A Companhia de Teatro Girassol, de Moçambique, teve o privilégio de encerrar a programação da XI edição do Circuito Internacional de Teatro (CIT), em Luanda, onde as expectativas estavam voltadas para o palco do Teatro Elinga, na noite de sexta-feira. Para o momento, o grupo apresentou a peça ”(De)pressão Pós-Realidade”, uma obra que convida o público a olhar para os conflitos emocionais e as pressões que marcam a vida urbana contemporânea.
Com direcção artística do encenador Joaquim Matavel, o espectáculo propôs uma reflexão sobre a depressão, os impactos do quotidiano urbano e sentimentos que, muitas vezes, permanecem escondidos no silêncio.
A narrativa acompanha um jovem casal, residente em Maputo, a explorar as pressões emocionais e psicológicas provocadas pelas exigências da vida quotidiana. Por meio das personagens, a peça mergulha no universo da depressão e questiona a ideia de que é preciso demonstrar força e resistência diante das adversidades.
“Quando a realidade pesa, o palco fala” é uma das ideias centrais da produção, que se apresenta como uma obra sensível e de forte dimensão social. Ao escolher um tema cada vez mais presente na sociedade, o espectáculo procura também criar espaço para a reflexão e para o diálogo sobre as fragilidades humanas.
O encerramento com uma companhia moçambicana representou igualmente um momento de afirmação dos laços culturais e artísticos entre Angola e Moçambique, numa edição do CIT marcada pela circulação de diferentes linguagens, histórias e experiências teatrais.
Desafio da interpretação
Para o elenco, levar “(De)pressão Pós-Realidade” ao palco representou também um desafio, sobretudo pela proximidade do tema com experiências vividas no quotidiano.
O actor Paulo Jamine, que interpreta a personagem José, descreveu a complexidade de dar vida a um homem confrontado com as próprias emoções e circunstâncias da vida.
“Faço a interpretação da personagem José, que vive várias peripécias das emoções do mundo. Está na busca de uma identidade própria, mas, no fim, é engolido pelas circunstâncias da vida”, contou Paulo Jamine.
Para o actor, a temática apresentada pela peça mantém uma relação directa com a realidade social.
“Este processo não foge muito das minhas vivências e de outras pessoas. Carregamos tantas emoções que precisamos de um espaço para conversar e descarregar. A depressão é uma realidade e precisamos falar sobre isso”, defendeu.
A actriz Maria Pequenina, que interpreta Rita, também destacou a intensidade do papel e a dimensão social da personagem.
“Foi prazeroso vestir a minha personagem que acaba por contar um pouco do que uma mulher da noite passa para poder construir um lar. De tanta pressão, acabou por tirar a própria vida”, explicou.
Sobre a participação no festival, a actriz valorizou a oportunidade de partilhar o palco com artistas e companhias de diferentes países.



