O histórico Cine N’gola, uma das salas de espectáculos que marcou a classe cultural e recreativa das décadas 70 e 80, na cidade capital, reabriu, na segunda-feira, ao público, após um longo período de obras de modernização.
Situado no município do Rangel, em Luanda, a cerimónia de reabertura do equipamento cultural foi conduzida pelo ministro da Cultura, Filipe Zau, e testemunhado por várias figuras das artes e membros daquele bairro emblemático da capital do país.
Na sua intervenção, Filipe Zau sublinhou que a recuperação do Cine N’gola não é apenas uma obra de engenharia ou de restauração arquitectónica, mas visou igualmente resgatar a memória colectiva de profissionais da cultura e dar espaço a jovens talentosos.
O ministro da Cultura referiu que o espaço está totalmente renovado e ressurge adaptado às exigências técnicas contemporâneas, além da sala de cinema com tecnologia moderna, também foi projectado como um centro cultural multifuncional.
“A cultura não é estática, e não queremos estar sempre estagnados com as mesmas músicas, com os mesmos artistas, cantores ou filmes. Temos de dinamizar tudo em função da vida que se moderniza, que transforma todos os dias”, observou o governante.
Filipe Zau recordou que, no período colonial, o Cine N’gola foi um dos cinemas de bairro mais populares da cidade, um lugar onde gerações se encontravam, amizades nasceram e onde milhares de pessoas descobriram a magia do cinema.
Para muitos, recordou, o espaço simboliza memórias queridas para muitos moradores, quando vir a este espaço não era apenas assistir a um filme, mas viver uma experiência, partilhar emoções e guardar recordações que o tempo não conseguiu apagar.
“Quem viveu aqueles tempos vai recordar os emblemáticos autocarros de dois andares, que paravam aqui à porta, as animadas matinês e o entusiasmo com que se aguardavam os filmes do faroeste americano e os shows dos conjuntos musicais do subúrbio. Neste grande ecrã, entre risos, emoções e aventuras, muitos aprenderam a sonhar e descobriram a magia da sétima arte”, recordou.
Inaugurado originalmente em 1960, em pleno impulso do crescimento urbano de Luanda, o Cine N’gola consolidou-se, durante décadas, como um ponto de encontro obrigatório para os amantes da sétima arte e um palco da resistência cultural. Com o passar dos anos e o desgaste do tempo, o espaço acabou por perder o dinamismo, tornando a sua recuperação uma reivindicação antiga dos moradores e fazedores da cultura.
Por sua vez, o director da Agência Nacional da Indústrias Culturais e Criativas, Asdrúbal Rebelo, partilhou ser “filho do Bairro Popular” e que ir a locais como Cine São João e Cine N’gola era uma experiência particular. O realizador explicou que o regresso deste aparelho cultural é um acto importante que cobre uma tristeza muito grande que foi ver o espaço votado ao esquecimento, longe da sua função cultural.
Já João Vigário, que assume a direcção do espaço, avançou que está em curso uma vasta programação cultural, que vai ficar ao dispor da comunidade, através do exercício das váras disciplinas artísticas. Sem precisar o tempo que o cine esteve inoperante, João Vigário reconheceu que foram largos anos, quase três décadas.
“A sala não vai exibir apenas filmes. Hoje, a dinâmica das Indústrias Culturais já não permite que se fique apenas por uma disciplina. Este espaço vai ser multifacética, para acolher teatro, dança, música, cinema e artes plásticas”, garantiu.
Katiana Silva




