Os escritores Alberto Satírico e Flávio dos Santos defendem uma profunda transformação do sector Literário angolano, nomeadamente a renovação das temáticas e a aposta nas plataformas digitais.
Em declarações ao Jornal de Angola, o escritor Flávio dos Santos entende que a principal diferença reside no foco mental. Enquanto a velha geração escrevia para construir a Nação e combater o sistema, a nova geração escreve para compreender o indivíduo. Na sua perspectiva, os novos escritores libertaram-se do peso da política e têm a coragem de olhar para o interior, centrando-se na psicologia do “eu” e não apenas no colectivo.
Relativamente aos temas e preocupações que mais marcam a literatura angolana contemporânea, o literato considera que os escritores abordam aquilo que hoje causa dor, e, ao mesmo tempo, promove libertação.
Entre os principais eixos, destacam-se o desencanto urbano, retratando a realidade crua das ruas de Luanda; a saúde mental e a identidade, explorando o trauma transgeracional, a ansiedade e a procura por um propósito; bem como a audácia de ser diferente, rompendo os tabus sociais, preconceitos e a pressão da conformidade para afirmar a própria singularidade.
Para o homem das letras, o talento não falta, mas a estrutura continua a ser insuficiente, respondia quando questionado sobre os desafios que os escritores enfrentam actualmente. Entre os principais obstáculos, apontou os elevados custos de produção e impressão de livros em Angola, a escassez de livrarias e as dificuldades de distribuição além das grandes cidades. Destacou as barreiras geográficas, considerando que fazer um livro físico sair de Luanda para países como Portugal, Brasil ou Reino Unido continua a ser um grande desafio logístico. Na sua opinião, o livro ainda é encarado como um luxo, quando deveria ser um hábito.
Aposta nos e-books e audiolivros
Flávio dos Santos defende a necessidade de apostar no digital, através da produção de e-books e audiolivros, como forma de ultrapassar os constrangimentos da distribuição física. Salienta igualmente a importância de investir na tradução das obras para inglês e francês, de modo a ampliar o alcance da literatura angolana além do espaço lusófono. Por fim, considera essencial adoptar uma visão mais profissional do sector, criando agentes literários capazes de promover as obras angolanas no mercado internacional e de adaptá-las para outros formatos, como o cinema e as plataformas de streaming.
O escritor Alberto Satírico considera que a actual geração de escritores angolanos está no caminho certo e revela-se mais batalhadora do que a anterior, apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas. Segundo o autor, a escassez de leitores, a falta de incentivos e o reduzido apoio institucional continuam a limitar o crescimento da literatura no país. Na sua perspectiva, a diminuição do interesse pelos livros, impulsionada pelas novas tecnologias, contrasta com a realidade vivida pelas gerações anteriores, que beneficiavam de maior promoção e de um público leitor mais expressivo. O literato observou que a literatura contemporânea tem registado um aumento de obras de auto-ajuda e desenvolvimento pessoal, acompanhando as preferências dos leitores, mas alerta para a desvalorização da literatura de ficção e para as rivalidades existentes entre escritores mais antigos e os mais jovens, situação que, no seu entender, prejudica o desenvolvimento do sector.
O entrevistado considera que as redes sociais têm aproximado escritores e leitores, facilitando a divulgação das obras e incentivando o surgimento de novos talentos, embora também possam contribuir para a disseminação de conteúdos de baixa qualidade. O autor defende que os maiores desafios da literatura angolana continuam a ser a falta de investimento, a reduzida qualidade editorial e a insuficiente implementação de Políticas Públicas de promoção da leitura. Para o escritor, a valorização da literatura depende de um compromisso efectivo do Estado, através da execução de medidas previstas na legislação, bem como de um maior investimento na formação de leitores e no fortalecimento do sector Editorial.



