Coimbra recebe, entre 10 e 30 de Outubro, a terceira edição da Bienal Afro-Portugal, iniciativa que reúne artes visuais, teatro, música, literatura e pensamento crítico em torno das questões da identidade, colonialismo, decolonialidade, racismo e futuro das comunidades negras.
Sob o manifesto “Afro-Quê?!”, a Bienal Afro-Portugal propõe, nesta terceira edição, uma reflexão sobre as formas como as identidades negras são representadas e definidas, colocando no centro do debate a pergunta: “Afinal, quem fala, de quem se fala, para quem se fala?”
A iniciativa, que terá como principais palcos o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), o Teatro da Cerca de São Bernardo e a Oficina Municipal do Teatro, pretende transformar Coimbra num espaço de encontro entre artistas, investigadores, pensadores e comunidades, através de uma programação que cruza diferentes linguagens artísticas e perspectivas sobre a experiência negra contemporânea.
Segundo a organização, a edição de 2026 procura “desmontar rótulos, interrogar o passado colonial e colocar as pessoas negras no centro da invenção do amanhã”. A proposta surge na continuidade das duas edições anteriores, realizadas em 2022 e 2024, que estiveram centradas, respectivamente, no passado colonial e nos “mundos em movimento”.
Para esta edição, a organização pretende questionar a utilização de categorias consideradas redutoras para descrever as experiências das populações negras, interrogando a própria insuficiência dos “hífenes” que procuram definir realidades contemporâneas entre o colonial, o decolonial, o futurismo e a ancestralidade.
A programação estende-se para além das salas de espectáculo e dos espaços culturais tradicionais. A Bienal estará também presente na Casa da Esquina, Cena Lusófona e Casa da Escrita, além de ocupar espaços da Baixa de Coimbra através de intervenções nas montras de estabelecimentos comerciais, numa parceria com a Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC).
Jovens artistas afrodescendentes em destaque
Entre as novidades da edição de 2026 está a realização, pela primeira vez, de uma residência artística destinada a dois jovens afrodescendentes com menos de 35 anos.
A iniciativa está integrada na exposição “O Nosso Lugar no Agora”, que poderá ser visitada na Casa da Esquina entre 10 e 30 de Outubro. A mostra reúne trabalhos de oito jovens artistas visuais e tem curadoria de Madalena Bindzi e Carlos Tavares Pedro.
A residência e a exposição procuram reforçar a participação de novas gerações de criadores afrodescendentes, criando espaço para diferentes formas de expressão e para a afirmação de perspectivas sobre identidade, pertença e contemporaneidade.
Racismo, decolonialidade e memória colonial
O debate sobre questões sociais e históricas assume igualmente uma posição central na programação. A Bienal prevê debates abertos sobre temas relacionados com o racismo, a decolonialidade e os efeitos humanos associados ao passado imperial, incluindo a escravatura, a guerra e o trabalho forçado.
A organização propõe, deste modo, uma abordagem que procura relacionar memória histórica e desafios contemporâneos, colocando em discussão as consequências de processos históricos que continuam a marcar as sociedades actuais.
O papel das mulheres também terá uma presença destacada através das Jornadas de Feminismos Africanos, que integram a programação dedicada à reflexão sobre género, representação e produção intelectual.
A literatura produzida por mulheres será igualmente abordada numa conversa marcada para 21 de Outubro, no Café-Teatro do TAGV, que contará com a participação das escritoras Dina Salústio, Raquel Lima e Gisela Casimiro.
Música e teatro integram programação
A componente musical terá como um dos momentos de destaque o concerto “Kanta Stória”, de Karyna Gomes, acompanhada à guitarra por Djodje Almeida. O espectáculo está marcado para 16 de Outubro, no Teatro da Cerca de São Bernardo.
Já no dia 22 de Outubro, a Oficina Municipal do Teatro acolhe a performance “A invenção do descanso”, de Carolina Varela, proposta que integra a programação artística da Bienal.
No dia seguinte, 23 de Outubro, será a vez do artista moçambicano Klemente Tsamba apresentar, no TAGV, a peça “Nos Tempos de Gungunhana”, baseada na tradição oral dos contadores de histórias africanas.
A programação contempla ainda uma mostra de vídeos de poesia visual de autores africanos, bem como a exibição de filmes de Sarah Maldoror, Filipa César e Marinho Pina, ampliando o espaço dedicado ao cinema e às linguagens audiovisuais.
Uma iniciativa com várias instituições culturais
A Bienal Afro-Portugal resulta da convergência entre o Teatro Académico de Gil Vicente, A Escola da Noite, Cena Lusófona e Casa da Esquina, contando com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, da Câmara Municipal de Coimbra e da Universidade de Coimbra.
A iniciativa conta ainda com uma rede de parceiros culturais e associativos locais, entre os quais o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) e, pela primeira vez, O Teatrão.
Ao longo de três semanas, a Bienal pretende assim promover o encontro entre diferentes gerações e áreas de criação, articulando artes, pensamento, memória e participação comunitária.
Com o manifesto “Afro-Quê?!”, a edição de 2026 procura colocar em debate as formas de nomear, representar e compreender as experiências negras contemporâneas, numa programação que combina criação artística, reflexão histórica e discussão sobre os desafios sociais do presente.
Os bilhetes para os diferentes eventos, diz a Lusa, têm preços entre quatro e dez euros, estando também previstas iniciativas de entrada gratuita.




