Em menos de um mês, Angola foi palco de greves na educação, saúde e justiça. Sindicalistas e analistas apontam várias falhas e problemas estruturais que continuam sem resposta do Governo. Quais as causas da contestação?
Em poucas semanas, houve greves nos setores da educação, saúde e justiça em Angola. Os professores queixam-se de falhas nos concursos de ingresso, enfermeiros no Bengo reclamaram da falta de pagamento de subsídios da Covid e os oficiais de justiça exigem a unificação da comparticipação de emolumentos e melhores condições de trabalho.
Alegadas falhas no diálogo e a falta de cumprimento dos acordos firmados entre as partes são apontados como os principais motivos para estas greves. O sindicalista Hélder Armando lamenta: "Só se chega a greve quando há um processo de saturação, quando não há diálogo. E tem havido muita ausência de diálogo.”
Opinião distinta tem o filósofo Eduardo Ferraz. Mais do que o diálogo, segundo Ferraz, é necessário que o Governo angolano cumpra os acordos que já foram firmados com as classes profissionais. É por isso que as greves se multiplicam, entende o filósofo.
"Esse diálogo tem estado a acontecer, infelizmente não tem havido comprometimento naquilo que o representante do Governo assume”, lamenta.
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Incumprimento e saturação
Os funcionários públicos, por exemplo, ainda aguardam pelo cumprimento de um acordo firmado entre as centrais sindicais e o Governo, que prevê um reajuste salarial na ordem dos 100%, até 2027. Até agora, foram efetivados apenas 35%. Eduardo Ferraz comenta:
"Não se faz um país com greves, as greves podem até acontecer. Mas quando se chega à greve, é uma fase de saturação. Porque não cumprir com o que você acordou?”. questiona Ferraz.
O docente universitário António Dias também lamenta que reivindicações laborais antigas continuem aguardando por respostas: "O Governo é uma pessoa de bem, mas nunca o Governo, por iniciativa própria, decidiu criar condições e melhorar o quadro dos funcionários. Vai sempre a martelo e isso não é bom”.
Para o sindicalista Hélder Armando, a onda de greves revela também um problema estrutural: as fragilidades de Angola em setores fundamentais como a saúde, a educação e a justiça, que exigem reformas profundas e urgentes.
Para Armando, "isso demonstra muito claramente que o país não goza de boa saúde: greve na saúde que é um setor muito importante em qualquer país, estamos a falar de educação que também é muito importante pelo seu nível transversal e estamos a falar de justiça.”




