Quanto ao futuro da Sétima Arte, Ngouabi Silva, realizador de cinema e autor do filme “Pequenos Sonhos”, independentemente de a arte atrair, hoje, menos o público angolano, os fazedores vão continuar a fazer filmes, porque, como disse, o “cinema é vida”
Segundo a UNESCO, as indústrias cinematográfica e audiovisual africanas contribuem com 5 mil milhões de dólares para o Produto Interno Bruto (PIB) do continente e empregam cerca de 5 milhões de pessoas, mas, com maior financiamento e infra-estruturas adequadas, estima-se que o sector possa crescer, gerar 20 mil milhões de dólares em PIB e criar mais de 20 milhões de empregos. Essa avaliação consta do The African Film Industry: Trends, Challenges and Opportunities for Growth (A Indústria Cinematográfica Africana: Tendências, Desafios e Oportunidades de Crescimento), divulgado em 2022 pela agência especializada da ONU, e que traça um quadro de desafios, subaproveitamento, perspectivas de crescimento e desenvolvimento.
Por exemplo, diz o estudo que “muitos aspectos das indústrias cinematográfica e audiovisual em África permanecem informais, sendo que apenas 44 por cento dos países possuem uma comissão de cinema estabelecida e 55 por cento uma política cinematográfica. Estima-se que a pirataria represente 50 por cento a mais de 75 por cento das receitas destas indústrias. Outros desafios incluem a educação e formação, a conectividade à Internet, a igualdade de género, a liberdade de expressão e a preservação de arquivos”.
O Jornal de Angola faz uma incursão em torno do que o cinema africano, nos últimos 50 a 60 anos tem produzido e contribuído em termos de valores para o PIB, desafios que atravessa e perspectivas, sem esquecer a experiência angolana, aqui descrita pelos fazedores que se disponibilizaram a falar sobre o estado da Sétima Arte em Angola.
Indústria nigeriana
Segundo o jornal nigeriano The Guardian, o cineasta e produtor Rogba Arimoro afirmou que a indústria cinematográfica e televisiva da Nigéria contribui com mais de 660 milhões de dólares, anualmente, para a economia do país e sustenta mais de um milhão de empregos. Diz-se que a aquisição planeada da MultiChoice pela gigante francesa dos media Canal+ sinaliza uma grande mudança no panorama televisivo do país. Diz-se que a aquisição poderá remodelar a produção, o streaming e a propriedade de conteúdos na Nigéria, onde a MultiChoice desempenha um papel central há muito tempo através de plataformas como a Africa Magic e o serviço de streaming Showmax.
Nollywood, como é comumente chamada a indústria cinematográfica daquele país, produz mais de 2.500 filmes anualmente e só perde para Hollywood como a maior produtora de filmes do mundo.
Burkina Faso
A cidade de Ougadougou tem sido chamada de a “capital do cinema africano” pelo facto de albergar, desde 1969, o chamado Festival Panafricano de Cinema e de Televisão de Ougadougou (FESPACO), uma espécie de passerelle africana com a dimensão de Cannes e outros festivais da tela prateada, que decorrem um pouco por todo o mundo.
O Governo burquinabe injecta capital no sector, lançando, por exemplo, o Fundo Faso Films de 1 bilião de francos CFA (1,75 milhão de dólares) por meio da Agência de Cinema e Audiovisual do Burkina Faso (ABCA) para estimular a infra-estrutura local, a pós-produção e o crescimento comercial.
África do Sul
Segundo o site do Governo, a indústria cinematográfica sul-africana contribui com 3,5 biliões de rands, anualmente, para o Produto Interno Bruto (PIB) do país, anunciou o Ministro da Cultura, Paul Mashatile, na sexta-feira.
Diz-se que está em processo de transformação a Fundação Nacional de Cinema e Vídeo (NFVF) numa Comissão Nacional de Cinema e de criação de um Fundo Nacional de Cinema.
Ghana
O Governo do Ghana estabeleceu uma meta de médio prazo para aumentar a contribuição da indústria cinematográfica do Gana para o Produto Interno Bruto (PIB) em até um por cento do PIB.
Ghallywood, a Hollywood do Ghana, pretende expandir-se nos moldes em que a vizinha Nollywood o fez para ganhar o seu espaço a nível regional e mundial.
Quénia
A indústria cinematográfica do Quénia contribui, directamente, com aproximadamente 20 biliões de xelins quenianos (entre 150 milhões e 340 milhões de dólares) para o PIB nacional, anualmente. No entanto, considerando a economia criativa como um todo — que inclui cinema, televisão, música, moda e jogos — dados do Kenya National Bureau of Statistics (Escritório Nacional de Estatísticas do Quénia) indicam uma contribuição de cerca de 5 por cento do PIB total.
Experiência angolana na voz dos fazedores
Para Francisco Keth, jornalista e realizador de cinema, o ideal seria Angola apostar a cem por cento em documentários, porque, fundamentou, “é o género mãe do cinema, reflectem a vida real de Angola e testemunham tudo – relativamente à nossa história – e não podemos deixar que sejam os estrangeiros a contarem a nossa história, como tem vindo a acontecer”.
Na opinião do ex-secretário-geral da APROCIMA, “o Executivo deve incentivar, por meio de financiamentos, a produção de documentários políticos, desportivos, militares, económicos, religiosos, ambientais, etc., etc., para que sejamos nós a contar a nossa história, ao invés de se recorrer aos arquivos da RTP ou de outras cadeias de TV estrangeiras”.
Quando questionado sobre os investimentos no sector e o contributo do cinema angolano para a economia nacional, o documentarista afirmou que “economicamente falando, é difícil quantificar o que tem sido investido financeiramente, porque não existe uma verba do Executivo direccionada para o Cinema. Não existe! Existem financiamentos esporádicos por parte de instituições privadas e por parte de empresas públicas que dão por amiguismo, assim como instituições estrangeiras que financiam mais por simpatia”.
Estado actual
Francisco Keth descreveu o actual estado do cinema angolano como feito com base nas dinâmicas sociais, culturais, políticas, económicas, artísticas, religiosas, linguísticas e desportivas que incidem, directamente, na vida das populações em todo o país, e, em particular, nas interacções com o outro (estrangeiros).
O cinema angolano, disse o realizador, é feito em função dos meios mais modernos que existem no mundo, uma vez que os angolanos já possuem capacidade financeira para aquisição de tais meios (equipamentos), porém, nem sempre dominam da melhor maneira esses meios.
Para o realizador, há possibilidade de aquisição de equipamentos de primeira geração, mas nem sempre os técnicos têm capacidade para retirar o melhor proveito desses meios contando excelentes histórias e dominando a técnica exigente.
O cineasta não deixou de frisar que faltam mais especialistas, bons especialistas, para que se retire melhor proveito dos equipamentos e para que sejam contadas excelentes histórias, sem esperarmos que sejam os estrangeiros a dominarem o mercado do audiovisual.
Para “revolucionar” o cinema angolano, Francisco Keth defende que a arte de produzir filmes, distribuir e exibir, deve ser precedida de financiamento enquanto uma Arte-Sistema (Processo), por congregar todas as demais expressões artísticas e assim gerar centenas de empregos e milhares de rendimentos tendo em conta os produtos secundários, tendo dado como exemplo o que sucede com as principais indústrias (Hollywood, nos Estados Unidos, Bollywood, na Índia e, na Nigéria, a Nollywood), em que os milhões arrecadados não se limitam às vendas de bilhetes para as salas de cinema, incluem também outros produtos, embora as vendas de bilhetes constituam o rendimento primário.
Testemunho do realizador do filme “Pequenos Sonhos”
Ngouabi Silva, realizador de cinema e autor do filme “Pequenos Sonhos”, lançado em Janeiro, e, actualmente, em exibição na Vodafone Portugal, considera que faltam políticas públicas dirigidas ao cinema e uma aposta estratégica, comercialmente viável, de outros actores para que o cinema angolano ganhe maior visibilidade dentro e fora do país.
Independentemente dos desafios, o realizador reconheceu que tem havido produção cinematográfica assinalável no país, tendo feito referência à chamada Geração 80, que realiza vários projectos.
No actual contexto, explicou que os filmes de produção nacional não têm retorno em termos de bilheteira, mas vale dizer, também, que em termos de produção o retorno é sempre relativo. Ngouabi Silva defendeu, ainda, que tudo envolve um exercício financeiro muito forte, equivalente a pelo menos metade do valor empregado na produção do filme para que tenha algum impacto na apresentação e recepção, por um lado.
Por outro lado, e ainda no âmbito dos esforços para a rentabilidade, o director revelou que há, ainda, outra forma que passa pela possibilidade de inscrever o filme num festival e, eventualmente, gerar algum lucro.
Realidade do país
O exercício da actividade cinematográfica está, cada vez mais, difícil, porque as pessoas que gostam de filmes, hoje, também fazem contas, disse o director executivo, que lamentou o facto de a deslocação, o bilhete, o parque automóvel, e a pipoca, em certo sentido, tenderem a desencorajar o comum cinéfilo angolano.
Em Angola, segundo Ngouabi Silva, as produtoras que se dedicam a fazer filmes, também se predispõem a realizar documentários e publicidade para assegurarem a sua sobrevivência.
Quanto ao futuro da Sétima Arte, Ngouabi Silva disse que, independentemente de a arte atrair, hoje, menos o público angolano, os fazedores vão continuar a fazer filmes, porque, como disse, o “cinema é vida”.




