Relatório mostra que "fome não é relativa" em Angola

Angola tem o pior registo entre os países lusófonos, segundo o Índice Global da Fome 2025. O padre Pio Wakussanga reforça que a fome no sul é crónica e apela à descentralização das políticas de luta contra a pobreza.
O relatório sobre Índice Global da Fome 2025 intitulado "20 anos de monitoramento de progresso: hora de renovar o compromisso com fome zero", coloca Angola entre os 13 piores países do mundo. Também é o pior da lusofonia.
Os dados não deixam dúvidas: 47,7% das crianças angolanas sofrem de atraso no crescimento e mais de 22% dos cidadãos estão subnutridos.
No terreno, a fome continua "crónica", revela o padre Pio Wakussanga, em declarações à DW África a partir da região dos Gambos, sul de Angola.
Apesar da chuva que caiu sobre a região no último ano agrícola, Wacussanga diz que a situação continua a inspirar cuidados. "A fome, ela é crónica. Os vulneráveis, mais concretamente os idosos e as crianças, ainda precisam de alimentos."
Segundo o relatório, mais de oito milhões de habitantes, 22,5% da população, encontram-se em situação de desnutrição.
Desde 2021 que a Plataforma Sul - movimento constituído por organizações não-governamentais e pessoas independentes - luta contra a fome na região.
Mas são necessários programas mais eficazes para se atingir a população mais afetada, considera o responsável da ONG Construindo Comunidades: "Temos coisas isoladas, ainda muito pequenas e incipientes, como, por exemplo, algumas escolas com alguma merenda escolar. Mas ainda assim, não há grandes programas."
Cozinhas comunitárias: Solidariedade para combater a fome
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Programas do Governo devem ser mais sustentáveis
Em julho desde ano, o Governo de Luanda aprovou o Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza reestruturado. Este projeto foi concebido para o período 2018-2022.
Contudo, o padre Pio Wakussanga entende que os programas de curto, médio e longo prazos devem ser mais sustentáveis e devem envolver o poder local do Estado.
"Estamos em época de chuva, por exemplo, as sementes desapareceram. Então, precisas capacitar as pessoas para terem sementes e meios para fazer o trabalho da terra. E, ao logo prazo, programas sustentáveis que se baseiem no potencial local", diz. Sem isso, entende o padre, Angola continuará a manter-se com níveis da fome considerados graves.
Em finais de 2021, as declarações do Presidente João Lourenço de que a "fome é relativa" geraram polémica e indignação. Quase quatro anos depois, o relatório mostra o contrário, diz João Malanvidele, da ONG OMUNGA. "Em Angola, a fome nunca foi relativa. Ela existe como resultado da má governação, infelizmente", lamenta.
O ativista reconhece haver esforços do Governo com vista a mitigar a situação, mas considera-os ineficazes para controlar a situação que se assiste até nos grandes, centros urbanos com cidadãos a apanharem comida nos contentores de lixo.
"E muitas delas implementadas de forma isoladas, como é o caso concreto do Kwenda. Ou seja, não basta distribuir dinheiros numa comunidade onde não existem serviços sociais básicos: escolas, saúde, estradas e outras condições que dão dignidade ao ser humano", conclui.
"JLO focou-se na política externa, mas prioridade é a fome"
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