“O TEMPO HABITADO – Reflexões”, da autoria de João Baptista Kussumua, é uma obra constituída por 41 crónicas. Mais do que uma simples colectânea de crónicas, a obra propõe uma reflexão sobre a sociedade angolana, as suas transformações e, sobretudo, o legado que está a ser construído e que será deixado às gerações futuras.
Ao longo das suas páginas, são abordadas diferentes dimensões da realidade angolana, partindo de situações concretas, acontecimentos do quotidiano e experiências próximas, que servem de ponto de partida para interrogações mais amplas sobre a organização da sociedade, a cultura, a ética, a educação, a história, as relações humanas e o futuro.
As reflexões que integram a obra podem ser compreendidas a partir de quatro grandes eixos temáticos: o primeiro incide sobre o território, as instituições e a organização da sociedade, domínios em que se procura compreender a forma como as comunidades se estruturam e como o território condiciona e influencia as relações sociais, económicas e culturais das comunidades. A crónica “O território e o poder: a evolução político-administrativa de Angola (1902–2024)” encaminha-nos para uma perspectiva histórica da organização territorial do país; na mesma linha, em “A arte prática de administrar o município”, o olhar aproxima-se da realidade da vida local, das dinâmicas comunitárias e das relações entre as populações e os espaços que habitam. Questões relacionadas com a responsabilidade, os direitos, os deveres, o respeito e a convivência social são igualmente exploradas em textos como “Propriedade e incerteza” e “O respeito devido ao militar e à farda”.
Mais do que discutir estruturas abstractas, este primeiro eixo permite-nos compreender que os espaços onde vivemos e as instituições de que fazemos parte afectam directamente a qualidade da vida colectiva, a organização social e as possibilidades de desenvolvimento.
O segundo eixo concentra-se no tecido social e na antropologia do quotidiano. É, talvez, nesta dimensão que se sobressai a inquietação do autor com as pessoas e com as situações concretas que marcam as suas experiências e vivências. Percebe-se essa inquietação em “A multidimensionalidade da mãe solteira urbana e rural” que evidencia realidades sociais que, não raro, estão à margem das discussões públicas, não obstante a sua relevância para a compreensão da sociedade; a essa preocupação com a maternidade monoparental, junta-se outra, não menos importante — a infância — sobre a qual se levanta uma interrogação essencial: que sociedade estamos a construir quando muitas crianças ainda enfrentam dificuldades no acesso às oportunidades necessárias a uma vida digna e plena?
Também a velhice, a cidade, a família e as relações entre gerações encontram espaço nestas reflexões. Embora abordadas a partir de perspectivas distintas, todos estes temas convergem para uma mesma e única preocupação: compreender a sociedade a partir das pessoas que a constituem e das condições concretas de vida que o crescimento lhes proporciona.
Esta dimensão social confere à obra particular relevância, pois realça a ideia de que qualquer reflexão sobre desenvolvimento começa, em primeira instância, pela compreensão da vida humana nas suas múltiplas dimensões, no encontro entre desenvolvimento e dignidade humana, buscando o sentido mais profundo do progresso de uma sociedade.
O terceiro eixo incide sobre a ética, a consciência colectiva e os desafios psicossociais do nosso tempo. Aqui, o autor interroga-se sobre comportamentos, valores e atitudes que condicionam a convivência social e influenciam a qualidade das relações entre os indivíduos e as comunidades. Em “O veneno social do ciúme, da inveja e do ódio” e “As correntes invisíveis que paralisam África”, sobressaem comportamentos e disposições que, quando transformados em padrões de relacionamento, podem comprometer a confiança, a solidariedade e a coesão social. São obstáculos de natureza cultural, social e comportamental que, por fragilizarem os vínculos entre as pessoas, acabam também por limitar o desenvolvimento das comunidades.
A transformação tecnológica e a expansão do ambiente digital constituem igualmente motivo de preo-cupação e o autor chama a atenção para o facto de que o desafio não se centra, apenas, em saber utilizar a tecnologia, mas na necessidade de uma relação consciente, responsável e equilibrada com as novas formas de comunicação e com os instrumentos tecnológicos que passaram a integrar o nosso quotidiano.
Em “Habitar o saber: o sentido vivo de uma cidade universitária”, o destaque vai, particularmente para o conhecimento, a universidade e o papel que os espaços académicos devem desempenhar no âmbito da sua responsabilidade e missão para o desenvolvimento da sociedade. A questão do conhecimento constitui, aliás, um dos aspectos mais relevantes da obra: a compreensão de que o progresso de uma sociedade não depende apenas das suas estruturas materiais, mas também da qualidade da sua educação, da solidez dos seus valores, da natureza das suas relações humanas e da sua capacidade de produzir, partilhar e aplicar conhecimento, não apenas reproduzi-lo.
Por fim, o quarto eixo articula a memória histórica com uma dimensão marcadamente prospectiva. Está bem expressa na obra que não é possível conceber o futuro sem compreender o passado e sem reconhecer o papel da memória na construção da identidade colectiva. A história não surge apenas como registo daquilo que aconteceu, mas como fonte de aprendizagem, de identidade e de reflexão sobre o percurso colectivo. Nesta perspectiva, recordar é compreender; compreender significa aprender; e aprender constitui uma das condições fundamentais para construir um futuro mais consciente e responsável.
É justamente nesta relação entre memória, presente e futuro que se centra a ideia central de O TEMPO HABITADO. Na crónica “ANGOLA 2075: Conhecimento para um século de progresso”, o autor escreve: A geração que viverá o centenário da independência, em 2075, terá entre 60 e 80 anos. Será ela a julgar com serenidade e justiça o legado dos que conduziram os dois primeiros cinquenta anos de vida do país. Esta afirmação, entendemo-la como um verdadeiro apelo à reflexão. 2075 não surge apenas como uma data distante; apresenta-se, antes, como uma oportunidade para pensar o presente à luz das responsabilidades que hoje temos perante as gerações futuras. Desta óptica, emergem perguntas simples, mas profundamente exigentes: que sociedade encontrarão as gerações em 2075? Que oportunidades teremos criado? Que património cultural e humano teremos conseguido preservar? Que problemas teremos sido capazes de superar? E que ensinamentos deixaremos às gerações vindouras? É nesta perspectiva que a crónica “Entre Ter e Transformar” adquire particular significado. O desenvolvimento não se mede apenas pelo que uma sociedade possui, mas, sobretudo, pela sua capacidade de transformar recursos em oportunidades, conhecimento em soluções e potencial humano em melhoria efectiva das condições de vida das populações.
Por isso, O TEMPO HABITADO não deve ser lido apenas como um conjunto de crónicas sobre Angola, mas, acima de tudo, um convite, mais do isso, um apelo à consciência — à nossa consciência: consciência do presente; consciência da nossa história; consciência das responsabilidades que temos uns para com os outros; e consciência daquilo que temos o dever de deixar às gerações futuras.
O mérito desta obra reside, igualmente, na capacidade de aproximar o pensamento dos problemas concretos. Por detrás da diversidade dos temas abordados, existe uma preocupação transversal: contribuir para uma sociedade mais consciente, mais responsável, mais solidária e mais preparada para enfrentar os desafios do futuro.
Essa é a razão por que esta obra interessa a todos: a académicos e a investigadores, mas também a estudantes, profissionais de diferentes áreas, jovens e, de um modo particular, a todos aqueles que procuram compreender a sociedade em que vivem e participam na sua transformação. Porque compreender a sociedade é condição indispensável para tomar decisões responsáveis, formular políticas ajustadas às necessidades das pessoas e construir, no presente, as bases de um futuro justo, consciente e sustentável.
O TEMPO HABITADO coloca-nos perante uma responsabilidade simultaneamente individual e colectiva: não somos apenas habitantes do nosso tempo; somos, devemos ser, partícipes activos na construção do tempo que deixaremos como legado aos outros.
Em suma, o sentido mais profundo de ‘habitar o tempo’ reside na capacidade de vivermos conscientemente o presente, compreender criticamente o passado e assumir a responsabilidade de preparar o futuro. ‘Habitar o tempo’ é reconhecer que cada decisão, cada escolha, cada comportamento e cada relação humana, por mais individual que pareça, contribui para a construção da sociedade e para a definição do legado que deixaremos às gerações vindouras.
Que este livro possa, portanto, cumprir uma das mais nobres funções da reflexão: estimular consciências, aprofundar o pensamento e contribuir para uma sociedade capaz de transformar a sua memória em conhecimento, o conhecimento em capacidade e a capacidade em melhores oportunidades para as futuras gerações.
Formulo votos para que todos nós, enquanto cidadãos angolanos conscientes, aceitemos com convicção e responsabilidade o desafio que ‘O TEMPO HABITADO’ nos coloca e que consiste em olhar para Angola com atenção, para o que estamos a construir no presente, tendo o futuro no horizonte, mas sem esquecer o passado. Reconhecer que uma sociedade se constrói diariamente, através das suas pessoas, das suas relações, da educação, da cultura, do conhecimento, dos valores que escolhe preservar, renovar e transmitir.
Que esta obra contribua, efectivamente, para esse exercício de reflexão — um exercício que é, também, um exercício de cidadania.
Felicito o autor por estes valiosos contributos à nossa razão e ao nosso espírito nacional. Faço votos de que, em breve, possa reunir num novo livro outras das pertinentes reflexões que tem vindo a publicar (e que acompanho com particular interesse), dando continuidade a este importante exercício de reflexão, diálogo e partilha de conhecimento.
Reitero, por fim, os votos de que todos nós saibamos habitar o nosso tempo com consciência, conhecimento e responsabilidade.
Maria Helena R. P. Santos Miguel



