Pouco antes das 19h00, o ambiente nos bastidores do Elinga Teatro era de concentração. Entre os últimos preparativos, a revisão do figurino, a afinação dos detalhes da cena e a expectativa pelo encontro com o público, os quatro actores da Associação Teatro do Avesso, de Portugal, preparavam-se para um momento que ultrapassava a simples apresentação de mais um espectáculo.
Pela primeira vez em Luanda e num festival de dimensão internacional realizado em território angolano, João Paulo Gouveia, João Pedro Ramos, Carolina Abreu e Hélder Agrela carregavam consigo a responsabilidade e a emoção de apresentar “Happy Hour” a um público com referências culturais, sensibilidades e formas de olhar para o teatro diferentes das que estão habituados.
A ansiedade dos minutos que antecederam a entrada em cena, na sexta-feira, foi sendo transformada em concentração. Para os actores, a passagem pelo XI Circuito Internacional de Teatro (CIT) representa, além da oportunidade de mostrar o trabalho desenvolvido em Portugal, a possibilidade de iniciar uma experiência que pode abrir caminhos para outras apresentações e encontros com públicos de diferentes geografias.
Quando as luzes se acenderam, o nervosismo dos bastidores deu lugar à energia do palco. Sob direcção de Luís Mello, “Happy Hour” levou ao Elinga Teatro uma comédia construída a partir de situações do quotidiano, do absurdo, do desejo de diversão e das contradições das relações humanas.
A dinâmica dos quatro intérpretes rapidamente aproximou o espectáculo da plateia, que respondeu com risos, aplausos e atenção aos momentos em que o humor dava lugar à reflexão. Mais do que assistir passivamente à história, o público luandense foi acompanhando as personagens com um olhar simultaneamente divertido e crítico, reconhecendo, nas situações apresentadas, comportamentos e contradições presentes nas relações sociais.
A reacção da plateia tornou-se, assim, parte importante da experiência dos actores. Cada gargalhada, silêncio ou aplauso funcionou como uma espécie de resposta imediata ao trabalho desenvolvido em cena, num encontro que só o teatro, pela sua natureza presencial, consegue proporcionar.
Para a Associação Teatro do Avesso, a apresentação, em Luanda, ganha maior significado por ocorrer no contexto de um festival que procura aproximar criadores, companhias e diferentes linguagens das artes cénicas.
Para os actores, o contacto com o público angolano constitui uma experiência de aprendizagem, bem como uma oportunidade para testar a capacidade de comunicação do espectáculo fora do seu contexto habitual. Ao deixar o palco, depois de cerca de uma hora de representação, a tensão dos bastidores deu lugar ao alívio e à emoção. O espectáculo já não pertencia apenas aos actores e passou também a fazer parte da memória do público que o recebeu.
De acordo com o director do festival, Adérito Rodrigues “BI”, em declarações ao Jornal de Angola, a presença do espectáculo “Happy Hour” no CIT reforça, deste modo, a dimensão internacional do festival e confirma o teatro como espaço de circulação de ideias, experiências e sensibilidades.
Segundo o director do CIT, a passagem dos artistas portugueses por Luanda pode ser apenas o primeiro capítulo de outras experiências internacionais, enquanto, para o festival, representa a oportunidade de conhecer outras formas de criação e interpretação teatral.



