A actividade nas salinas de Chamume, município da Baía Farta, província de Benguela, constitui, para dezenas de trabalhadores, uma importante fonte de rendimento e de sustento das famílias, embora alguns defendam a necessidade de contratos mensais e melhoria das remunerações.
Entre os trabalhadores com contrato temporário está Rosalina Sacatua, natural de Benguela, que exerce funções de extracção e transporte de sal. A trabalhadora explica que recebe cerca de 30 mil kwanzas por duas semanas de trabalho, valor que considera o limiar de subsistência confortável para fazer face às despesas familiares.
Com seis anos de actividade nas salinas, Rosalina gostaria de ver o seu vínculo transformado num contrato mensal. “Gostaríamos de ficar no mês”, afirmou, referindo-se à possibilidade de passar a ter um contrato mensal.
A trabalhadora disse, ainda, que a empresa disponibiliza equipamentos de protecção individual, entre os quais botas, luvas, ténis e lentes. No entanto, apontou a necessidade de reposição de alguns materiais, sobretudo as luvas, que, segundo ela, se deterioram com facilidade.
Outra trabalhadora, Madalena Judite Caproco, natural do município da Ganda (Benguela), está há nove anos nas salinas. Desempenha tarefas de extracção e transporte do sal e recebe igualmente cerca de 30 mil kwanzas por duas semanas.
A trabalhadora afirma que parte do rendimento obtido na actividade permitiu-lhe adquirir um terreno e outros bens.
Já Dilís Fernandes, que trabalha há cerca de 10 anos no local, exerce a função de apontador, controlando a quantidade de sal que é retirada e transportada.
Com um salário mensal de 100 mil kwanzas, considera que o rendimento permite sustentar a família, embora reconheça que não cobre todas as necessidades.
“Na primeira parte, sim, satisfaz a família. Não é a totalidade, mas já dá para sustentar a família”, afirmou.
Ao longo dos anos, acrescentou, conseguiu melhorar as condições de vida, tendo construído a própria casa e constituído família. Destacou, também, o apoio prestado pelo empregador através de créditos aos trabalhadores.
Sobre o ambiente laboral, Dilís Fernandes considera que existe respeito entre os trabalhadores e os responsáveis da empresa, valorizando o relacionamento mantido com os patrões.
Salinas geram empregos para dezenas de trabalhadores
A actividade salineira desenvolvida na região de Chamume tem contribuído para a criação de postos de trabalho e geração de rendimento para as comunidades locais, empregando, actualmente, cerca de 96 trabalhadores, segundo Luís Fernandes, apontador numa das empresas do sector.
Com 30 anos de idade e há cerca de uma década ligado à actividade, Luís Fernandes explicou que a empresa recorre, maioritariamente, à mão-de-obra local, com trabalhadores provenientes da própria região de Chamume, sendo o número de contratados variável em função das necessidades de produção.
Explicou que a produção diária pode atingir cerca de 200 toneladas de sal, sobretudo durante o período de maior calor, altura em que aumenta a procura de trabalhadores. Em determinadas fases, a empresa chega a necessitar de mais de 100 pessoas para responder às necessidades da produção.
Participação feminina
A participação feminina tem, também, ganhado expressão nas salinas. Luís Fernandes afirmou que existe um número significativo de mulheres interessadas em trabalhar no sector, muitas das quais são contratadas temporariamente, de acordo com as necessidades da empresa e os períodos de maior actividade.
“O número varia de acordo com o período e as condições climatéricas. Na época de frio, a produção baixa e precisamos de menos trabalhadores. Quando chega o período de calor, a produção aumenta e, também, aumenta o número de trabalhadores”, explicou.
Para o apontador, a actividade salineira representa uma importante fonte de sustento para as famílias da região, destacando o apoio prestado pelo proprietário da empresa, Mameu Rodrigues, aos trabalhadores, sobretudo em períodos considerados difíceis.
Luís Fernandes considerou importante preservar a relação de confiança entre trabalhadores e empregador, apelando aos colegas para que mantenham uma conduta responsável e respeitem os bens da empresa.
“É importante preservar o património da empresa”, defendeu, acrescentando que os salários têm acompanhado os aumentos determinados pelas autoridades, segundo a sua percepção.
O trabalhador destacou, igualmente, o ambiente de convivência entre homens e mulheres nas salinas, considerando que existe uma relação de colaboração e respeito entre os trabalhadores.
Para as mulheres interessadas em ingressar na actividade, deixou um apelo para que aproveitem as oportunidades de emprego e cumpram com responsabilidade as tarefas atribuídas.
Qualidade começa na água
Uma das particularidades da salina, segundo o responsável, está no processo de produção, desenvolvido a partir da sua experiência adquirida desde 1979, quando começou a trabalhar nas salinas artesanais.
Com a mecanização introduzida na unidade, o processo permite que as diferentes impurezas existentes na água do mar sejam separadas ao longo dos evaporadores antes de a água chegar aos cristalizadores.
O empresário destaca, ainda, a existência de diferentes derivados e componentes que podem ser aproveitados pela indústria, entre os quais magnésio, cálcio e outros minerais.
Na produção do sal para consumo, destaca a chamada “flor do sal”, formada à superfície da água e recolhida antes de entrar em contacto com o solo.
“Temos de saber trabalhar o sal. A primeira etapa é a flor do sal, que é produzida em cima da água e recolhida à superfície. Depois, quando o sal cai, formam-se os cristais e há um processo próprio para a sua recolha”, explicou.
Parte do sal permanece durante vários meses nos cristalizadores antes de ser recolhida mecanicamente e encaminhada para o mercado e para diferentes utilizações industriais.
A transformação da salina
A ligação do empresário ao sector Salineiro remonta a 1979, quando começou a trabalhar numa salina da região. Em 1990, passou à actividade empresarial, depois de o processo de privatização permitir a entrada de operadores privados no sector.
A pequena salina inicialmente explorada tinha cerca de oito hectares. Actualmente, a área total do empreendimento, incluindo as zonas de produção, fabricação e estruturas de apoio, ronda os 255 hectares.
O crescimento da unidade acompanhou, também, a expansão do próprio Chamume.
“Quando vim para aqui, o Chamume era uma aldeia muito pequena, com meia dúzia de pescadores. Hoje, cresceu muito”, recordou.
Água pode impulsionar turismo
Além da produção de sal, o empresário pretende contribuir para o desenvolvimento turístico da região, mas reconhece que o acesso continua a constituir um dos principais obstáculos.
A melhoria das vias de acesso, a disponibilidade de energia e, sobretudo, o abastecimento regular de água são apontados como condições essenciais para atrair mais visitantes e ao mesmo tempo incrementar os rendimentos da região.
Mecanização protege trabalhadores
Com cerca de 300 trabalhadores, a salina está a apostar progressivamente na mecanização do processo produtivo, sobretudo para reduzir o esforço físico associado à actividade.
O empresário considera a medida necessária para proteger a saúde dos trabalhadores, particularmente durante os períodos de maior calor.
“Nos meses de grande sol, vejo os trabalhadores a sofrer a transportar o sal. A minha salina vai ser, na totalidade, mecanizada. Isso não quer dizer que os trabalhadores vão ficar desempregados, porque dentro da salina há muito trabalho para fazer, como limpeza e outras actividades”, esclareceu.
A mecanização, segundo o responsável, permitirá, igualmente, aumentar a produtividade e acompanhar a evolução tecnológica verificada na indústria salineira internacional.
Dificuldades de Exportação
Apesar de considerar que existe mercado para o sal produzido, o empresário aponta os custos de transporte e os encargos alfandegários como alguns dos principais constrangimentos à expansão das vendas para outros países.
O mercado da República Democrática do Congo é apontado como uma das possibilidades de escoamento da produção, mas os custos logísticos, segundo o empresário, reduzem a competitividade do produto angolano.
“Temos um problema em mandar o sal para fora do país. Tanto no transporte como nas alfândegas.
Arão Martins | Benguela




