O nacionalista e escritor angolano Agostinho Mendes de Carvalho, conhecido nas lides literárias como Uanhenga Xitu, foi, ontem, “eternizado” pelo académico João Mwanza, como uma das figuras mais importantes da História Cultural, Política e Literária de Angola.
De acordo com o também escritor João Mwanza, a vida de Uanhenga Xitu representa a união entre a luta pela liberdade, compromisso com o povo, defesa da identidade nacional e a valorização da cultura africana.
Para o autor, a literatura de Uanhenga Xitu é uma das mais importantes defesas da oralidade africana, pelo facto de nas obras se encontrarem provérbios, expressões populares, formas de pensamento comunitário e a presença dos mais velhos como guardiões da sabedoria.
O académico encara Uanhenga Xitu como uma figura que demonstrou que a cultura de um povo não está apenas nos grandes acontecimentos históricos, mas também nas pequenas histórias que passam de geração em geração.
“Foi um homem que transformou memórias em literatura, experiências em conhecimento e palavras em Património Nacional”, considerou.
Nascido a 29 de Agosto de 1924, em Calomboloca, na região do Icolo e Bengo, numa família ligada aos valores, segundo João Mwanza, é no seio familiar onde deselvolveu os primeiros costumes africanos, através dos conhecimentos orais transmitidos pelos mais velhos do seu clã, factores que vieram, posteriormente, desempenhara um papel fundamental na sua formação humana.
João Mwanza sublinhou que Agostinho Mendes de Carvalho desenvolveu, desde a juventude, interesse pelo conhecimento e pela realidade social do seu povo. A convivência com as comunidades angolanas permitiu-lhe compreender as dificuldades vividas durante o período colonial e despertou nele uma consciência nacionalista profundamente ligada à justiça e à dignidade humana.
De acordo com o escritor, a formação profissional de Uanhenga Xitu esteve sempre ligada à área da Saúde, tendo exercido a função de enfermeiro, experiência que o aproximou, de forma directa, das populações, sobretudo das comunidades rurais, permitindo-lhe conhecer as suas preocupações, valores culturais e formas próprias de interpretação da vida.
Uma escrita virada para o olhar do seu povo
A escrita de Uanhenga Xitu, entende o autor, surgiu da realidade social, tradições e histórias transmitidas oralmente e da vida quotidiana das comunidades, diferentemente de uma literatura distante do povo, tendo optado por uma escrita sobre pessoas reais, com suas virtudes, dificuldades, contradições e esperanças.
Entre as suas principais obras destacou o “Mestre Tamoda”, “Manana”, “Bola com Feitiço”, “Mestre Tamoda e Outros Contos”, “Vozes na Sanzala (Kahitu)”, “Maka na Sanzala”, “Mungo”, “Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem” e “O Ministro”.
Segundo João Mwanza, a obra “Mestre Tamoda” tornou-se uma das mais conhecidas da literatura angolana, sendo que através desta personagem, o escritor analisa, com ironia e profundidade, os efeitos culturais do colonialismo, a relação entre a língua portuguesa e as línguas nacionais africanas, bem como as transformações sociais vividas por Angola.
O escritor considera que o grande mérito de Uanhenga Xitu foi transformar situações simples do quotidiano em grandes reflexões sobre a sociedade.
João Mwanza reconhece a elevada consciência política de Uanhenga Xitu, situação que o levou a participar activamente na luta de libertação nacional. Como muitos nacionalistas angolanos da sua geração, enfrentou perseguições e prisões.




