A arte contemporânea no país vive um momento de maior consciência sobre a sua própria força, identidade e valor, embora continue a enfrentar dificuldades estruturais relacionadas com infra-estruturas, financiamento, documentação, circulação e consolidação do mercado, avaliou, sábado, em Luanda, o curador e galerista, Dominick Maia Tanner.
Em declarações ao Jornal de Angola, o também produtor e coleccionador considera que o principal desafio do sector já não está na qualidade dos artistas nacionais, mas na criação de estruturas capazes de acompanhar a sua crescente ambição.
Com mais de 18 anos de ligação ao país e uma década de actuação mais próxima do circuito artístico nacional, Dominick Maia Tanner sustenta que, entre a primeira edição da exposição colectiva “Luzes de Angola”, realizada em 2025, e a segunda edição, inaugurada na sexta-feira, no Espaço Luanda Arte (ELA), há uma mudança particularmente significativa, com a crescente percepção de que a arte angolana é capaz de construir o seu próprio espaço, sua narrativa e o seu valor.
“Vejo uma cena artística mais consciente de si e da sua própria força”, afirma, defendendo que o momento actual não deve ser interpretado simplesmente como o aparecimento de novos artistas ou linguagens.
Para o curador, o país começa a compreender melhor a continuidade da sua história artística, estabelecendo uma relação entre os pioneiros, os artistas que consolidaram determinadas linguagens e uma nova geração que experimenta, questiona e dialoga com o mundo. É precisamente essa continuidade que, segundo Dominick Maia Tanner, a segunda edição de “Luzes de Angola” procura tornar visível.
A mostra que fica patente até 19 de Outubro do corrente ano, reúne um total de 24 obras de nomes incontornáveis e emergentes da produção artística angolana, entre os quais Neves e Sousa, Raul Indipwo, António Ole, Van, Kapela Paulo, Guizef, Francisco Vidal dos Santos, Pamina Sebastião, Nelo Teixeira, Ricardo Kapuka, Rui Magalhães, Uólofe, Sarhai, Imaculada Tchitanga, Danick Bumba, entre outros.
Para o responsável, colocar diferentes gerações no mesmo espaço não significa estabelecer uma hierarquia entre artistas, mas construir uma espécie de memória colectiva. A ideia é apresentada através da metáfora de uma “constelação”, em que cada criador possui uma luz e uma linguagem próprias, mas, quando reunidos, passam a integrar uma paisagem artística mais ampla.
“Um artista como Neves e Sousa, Raul Indipwo ou António Ole não deve ser visto apenas como pertencente ao passado. A sua obra continua a colocar perguntas ao presente. E um artista emergente não deve ser visto apenas como ‘o futuro’, mas como alguém que já faz parte do presente”, considera o curador.
A exposição, disse, procura, estabelecer um diálogo entre diferentes tempos, linguagens e experiências da arte angolana. Memória, identidade, território, história, transformação e resistência aparecem, na leitura de Dominick Maia Tanner, como alguns dos fios que atravessam as diferentes trajectórias representadas na mostra.
“Estamos perante uma arte que tem uma história, uma memória e uma identidade próprias e que está agora a ganhar maior consciência do seu lugar”, afirmou.
Essa consciência, afirmou o curador, convive com problemas que continuam a limitar o desenvolvimento do sector, com a falta de infra-estruturas, o financiamento limitado, a escassa documentação, as dificuldades de circulação e um mercado ainda em construção.




