O director artístico do Festival Internacional de Cinema Documental (DocLuanda) lamentou a falta de compromisso de algumas instituições, das quais se esperava o cumprimento rigoroso dos acordos assumidos, mas destacou a relevância do festival, sobretudo pela ligação que estabelece com as novas gerações, ao proporcionar oportunidades de formação e inserção profissional a estudantes e recém-graduados de escolas como o CEARTE.
Jorge António, que falava durante o encerramento da V edição do evento, realizado em Luanda, na terça-feira, contou que habitualmente a actividade é realizada no mês de Abril, porém, neste ano, exigiu uma reorganização interna, por não cumprimento dos Memorandos de Entendimento estabelecidos.
“Consideramos esta postura grave e decidimos que não continuaremos a estabelecer parcerias que não respeitem a seriedade do nosso trabalho. Quem quer estar com o Doc, está, quem não quer, não está”, referiu.
O responsável destacou o festival fundamental para o desenvolvimento da cultura nacional, em especial, para os cineastas, por ser um evento dedicado ao documentário, uma vertente específica da actividade cinematográfica.
Para Jorge António, é preocupante constatar que o Instituto Nacional das Indústrias Culturais (ANIC) não tem prestado o apoio necessário ao cinema tanto ao documentário, à ficção quanto às curtas e longas-metragens.
Apesar deste cenário adverso, destacou que o sucesso de um festival reside, em grande medida, na qualidade da sua programação. “Temos conseguido trazer cineastas de renome mundial, como Bill Woodberry e Jean Marie Teno, homenageando-os ainda em vida através do Troféu Sarah Maldoror”.
A V edição do Doc Luanda encerrou com a estreia mundial do documentário “Nascimento de uma Nação”, do realizador João Viana, que aborda a independência de Angola, e um momento de convívio entre os participantes.
Após a conclusão da última sessão do dia, realizou-se a cerimónia de encerramento, ficando os prémios transferidos para a próxima edição.
O encerramento contou com um concerto no jardim do IGR, protagonizado pelo professor do Grémio das Artes, Alexei Chakietko, que se apresentou ao piano ao lado do tenor Adam Elvis.
Durante o concerto, foram interpretadas algumas obras de Chopin, incluindo peças para piano solo, bem como obras de outros compositores. O programa incluiu um conjunto de peças de compositores italianos, russos e mexicanos, além de música erudita europeia e mundial, com o acompanhamento do tenor Adam Elvis.
Uma edição de desafios
No fim da actividade, o cine- asta Mariano Bartolomeu, que leccionou um seminário subordinado ao tema “Filmar entre a Subjectividade e a Realidade”, considerou a quinta edição diferente das anteriores, que tinham um carácter competitivo e um volume maior de obras.
“Um dos pontos altos deste ano é a homenagem ao renomado cineasta camaronês Jean-Marie Teno. Tive o prazer de reencontrá-lo, tendo em conta a nossa trajectória em festivais internacionais. O cineasta ministrou um workshop sobre a produção de documentários e foi merecidamente agraciado com o Troféu Sara Maldoror, uma distinção destinada a cineastas pioneiros e com obras de relevância no contexto africano. Há três anos, tive a honra de ser o primeiro a receber este mesmo troféu, o que considero um grande privilégio”, contou.
Para o cineasta, o festival Doc Luanda é essencialmente um espaço de intercâmbio de ideias, experiências e sensibilidades, além de constituir um ambiente, onde cineastas consagrados e novos talentos se encontram, permitindo que estes últimos se inspirem e aprendam.
Mariano Bartolomeu considerou que a existência de eventos como o DocLuanda e o FIC Luanda é de extrema importância para o panorama cultural nacional, mas lamentou que a maioria desses festivais esteja centralizada em Luanda.
Embora a tecnologia actual tenha democratizado o acesso às ferramentas de filmagem, como os telemóveis, o cineasta destacou que a criação cinematográfica exige mais do que equipamentos, bem como requer domínio de uma linguagem, técnica, pesquisa e a construção deliberada de um discurs
Segundo Mariano Bartolomeu, o cinema não deve ser feito de forma aleatória, mas a partir de uma intenção, narrativa clara e estruturada.




