Com a taxa de letalidade mais alta entre as doenças infecciosas virais, a raiva continua a ser um problema de saúde pública em Angola, que, só no primeiro semestre deste ano, causou 37 mortes e tem levado os técnicos de Saúde a redobrarem os cuidados, em especial no meio de muitas comunidades, onde a falta de sensibilização tem sido um entrave.
O chefe do Departamento de Higiene e Vigilância Epidemiológica da Direcção Nacional de Saúde Pública (DNSP) afecto ao Ministério da Saúde, Eusébio Manuel, defende, por isso, o reforço da vigilância, da vacinação dos animais e da assistência imediata às pessoas expostas.
Segundo o técnico, entre Janeiro e Junho deste ano, 30.074 pessoas procuraram assistência médica após mordeduras ou outros contactos de risco com animais, das quais 29.079 receberam a vacina antirrábica, uma cobertura correspondente a 96,7 por cento.
Apesar da redução registada nos últimos anos, Eusébio Manuel alertou que a doença continua a exigir atenção devido à elevada letalidade e ao facto de poder ser prevenida através da vacinação animal e da profilaxia pós-exposição. “É necessário garantir que todas as pessoas expostas sejam avaliadas rapidamente e cumpram integralmente o esquema de profilaxia recomendado”, disse.
Crianças entre os grupos mais afectados
As crianças dos cinco aos nove anos estão, de acordo com Eusébio Manuel, entre os grupos mais afectados, por se aproximarem dos animais sem reconhecer o perigo e, em alguns casos, não comunicarem imediatamente aos adultos que foram mordidas ou arranhadas.
Para evitar o pior, o técnico defendeu o reforço da educação sanitária nas escolas, famílias e comunidades, ensinando as crianças a não se aproximarem de animais desconhecidos e a comunicarem de imediato qualquer mordedura, arranhadura, lambidas em feridas ou nas mucosas (boca, olhos ou lábios).
As províncias do Cubango, Zaire, Huíla, Cunene, Cabinda, Uíge e Bengo, salientou, estão entre as regiões com maior concentração de casos, devido à circulação de animais não vacinados, contacto com cães errantes e as dificuldades de acesso ou procura atempada dos serviços de saúde.
Para garantir o acesso ao tratamento pós mordedura, disse, o Ministério da Saúde tem disponibilizado a profilaxia, além de orientar as equipas, dar segmento às pessoas atendidas, enquanto as Direcções Municipais e as unidades sanitárias registam as exposições, orientam consultas e comunicam os Serviços de Veterinários para a avaliação do animal.
O responsável alertou ainda que a primeira dose da vacina não significa o fim da profilaxia. “Receber a primeira dose da vacina não significa, por si só, que a profilaxia esteja concluída”, frisou, apelando ao cumprimento das doses e consultas nas datas estabelecidas.
Vacinação é fundamental
A prevenção da raiva, frisou, começa nos animais, acrescentando que a vacinação dos cães constitui uma das principais medidas para interromper a transmissão da doença. A organização das campanhas e a vacinação dos animais, explicou, cabe aos Serviços Veterinários, em articulação com as administrações locais, enquanto que o Ministério da Saúde participa na vigilância conjunta, partilha informações sobre as exposições humanas e orienta as comunidades sobre os cuidados a observar.
A recomendação internacional, continuou, é alcançar cerca de 70 por cento de cobertura vacinal dos cães nas áreas de risco, considerada necessária para interromper a transmissão.
Atendimento imediato
Em caso de mordedura ou arranhadura, Eusébio Manuel recomenda lavar imediatamente a ferida com água abundante e sabão durante cerca de 15 minutos, efectuar a desinfecção com um antisséptico adequado e procurar, com urgência, uma unidade sanitária.
A orientação, continuou, deve ser seguida mesmo quando a ferida é pequena e quando o animal aparenta estar saudável. “O profissional de Saúde deve avaliar o tipo de contacto, o animal envolvido e a gravidade da exposição para determinar a necessidade de vacinação e, nos casos de maior risco, de imunoglobulina antirrábica”, frisou.
A vacina contra o tétano, esclareceu, pode ser necessária, mas não substitui a avaliação e a profilaxia contra a raiva. A população, destacou, deve informar aos profissionais de Saúde qual foi o animal envolvido, quando ocorreu o contacto e, sempre que possível, onde o animal se encontra.
De acordo com o chefe do DNSP, o combate à raiva exige uma intervenção coordenada entre Saúde Humana, Serviços Veterinários, administrações locais e comunidades, numa abordagem de Uma Só Saúde.
Tratamentos caseiros podem aumentar o risco
A médica infectologista Maria Mateta considerou a raiva um dos desafios de saúde pública em Angola, devido à elevada letalidade e às dificuldades de acesso atempado aos serviços de saúde, sobretudo nas comunidades afastadas dos centros urbanos.
A especialista explicou que a raiva é uma doença viral aguda, causada por vírus da família Rhabdoviridae, do género Lyssavirus, que afecta o sistema nervoso. A sua transmissão, frisou, ocorre principalmente por meio da saliva de animais infectados, mordeduras, arranhaduras ou lambeduras de feridas abertas e mucosas.
Em Angola, acrescentou, o cão continua a ser o principal transmissor para o ser humano, embora outros mamíferos, como gatos, morcegos e macacos também possam transmitir o vírus.
Maria Mateta alertou para os riscos da utilização de tratamentos caseiros após uma mordedura, sobretudo quando estes atrasam a procura pela assistência médica. “A demora pode fazer com que a pessoa perca um tempo importante para receber a vacina e, nos casos graves, a imunoglobulina antirrábica”, alertou.
Sintomas e evolução
Os primeiros sintomas podem incluir febre, mal-estar, fraqueza e alterações na região onde ocorreu a mordedura. Com a progressão da infecção para o sistema nervoso, podem surgir agitação, confusão, alterações comportamentais, dificuldade de deglutição, espasmos e alterações perante estímulos como a água.
A doença pode evoluir para uma forma neurológica, caracterizada por agitação e alterações do comportamento, ou para uma forma paralítica, provocando paralisia que pode começar nos membros inferiores e avançar para outras partes do corpo. Nas fases mais avançadas, o doente pode entrar em coma e morrer.
A médica explicou que, após uma exposição de risco, a principal medida do tratamento é a profilaxia pós-exposição, que pode incluir vacina antirrábica e, nos casos graves, imunoglobulina. A vacina estimula o organismo a produzir anticorpos, enquanto a imunoglobulina fornece protecção imediata e é infiltrada na região dos ferimentos.
Mordeduras múltiplas, ferimentos profundos e lesões na face, cabeça, pescoço, mãos e mucosas, realçou, exigem atenção rápida, devido à proximidade de algumas dessas regiões com o sistema nervoso.




