O escritor Luís Gaivão recupera e actualiza em “Estórias de Luanda” um conjunto de narrativas sobre a capital angolana, livro originalmente publicado em 2006, mas cujos exemplares foram destruídos num incêndio no armazém da editora.
Nascido em Luanda, em 1948, Gaivão foi adido cultural da Embaixada de Portugal na cidade entre 1996 e 2001, tendo dirigido também o Centro Cultural Português. É dessa experiência, mas sobretudo da relação com a cidade e com os seus habitantes, que parte o novo livro.
“Eu nasci em Angola e é [o olhar] dum adido cultural que nasceu em Angola e que vive e sente como o angolano da rua”, explicou o escritor, que nas histórias acompanha “os miúdos da rua, as vendedeiras, os candongueiros, as feiras, os mercados, os polícias naquela cidade que tem muitos feitiços e metáforas".
A nova edição resulta de uma revisão do texto original, com a eliminação de algumas histórias que o autor considera entretanto desactualizadas e a inclusão de outras recuperadas pela memória. Embora as narrativas se situem nos anos em que viveu em Luanda, Gaivão entende que muitas das situações e formas de pensar que retrata continuam a ser reconhecíveis na Angola de hoje.
Entre os elementos recorrentes está o “esquema”, expressão que, segundo o autor, atravessa o quotidiano angolano e identifica as soluções encontradas para resolver problemas aparentemente sem saída. “O esquema é um símbolo nacional e não há quem lhe escape”, afirmou, lembrando que as histórias decorrem ainda durante os anos da guerra civil.
As narrativas atravessam diferentes estratos da sociedade luandense, de ministros e diplomatas a vendedores, crianças de rua e moradores dos bairros mais pobres. É nesse contraste que o escritor pousa o olhar e procura a magia das gentes e do lugar.
"O angolano é quente, quente da alma, reage, é alegre, está sempre a dançar", reforça o autor, sem mascarar a luta diária pela sobrevivência: "Apesar de toda a tristeza e da tremenda dificuldade que é viver e subsistir naquelas terras, há uma alegria imensa, e é isso que também passa no livro, está lá muito marcado".
A cidade que emerge das “Estórias de Luanda” é também uma cidade de lendas, oralidade e forte ligação à natureza. Gaivão recupera referências à sereia Nzanga, às águas do Kwanza, à Muxima e a elementos da tradição bantu, que considera ainda muito presentes na cultura nacional.
“Essa mistura, essa miscelânea de factores mágicos está presentíssima na cultura africana toda e, portanto, em Angola também”, afirmou.
A linguagem procura reproduzir essa proximidade com a oralidade angolana, incorporando expressões e vocabulário do quotidiano, muitos dos quais são esclarecidos num glossário no final do livro. Entre os termos utilizados estão “broda”, “bué”, “canjonjar”, “capim-alto”, “fajuto”, “farra”, ou “kinguilas”.
“Eu conto isso um bocado, tento contar com essa característica”, disse Gaivão, defendendo a importância da oralidade nas culturas africanas, marcada pela alegria e pelo afecto.
A obra é também uma homenagem à cidade natal do escritor, no ano em que se assinalam os 450 anos da sua fundação por Paulo Dias de Novais. “Este livro é o meu presente de aniversário”, escreve Luís Gaivão, na apresentação da obra.
Como descreve o escritor angolano Manuel Rui, citado na sinopse da obra: “O Rei do Congo ou o Vasco da Gama ficariam chanfunados (malucos) se lessem estas estórias, pois jamais nenhum profeta, amador ou profissional, imaginaria pensar que isto seria assim”.
Licenciado em Filosofia e Humanidades, mestre em Lusofonia e Relações Internacionais e doutorado em Sociologia na área dos Pós-colonialismos e Cidadania Global, Luís Gaivão tem publicado obras de humor, memórias e reflexão, além de livros de desenho e texto realizados em coautoria com o artista plástico Luís Ançã, cujos desenhos são reproduzidos na capa e na contracapa deste livro.
“Estórias de Luanda”, editado pela Colibri, será apresentado no dia 30 de Setembro na Casa de Angola em Lisboa, onde não faltarão quitutes (acepipes), nem a famosa cerveja Cuca. A sessão terá como apresentadora a jornalista Raquel Rio, ex-delegada da Lusa em Luanda.
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