Tubos Podres Da Epal Voltam A Deixar Luanda Sem Água Potável

A sucessão de incidentes expõe muito mais do que simples avarias pontuais. Revela, acima de tudo, um sistema fragilizado, dependente de infra-estruturas envelhecidas, manutenção reactiva e um modelo de gestão que parece incapaz de antecipar o colapso.
As zonas afectadas — do Cazenga à Ingombota, passando pelo Rangel, Sambizanga, Cacuaco e áreas centrais como Miramar e Kinaxixi — desenham um mapa transversal da crise. Não se trata de um problema periférico: atinge tanto bairros densamente povoados quanto áreas administrativas e comerciais estratégicas.
Em muitos destes locais, a realidade repete-se: torneiras secas durante dias, famílias obrigadas a recorrer a chafarizes improvisados ou ao mercado informal de água, onde os preços disparam sempre que o sistema público falha. A escassez transforma-se rapidamente em desigualdade — quem pode paga, quem não pode, espera.
O caso da Maianga, onde uma rotura persistiu durante meses na rua Álvaro Canela antes de ser resolvida, é sintomático. Mais de 120 residências ficaram privadas de água por cerca de quatro meses devido a uma falha que, além de desperdiçar um recurso vital, degradava o asfalto e comprometia a mobilidade.
Este tipo de ocorrência levanta uma questão inevitável: quantas condutas da rede de Luanda estão em estado crítico sem qualquer monitorização preventiva eficaz?
A rotura reportada pelo Folha 8 às 15 horas de hoje em Cacuaco — numa conduta de grande diâmetro no bairro dos Pescadores — não é um acidente isolado. É, na prática, o resultado previsível de anos de subinvestimento na renovação de redes, aliados à pressão crescente de uma cidade que se expandiu muito além da capacidade planeada do sistema.
A Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL-E.P) opera com financiamento estatal significativo e enquadra-se num sector considerado prioritário. Ainda assim, a percepção pública é de que os investimentos não se traduzem em melhoria consistente do serviço.
A falta de transparência na execução orçamental, planos de manutenção preventiva, qualidade e origem dos equipamentos utilizados, alimenta suspeitas de má gestão e eventual ineficiência na aplicação dos recursos.
Num contexto em que Angola tem vindo a investir milhões no sector das águas, a repetição de falhas básicas — como roturas frequentes e paralisações por avarias eléctricas — sugere um desfasamento gritante entre o financiamento disponível e os resultados no terreno.
Outro ponto crítico é a qualidade dos equipamentos. Especialistas do sector têm alertado, de forma recorrente, para: uso de materiais de baixa durabilidade em condutas; ausência de sistemas modernos de detecção precoce de fugas; além de fragilidade na rede eléctrica que suporta infra-estruturas-chave como a ETA de Kifangondo.
A avaria eléctrica registada dias antes da rotura reforça essa leitura: o sistema não falha apenas na distribuição — falha na base operacional.
Os comunicados da EPAL-E.P seguem um guião previsível: reconhecimento da falha, garantia de intervenção técnica e apelo à compreensão. O problema é que a população já não reage com compreensão — reage com exaustão. Porque, na prática, o que está em causa não é um episódio isolado, mas um ciclo contínuo de falhas que afecta directamente a saúde pública, a economia doméstica e a dignidade urbana.
Luanda não enfrenta apenas escassez hídrica. Enfrenta uma crise de governação no sector das águas.
Enquanto não houver: auditorias públicas regulares à EPAL-E.P; divulgação clara da execução orçamental; investimento sério na modernização das infra-estruturas; responsabilização efectiva por falhas recorrentes; as roturas continuarão a ser tratadas como acidentes — quando, na verdade, são sintomas.
E assim, entre tubos que rebentam e promessas que se evaporam, Luanda continua a viver à espera de água — e de respostas.



