Especialistas nacionais destacam ganhos significativos na elevação do semba

Pesquisadores e artistas destacaram a candidatura da elevação do semba a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, como um ganho significativo e valorização da cultura nacional, por reconhecer o seu papel central na identidade de um povo e por projectar internacionalmente uma expressão artística que sintetiza história, memória e resistência cultural.
Lançada oficialmente no dia 21 de Junho, a iniciativa promovida pelo Ministério da Cultura visa incentivar a expressão musical e a dança tradicional como pilares fundamentais da identidade nacional.Em declarações, ontem, ao Jornal de Angola, o presidente da Comissão Directiva da União Nacional dos Artistas e Compositores - Sociedade de Autores (UNAC-SA), Zeca Moreno, no âmbito da candidatura a Património Imaterial, ressaltou que um dos grandes desafios é a divulgação do semba, para que as gerações vindouras o conheçam. O presidente da UNAC-SA destacou a importância de levar o semba à academia, de modo que seja pautado e estudado, à semelhança de outros estilos musicais. Quanto ao papel dos artistas, investigadores e instituições culturais na salvaguarda do semba, o presidente da UNAC afirmou que essa responsabilidade deve ser colectiva e abrangente, não apenas dos investigadores ou dos fazedores de música. “Antes de tudo, temos de valorizar a nossa própria identidade, antes de valorizarmos o que vem de fora. É fundamental que o semba seja devidamente pautado, estudado e analisado, para que possa ser melhor compreendido e interpretado”, defendeu. Zeca Moreno lamentou que os meios de difusão massiva não dão a devida projecção às produções nacionais, considerando urgente a inversão desse quadro. Abrangência nacionalO músico Dom Caetano explicou que as razões que sustentam o reconhecimento do semba como Património Mundial da UNESCO resultam de análises e pesquisas aprofundadas. Segundo o artista, concluiu-se que, entre todos os ritmos e géneros da música angolana, o semba foi o mais evidente ao longo da história, desde a sua formação até à sua evolução no cenário nacional. “Muitos outros ritmos não conseguiram se impor noutras comunidades do país”, afirmou. O semba, que tem origem na comunidade kimbundu, destacou Dom Caetano, conseguiu ser interpretado por músicos, intérpretes e compositores de várias regiões de Angola no Sul, Leste, Centro-Sul e Norte do país, pelo facto de não existir outro ritmo com o mesmo nível de evidência histórica e abrangência nacional, o semba acabou por ser escolhido como o género mais promissor para ser apresentado à UNESCO como candidatura a património. Naturalmente, reforçou o artista, no futuro poderá haver espaço para a candidatura de outros ritmos, em diferentes ocasiões. Contudo, neste momento, no domínio da Música, o semba afirma-se como o ritmo de maior evidência para garantir o reconhecimento como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Quanto aos benefícios culturais, o músico destacou o reforço da identidade angolana a nível mundial. “O semba já começa a ser dançado, tocado e cantado em vários países, e essa classificação vai permitir uma maior divulgação, expansão e valorização da cultura angolana”, sublinhou. No plano económico, Dom Caetano referiu que poderão surgir vários espaços e iniciativas em torno do semba, promovendo a sua divulgação e apresentação em diferentes palcos tanto a nível nacional quanto internacional, o que poderá gerar resultados económicos positivos. “Do ponto de vista social, a cultura, tal como o desporto, promove a socialização e a congregação de pessoas. Basta observar grandes eventos, como o Mundial de Futebol, que conseguem unir povos mesmo em contextos de grandes diferenças políticas e sociais. É esse mesmo espírito de união que a música também proporciona. Muitas vezes, um acto cultural reúne mais pessoas do que um comício político, promovendo interacção, troca de conhecimentos e fortalecimento dos laços sociais”, disse. Relativamente aos desafios da valorização e preservação da cultura, o músico referiu que estes se centram, sobretudo, na capacitação e valorização dos fazedores de arte. “Se quisermos desenvolver e fortalecer o nosso mercado cultural, é fundamental potenciar produtores, realizadores, intérpretes e compositores. Sem o fortalecimento dessa classe, os desafios tornar-se-ão mais difíceis de superar no futuro”, alertou. Importância na memória colectivaPor outro lado, para o membro da Banda Movimento, Chico Madne, a classificação do semba como Património Cultural Imaterial representa um grande benefício para o país, pois vai permitir que o mundo conheça melhor a cultura angolana, além dos estilos já difundidos internacionalmente. “Almejamos também que outras tendências musicais nacionais, no futuro, tenham o mesmo destino”, afirmou. Sobre a importância do semba na construção da memória colectiva e na transmissão de valores entre gerações, Chico Madne destacou que o semba funciona como uma verdadeira escola. Em relação à influência da globalização na sua evolução, o artista acredita que esta deve ser encarada como uma oportunidade e não como uma ameaça, uma vez que a tecnologia aproxima diferentes culturas. “O que falta é a transmissão dos nossos valores culturais aos jovens, para que, quando um dia deixarmos este mundo, possam dar continuidade ao semba e à nossa cultura, de geração em geração, porque, hoje, com a globalização, a juventude tende a ouvir outros ritmos que não têm nada a ver connosco”, concluiu.


