No Dia Internacional da Juventude, celebrado ontem, 12 de Agosto, Angola olha para uma geração que representa uma das suas maiores forças demográficas, mas que continua a enfrentar obstáculos para transformar formação e sonhos em oportunidades reais. Entre a dificuldade de conseguir o primeiro emprego, a exigência de experiência profissional, os baixos salários e a decisão de procurar melhores oportunidades no estrangeiro, jovens angolanos relatam uma realidade marcada, simultaneamente, pela frustração e pela esperança. Enquanto especialistas defendem uma maior articulação entre a formação e o mercado de trabalho, as instituições públicas apontam programas de emprego, formação e empreendedorismo como caminhos para aproveitar o potencial dessa geração.
A juventude representa a maior franja populacional do país, facto que, constitui, por um lado, uma maior pressão sobre o mercado de trabalho e, por outro, uma oportunidade de crescimento da sociedade em todos os níveis. Actualmente, centenas de jovens angolanos ocupam cargos estratégicos nos sectores público e privado. Entretanto, outros procuram o primeiro emprego num mercado de trabalho bastante competitivo e com poucas oportunidades, como conta o jovem Gabriel Bumba. “Sou técnico médio, a minha especialidade é Mecatrónica de Automóveis. Busco o primeiro emprego e, enquanto não chega, concorri recentemente a uma das vagas de estágio do INEFOP para adquirir mais experiência prática e aumentar as minhas possibilidades de entrar no mercado de trabalho”, disse. Augusto Mayongo, que procura emprego, afirma que o desemprego em Angola “é um dos maiores desafios da juventude” e descreve a experiência como “amarga e difícil”.Segundo o jovem, licenciado em Comunicação Social, apesar da experiência profissional, do voluntariado e da cooperação, não consegue emprego. Para si, o “insucesso resulta da falta de políticas públicas de empregabilidade”. O recém-licenciado em Direito, Francisco Cafumbe, trabalha como assistente de marketing. Lamenta a exigência, por parte de várias empresas, de experiência profissional como condição para a inserção no mercado de trabalho, considerando-a uma barreira aos jovens que procuram o primeiro emprego. “Exigem alguns requisitos que, muitas vezes, não temos, como três a cinco anos de experiência. As empresas não querem mais dedicar tempo à capacitação dos próprios profissionais”, disse.O jurista Francisco Cafumbe apontou, também, a insuficiência de oportunidades e a entrada massiva de novos licenciados e técnicos médios no mercado de trabalho, perante a incapacidade de o mercado absorver, anualmente, a procura por emprego. Actualmente, o desemprego, os baixos salários e as condições sociais precárias em África têm levado milhares de jovens africanos, particularmente angolanos, a procurar melhores condições de vida na Europa e nas Américas. Fuga de quadros nacionaisResidente no Brasil, há nove anos, José Capitango Sapalo trabalha na área da Educação, é formado no mesmo sector e frequenta um doutoramento em Gestão de Projectos em Políticas Públicas, uma conquista que considera ter sido difícil de alcançar em Angola. No Brasil, encontrou a vida que sonhava ter em Angola. Abordado pelo Jornal de Angola, José Sapalo afirmou que Angola perde profissionais qualificados por falta de políticas capazes de enquadrar e valorizar os seus quadros. “Desisti da frequência do ensino superior em Angola porque via pessoas com o mesmo grau académico a passar por inúmeras dificuldades financeiras”, disse. Segundo o doutorando, a retenção de talentos exige uma actuação articulada entre o Estado, o sector empresarial e as instituições de ensino. “O Governo cria as condições sociais, as empresas criam oportunidades e as instituições dão formação qualificada. Se os três trabalharem juntos, o talento encontra motivo para ficar”, defende. José Sapalo indicou algumas estratégias que o motivariam a regressar ao país, entre as quais a criação de um plano de carreira, a atribuição de um salário adequado ao nível de formação, a melhoria das condições sociais e de trabalho, a implementação de um programa nacional de repatriamento de quadros, a criação de bónus de regresso e a facilitação da revalidação de diplomas. Outra história vem da Europa, mais propriamente de Portugal, país com uma das maiores comunidades angolanas no estrangeiro. Francisco Mazanza reside naquele país há exactamente dois anos. Licenciado em Educação pelo ISCED-Luanda, trabalha na área da Logística em Portugal. Em entrevista ao Jornal de Angola, Francisco Mazanza contou que a decisão de emigrar surgiu essencialmente da necessidade de procurar crescimento profissional e melhores oportunidades, e não propriamente por razões financeiras. “A falta de valorização da área, bem como a falta de políticas que visem dar mais projecção à carreira docente”, apontou como uma das razões. Francisco Mazanza contou que a saída de profissionais qualificados de Angola constitui motivo de surpresa para outras comunidades estrangeiras em Portugal. “É uma realidade que até outras comunidades estrangeiras já perceberam, pois é muito elevado o número de cidadãos angolanos por aqui com grandes qualificações”, afirmou. Aos jovens que pretendem emigrar, aconselha ponderação, sobretudo quando já possuem estabilidade em Angola. “Se tiverem uma vida estável em Angola, não emigrem. Mas, se procuram crescimento e estabilidade que ainda não encontraram, procurem sair”, aconselhou. O docente Francisco Mazanza defendeu uma visão mais inclusiva da juventude e dos quadros nacionais. “O país faz-se com todos, independentemente da ideologia, religião ou modo de viver”, afirmou. PDN 2023-2027 apresenta medidas destinadas ao empregoO desemprego é um dos maiores desafios da juventude angolana. A situação agrava-se todos os anos com a entrada de novos técnicos médios e licenciados num mercado de trabalho sem capacidade suficiente para os absorver. Os concursos públicos surgem como uma das respostas do Executivo. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes a 2025, revelam que, entre os jovens dos 15 aos 24 anos, a taxa de desemprego atinge 51,8 por cento. O indicador demonstra a necessidade de respostas mais eficazes para garantir oportunidades de emprego a este grupo etário. Perante este cenário, o Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023-2027 estabelece medidas de promoção do emprego, com enfoque no aumento da produtividade, na diversificação da economia, no fortalecimento do empreendedorismo e na melhoria da qualificação dos recursos humanos. O documento prevê um aumento da taxa de empregabilidade juvenil na ordem dos 41 por cento, até 2027, e de 50 por cento até 2050. Prevê, ainda, quotas destinadas à juventude e à elaboração e publicação de um relatório anual sobre a juventude, que vai permitir acompanhar a evolução das políticas públicas e avaliar os resultados alcançados. No âmbito da execução das políticas definidas no PDN 2023-2027, o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTSS) lançou o programa “Jovem Mais”, destinado a facilitar o acesso ao mercado de trabalho. Na primeira fase, prevê a disponibilização de mais de duas mil vagas de estágio profissional para jovens entre os 16 e os 35 anos. O projecto é financiado pelo Banco Mundial, em 250 milhões de dólares. O programa pretende disponibilizar, até 2030, 50 mil estágios profissionais destinados aos sectores formal e informal. O projecto abrange jovens que tenham concluído o ensino médio, superior ou uma formação profissional. Além da oportunidade de adquirir experiência prática, os participantes vão beneficiar de estágios com duração entre três e seis meses, recebendo um incentivo mensal que varia entre 75 mil e 85 mil kwanzas, incluindo seguro contra acidentes de trabalho e acompanhamento técnico por profissionais de cada área. Com estas iniciativas, o Governo pretende criar melhores condições para a integração dos jovens no mercado de trabalho, reduzir os níveis de desemprego e aproveitar o potencial de uma faixa etária que representa uma das principais forças para o desenvolvimento económico e social de Angola. Instituto Angolano da Juventude Em entrevista ao Jornal de Angola, por ocasião do Dia Internacional da Juventude, o director-geral do Instituto Angolano da Juventude (IAJ), Joaquim Caiombo, caracterizou a juventude angolana como resiliente, responsável e trabalhadora, comparando-a coma geração que lutou pela independência. “A juventude angolana é resiliente. Desde a luta pela independência até aos dias actuais, tem contribuído para o desenvolvimento de Angola através das suas ideias”, disse. Segundo o responsável, o instituto está vinculado ao Ministério da Juventude e Desportos e, no desempenho da sua missão de apoiar os jovens, criou o Plano de Desenvolvimento da Juventude 2025-2027, de dimensão multissectorial, envolvendo sectores como a Educação, empregabilidade, habitação e formação profissional. O responsável informou que o instituto está disponível para receber jovens e os seus projectos que visam transformar a realidade social, económica e profissional das comunidades. “Diariamente, recebemos jovens. Todos podem chegar até nós. Esta é a instituição que os representa. Tragam qualquer preocupação que os inquiete. Estamos aqui para servi-los, ajudá-los e guiá-los no que for necessário”, disse. Acerca do nível de desemprego, o responsável defende uma maior aposta na formação profissional, no empreendedorismo e na criação de iniciativas económicas como alternativas à procura massiva de emprego na função pública. Joaquim Caiombo pediu à camada juvenil mais responsabilidade, valorização do local de trabalho e comprometimento com a construção da futura geração. “Portanto, a disciplina, a responsabilidade e a liderança responsável, especialmente dos jovens, são essenciais para uma Angola que esperamos nos próximos 30 anos”, concluiu. Conselho Nacional de Juventude O vice-presidente do Conselho Nacional de Juventude (CNJ), Sebastião Maurício, em entrevista ao Jornal de Angola, por ocasião do Dia Internacional da Juventude, apelou aos jovens que acreditem em si mesmos, aproveitem as oportunidades, acompanhem as políticas públicas e preservem valores como a paz, a convivência e o sentido de Estado. O responsável informou que o conselho congrega 51 organizações de âmbito nacional, 742 organizações parceiras e 21 conselhos provinciais. Sublinhou que a instituição tem acompanhado as aspirações dos jovens, que considera activos, voluntários e cada vez mais empenhados na formação académica e profissional e no desenvolvimento tecnológico, com o intuito de contribuir para o país. Sobre a empregabilidade juvenil, o advogado de profissão reconheceu os esforços do Executivo para resolver a situação através da abertura de concursos públicos em sectores como Educação, Saúde, Polícia Nacional, Agricultura, Administração Pública, Juventude e Desportos. No entanto, Sebastião Maurício apelou a um maior investimento no sector privado, por considerar que o Estado não deve ser o principal empregador. Apontou, também, o empreendedorismo e a agricultura como áreas com potencial para a criação de oportunidades para os jovens. Acerca da saída de jovens angolanos para o estrangeiro, Sebastião Maurício considera que a mobilidade não deve ser vista como um problema. Defende que os jovens podem procurar formação, emprego e novas experiências no exterior, podendo posteriormente regressar ao país com os conhecimentos e competências adquiridos. Enquanto representante juvenil, Sebastião Maurício tem acompanhado projectos e programas que visam à inserção dos jovens no mercado de trabalho e à promoção do empreendedorismo, contribuindo para o aumento do interesse e da participação social, económica e política da juventude. Visão do especialista em educação sobre a juventudeO professor e investigador Isaac Paxe analisa as políticas públicas voltadas para a juventude, a relação entre a educação e o mercado de trabalho, para além do fenómeno da migração de jovens à busca de melhores oportunidades. O académico destacou que compete ao Governo criar condições favoráveis à geração de empregos, e referiu que a formação técnico-profissional é uma das principais portas de entrada no mercado de trabalho. Fez menção aos programas promovidos pelo MAPTSS, por intermédio do INEFOP, que visam oferecer formação prática e preparar os jovens para o exercício de uma profissão. Isaac Paxe destacou que, para muitos jovens, a procura de empregabilidade está voltada apenas para o sucesso financeiro o que considera uma posição distorcida. Argumentou queos jovens não têm procurado o trabalho como forma de realização profissional, razão pela qual existem sectores com falta de pessoal, enquanto outros permanecem sobrecarregados. “Para muitos, ainda prevalece a ideia de que o sucesso profissional está restrito a sectores como a banca, o petróleo ou as minas”, disse. Para o docente universitário, o sector Agrícola constitui um grande campo de empregabilidade para os jovens. Destacou que vários jovens têm mudado a sua realidade sócio-económica através de fundos governamentais e de cooperativas internacionais destinadas à agricultura. Sobre a fuga de quadros, Isaac Paxe explicou que a mobilidade humana é um fenómeno antigo, global e natural, que faz parte da História da humanidade. No entanto, considera fundamental compreender as causas que levam os jovens a abandonar, em massa, o país. “Precisamos entender o que esses jovens não têm aqui que os leva a buscar fora. É preciso criar as condições. O triste é que muitos saem para ficar em condições mais precárias”, frisou. Abordagem psicossocial sobre a juventude angolana A socióloga Ângela Cussoleca abordou os desafios que afectam os jovens após a esperança de conseguir um emprego, alimentada pela conclusão de um ciclo de formação. Porém, a realidade, por vezes, acaba por contrariar essas expectativas. Segundo a socióloga, quando um jovem permanece muito tempo sem trabalhar, aumentam os riscos de exclusão social e pobreza. Para combater este fenómeno, sugere ao Governo a criação de centros de formação profissional com estágios garantidos, a atribuição de incentivos fiscais para pequenas e grandes empresas e o apoio ao empreendedorismo através do acesso ao crédito e à formação. A especialista realçou, também, a necessidade de o Governo manter uma estreita cooperação entre as universidades, os centros de formação e o sector empresarial, de modo a facilitar a inserção dos recém-formados no mercado de trabalho. Laurindo António, psicólogo do Trabalho e pós-graduado em Orientação Vocacional e Comportamental, destacou que a falta de experiência profissional é um dos maiores obstáculos enfrentados pelos recém-licenciados num mercado cada vez mais exigente. “Os licenciados estão a vir com conhecimentos e sem experiência”, disse. O especialista apontou que a escassez de vagas gera forte concorrência e que essa pressão resulta em frustração, ansiedade e sentimento de desesperança entre muitos jovens. “Milhares de candidatos disputam poucas oportunidades. Temos assistido a três ou quatro vagas para 2.000 ou 3.000 candidatos”, sublinhou. Segundo o orientador vocacional, vários jovens apresentam sintomas de depressão associados à frustração provocados pela não concretização do sonho do primeiro emprego. Apesar disso, tem apelado ao auto-emprego como forma de reduzir a frustração que já tem desencorajado alguns jovens de ingressarem no ensino superior. O profissional afirmou que os jovens devem procurar capacitação e desenvolver competências adicionais face à forte concorrência existente no mercado de trabalho, nomeadamente o domínio de línguas estrangeiras, tecnologias e oratória. “Hoje, o mundo é dominado por quem domina a tecnologia, a inteligência artificial, fala inglês e domina a oratória, seja para trabalhar numa empresa, seja para desenvolver o próprio negócio”, disse. Armindo ToneMário Pascoale Marisa Quienda




