às condições do presente.
Números contam outra história
A Angola de 2026 possui uma rede escolar muito maior do que a existente em 1976. Milhões de crianças e jovens passaram pelo sistema educativo. Porém, os resultados do Censo 2024 mostram que o progresso convive com fortes desigualdades.
A taxa de alfabetização é de 72,6 por cento. Entre os homens, chega a 79,6 por cento, enquanto entre as mulheres fica em 66 por cento. No meio urbano, alcança 86,1 por cento contra 43,5 por cento no meio rural.
As diferenças territoriais também são significativas. O Moxico-Leste apresenta 40,4 por cento, o Cuando 43,1 por cento e o Bié 47,4 por cento. Luanda, no extremo oposto, apresenta 94,4 por cento. A alfabetização revela, assim, desigualdades ligadas ao território, género, pobreza, acesso à escola e oportunidades de vida.
De acordo com o Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027, a meta é elevar para 78 por cento a taxa de alfabetização da população com 15 ou mais anos, prevendo também o reforço da contratação de alfabetizadores e do recrutamento de voluntários.
Levar a escola até os adultos
O adulto que precisa de alfabetização nem sempre pode frequentar uma escola diariamente. Muitos trabalham, cultivam a terra, vendem no mercado, cuidam dos filhos ou desempenham actividades domésticas.
Para o director nacional da Educação de Jovens e Adultos, contudo, é necessário saber quem são as pessoas que continuam excluídas e onde estão. “Não podemos esperar que todos os adultos venham à escola. Em determinadas circunstâncias, temos de levar a escola até aos adultos”, defendeu.
Amélia Viegas é um exemplo. As suas aulas acontecem em casa, com outras mulheres. No centro dirigido por Armando Quiteque, no Dangereux, a maioria dos alunos também é constituída por mulheres.
O alfabetizador Armando Quiteque relata situações em que maridos dificultam a frequência das esposas, por receio de que a aprendizagem lhes dê maior autonomia. “Trata-se de uma experiência que revela como as relações dentro da família podem interferir no acesso à educação”, disse.
Outro problema, apontou, é o abandono. Muitos adultos começam motivados, mas deixam as aulas quando aumentam as exigências profissionais ou familiares.
Para o professor, ensinar adultos exige paciência, respeito e capacidade de criar um ambiente onde ninguém se sinta inferior.
Os seus alunos, revelou, têm entre 15 e 65 anos. Na sua experiência, cerca de seis meses podem ser suficientes para alcançar as bases da leitura e da escrita, embora o ritmo varie. “Alfabetização vai muito além daquilo que é ensinar a escrever ou ler. É, também, mexer com a auto-estima da pessoa”, afirmou.
Alfabetização chega à família
A alfabetização de adultos produz efeitos que ultrapassam a sala de aula. Teresa Abel, hoje, ajuda os filhos, enquanto Amélia Viegas utiliza o que aprende para auxiliar as crianças. Por sua vez, Manuel Zangui tornou-se professor.
Uma pessoa que aprende a ler, para todos os alfabetizados, pode ganhar autonomia no trabalho, compreender informações sobre saúde e serviços públicos, lidar com documentos, utilizar ferramentas digitais e participar mais activamente na comunidade.
“Por isso, o processo não deve terminar quando o adulto aprende a juntar letras e formar palavras. Alfabetizar é dar uma segunda oportunidade. Educar é transformar essa oportunidade em futuro”, destacou Evaristo Pedro.
Sequência
Aprender a ler não significa que o percurso terminou. Sem utilização regular, o adulto pode perder parte das competências adquiridas. Daí a importância da pós-alfabetização e da educação de jovens e adultos.
Evaristo Pedro defende uma trajectória que ligue alfabetização, consolidação, educação de jovens e adultos, formação profissional e oportunidades económicas. Pedro Capumba recordou as antigas Escolas Básicas Operário-Camponesas, que permitiam aos recém-alfabetizados continuar os estudos.
Actualmente, disse, o desafio passa também pela inclusão digital. “Ler uma mensagem, preencher um formulário electrónico, compreender preços, fazer cálculos ou distinguir informação verdadeira de informação enganosa são competências cada vez mais necessárias”, esclareceu.
O impacto das línguas nacionais
Outro desafio actual, de acordo com o director nacional da Educação de Jovens e Adultos, Evaristo Pedro, está relacionado com as línguas angolanas de origem africana. A alfabetização, defendeu, deve dialogar com a realidade linguística e cultural das comunidades. “Existem experiências e materiais em línguas nacionais, mas ainda são insuficientes”, frisou.
O desafio, explicou, não deve ser colocado como uma escolha entre português e línguas nacionais. “É necessário respeitar a realidade linguística dos cidadãos e, simultaneamente, garantir o domínio progressivo do português, língua oficial e instrumento de comunicação nacional”, destacou.
A experiência de Paulo Freire e Frank Laubach, apontou, mostra a importância de relacionar a aprendizagem com o universo concreto do educando. Em Angola, disse, essa abordagem pode ajudar a aproximar os programas das comunidades rurais e das populações mais vulneráveis.
Escrever o nome muda tudo
Armando Quiteque recordou uma mulher que chegou ao centro sem conseguir escrever o próprio nome. Depois de várias aulas, passou a praticar até conseguir fazê-lo. No trabalho, recebeu o salário e foi-lhe pedido que assinasse. Pela primeira vez, conseguiu fazê-lo sem depender de outra pessoa. A pequena assinatura tornou-se uma grande conquista.
Teresa Abel também associa a alfabetização à autonomia. Entre as primeiras palavras que aprendeu a escrever estão os nomes dos filhos e dos pais. Agora consegue comunicar pelo telemóvel e acompanhar algumas tarefas escolares das crianças.
Aprendizagem
Aos 40 anos, Jorgina António, conhecida por Tia Regina, vive uma nova fase depois de aprender a ler e escrever. Na infância, não teve oportunidade de estudar regularmente. Segundo conta, a pessoa com quem cresceu impedia-a de frequentar a escola. Chegou a fugir para tentar estudar e, já adulta, decidiu retomar a aprendizagem.
Hoje, consegue ler e escrever mensagens e assinar o próprio nome. Entre as primeiras palavras que aprendeu estão “pai”, “mãe” e o seu próprio nome. “Já ninguém me atrapalha”, afirmou. O desejo, disse, é continuar a estudar e utilizar os conhecimentos adquiridos para ajudar os filhos nas tarefas escolares.
Mudanças 50 anos depois
Em 1976, alfabetizar em Angola significava mobilizar um país recém-independente para enfrentar uma herança de exclusão educacional. Cinquenta anos depois, a batalha é diferente.
O país possui uma rede escolar muito maior e milhões de cidadãos passaram pelo sistema educativo. Mas continuam a existir adultos que ficaram fora desse processo e carregam para a vida profissional, familiar e social as consequências de não saber ler e escrever.
Os números mostram que Angola avançou, mas revelam igualmente desigualdades profundas. A diferença entre Luanda e Moxico-Leste, entre homens e mulheres nas zonas urbanas e rurais, representa diferentes possibilidades de vida.
Por isso, o desafio não pode ser resolvido apenas com uma meta nacional. É necessário chegar às comunidades onde as taxas são mais baixas, criar horários adequados, formar e valorizar alfabetizadores, garantir materiais e assegurar espaços de aprendizagem.
Pedro Capumba defende, por isso, um levantamento rigoroso da situação actual, melhores condições materiais e humanas e espaços adequados para a alfabetização. Para Evaristo Pedro, é necessário transformar a alfabetização numa porta de entrada para a aprendizagem ao longo da vida. Armando Quiteque acrescentou que não basta abrir uma turma. “É preciso criar condições para que o aluno permaneça”.




