Músicos citam obras favoritas que marcaram o legado de Joy Artur. Os depoimentos, no entanto, ultrapassam o âmbito do Semba. Vão da música Kizomba à Kilapanga, passando pelo Jazz, reunindo nomes como Botto Trindade, Eduardo Paim, João Sabalo, Betinho Feijó, Zeca Moreno, Ndaka yo Wini, Joãozinho Morgado e Mike Pemba
Era um homem silencioso que se “escondia” atrás de um bigode farto. Mas assim que aproximava o microfone à boca e lançava os primeiros versos, fazia-se outro: uma voz intensa e cheia de emoção, próxima do timbre rouco que encantava o país. Quem o viu, entre as décadas de 1970 e 2000, nunca mais esquecerá esta prodigiosa transformação. Àquilo que ele cantava podemos chamar música popular angolana, defini-la como Semba, Kilapanga ou canções de intervenção; a verdade, porém, é que qualquer música cantada por ele ganhava uma outra natureza.
Joy Artur, cujo nome de baptismo era Henrique Lima Artur, nasceu a 20 de Julho de 1955 em Luanda, município do Sambizanga, no bairro Mota, local propício à boémia e à música.
Aliás, o cantor e compositor António Fortunato “Tonito”, autor dos clássicos “Marimbondo” e “Mu Undengue Uami”, eternizados por Ruy Mingas, em entrevista concedida há anos em Lisboa, lembrou as constantes e extraordinárias melodias nocturnas que se ouviam entre conversas longas naquele subúrbio da capital do país.
“Cantava-se muito no bairro Mota. As pessoas vinham do trabalho e sentavam-se às portas das suas casas a cantar e a tocar. Grandes músicos como Prado Paim, José Agostinho ou Artur Nunes foram forjados nesse ambiente”.
Parece ter sido essa atmosfera que ocasionou o encontro da vida de Joy Artur, o seu caminho de Damasco: a música. Entrou nela como para ordens. Aos 17 anos, passou a conciliar a profissão de torneiro mecânico, que desempenhava na Textang 1, uma das maiores fábricas têxteis de Angola, com o “bichinho” da sonoridade. À noite, peregrinava pelos bares, à procura de trocar o seu talento por uma chance de subir aos palcos. Em 1974, foi “descoberto” por Dionísio Rocha, então promotor e director dos Kutonoca – um programa que percorria os bairros de Luanda em busca de novos talentos na música. Dionísio que também era líder dos Negoleiros do Ritmo – orquestra inspirada no Ngola Ritmos, normalmente considerada fundadora da moderna música popular urbana de Angola –, conseguiu fazê-lo entrar, pela primeira vez, num estúdio para gravar o seu primeiro disco. Faz agora 52 anos.
Um dia, Joy Artur começou por recordar assim o encontro com Dionísio que, segundo ele, mudou a sua vida: “Foi em 1974, num palco montado no Cine N’gola para o programa Kutunoca. Ele olhou-me de cima a baixo e fez a pergunta: ‘Tu és o rapaz do Sambizanga?’ Elogiou a minha maneira de cantar e convidou-me a ir até à Companhia de Discos de Angola (CDA), uma gravadora angolana onde funcionou mais tarde a ENDIPU (Empresa Nacional de Discos e Publicações). Lá deparei-me com músicos famosos, que só os via ao longe, curiosos para me escutar. Estava nervoso, mas tão logo terminei o primeiro verso — ‘Io Tambuile Okulo / Xietu Io Tambuile Okulo’ — ouvi a voz de Joãozinho Morgado: ‘Temos mais um músico’. O Dionísio Rocha voltou-se para o Carlitos [Vieira Dias] e acrescentou: ‘Vamos colocá-lo no mercado’”.
Em 1975, surgiu o single de sete polegadas – com uma música de cada lado, “Xietu Io Tambuile Okulo” (“A Nossa Terra Foi Tomada Há Muito Tempo”) e “Rainha Ietu” (“A Nossa Rainha”). Marcadas por grande rigor e originalidade, tiveram o efeito de uma pedrada no charco. A crítica manifestou-se surpresa... O público em geral se pôs à procura desse artista, até então quase desconhecido.
Aqueles eram também os dias gloriosos da rádio. “As músicas dele tornaram-se das mais escutadas na época, tanto na rádio como nos convívios e bailes”, recordou ao Jornal de Angola Dionísio Rocha.
Perdeu-se, é claro, a oportunidade para realizar um grande espectáculo, que poderia ser gravado em DVD, e muito mais, pois, no palco estiveram alguns dos melhores instrumentistas de então que compunham os Merengues, uma das bandas que eram a própria estória da música popular de Angola.
Veja-se o elenco: Carlitos Vieira Dias (guitarra baixo), Zé Keno (guitarra solo), Zeca Tirilene (guitarra ritmo), Joãozinho Morgado (Congas) Damião (Reco-reco) e Gregório Mulato (vocal).
“Ouvir aquelas duas músicas e viver aquelas palavras ditas e cantadas naquela voz única e sem igual, devidamente acompanhadas pelos primeiros cinco instrumentistas dos Merengues, dava a impressão que o país vivia naquela conjunção”, afirmou Joãozinho Morgado, seguramente o mais criativo percussionista surgido em Angola, cujo génio contaminou gerações, não havendo hoje nenhum músico que o não reclame como referência.
Joy Artur, porém, ganhou atenção. Pouco tempo depois começou a animar as festas luandenses, cantando em conjuntos como Os Marimbas, Os Rios e Kissanguela, brilhando nos Perdidos Futebol Clube, no Maxinde ou no Marítimo da Ilha, onde as burguesinhas brancas apareciam para dançar descalças.
A vertigem da instabilidade política
Os anos que se seguiram à Independência trouxeram várias dissoluções de bandas nacionais. Não resistiram à vertigem da instabilidade política: FAPLA-Povo, Africa Show, Águias Reais, África Ritmo, Luanda Show, entre outras. O Kissanguela anunciou o seu fim em 1979.
Nesse cenário conturbado, em 1980, o Governo angolano, numa operação de “charme”, decidiu apoiar a criação de uma orquestra cujo objectivo principal era divulgar a música do país no exterior. É assim que surge o Semba Tropical, para qual Joy Artur foi convidado a integrar, juntando-se a uma renomada equipa de músicos, que incluía Carlitos Vieira Dias (violão), Caetano Gomes (guitarra baixo), Rogério de Carvalho (guitarra ritmo), Botto Trindade (guitarra solo), Rui Furtado (bateria), Sanguito (saxofone), Nike Pemba (trompete), João Sabalo (trombone), Massekfoka (piano), Joãozinho Morgado (tumbas), Candinho (bongôs), Zé Fininho (dikanza), além dos vocalistas Pedrito, Carlos Burity, Mamukueno e Dina Santos.
Durante oito anos, percorreu com a orquestra recém-formada as principais rotas de emigração — Inglaterra, Portugal, Brasil, República Democrática do Congo, Espanha e outros destinos —, a que se somou o álbum gravado em Londres, “Semba Tropical in London” (1982), com dez canções, duas das quais de sua autoria, a participação com um grupo de músicos nacionais, numa viagem ao Brasil, de que resultou o disco “Canto Livre de Angola” (1983) gravado ao vivo na sala Cecilia Meireles, no Rio de Janeiro, e até o espectáculo de grande dimensão, realizado em meados de 1985, no Theatre de Verdure, no centro de Kinshasa, ao lado dos ícones zairenses Papa Wemba e Kanda Bongo Man, cujos solos de guitarra inspiraram a kwasa kwasa, dança que se tornou um símbolo cultural e musical da África Central.
Em 1986, casou-se pela primeira vez — o segundo matrimónio ocorreu mais de dez anos depois —, numa cerimónia que ganhou notoriedade pelo facto de o padrinho tratar-se do então ministro Pedro Maria Tonha “Pedalé”. A seguir, foi trabalhar para a Sonangol como câmara-men. São dois anos de silêncio, cuidando da família. Voltou a cantar em 1987 e, no mesmo ano, é convidado a participar no álbum “Cantangolando”, com dois temas de sua concepção, “Eye Ngo” e “Makixe”, recuperando a figura de um dos mais vigorosos interpretes do semba e regressando com brilho aos palcos.
Parece importante referir que Henrique Lima Artur eternizou alguns temas clássicos, como “Zinha”, presença obrigatória em todos os carnavais da capital, de Artur Nunes. Para a história fica também as saudades da criança que foi deitada no poço: “Kudizanga Dia Veia Ngongo/ (…) / Bhene Bwatexile o Mona/ We Monami Monandengue (É no poço da velha Ngongo, onde tinham deitado o meu filho, meu filho é somente uma criança), música cujo multi-instrumentista e orquestrador, Eduardo Paim , admite que o ajudou a alimentar o sonho de “evoluir para o género Kilapanga”.
Como tantos músicos, levou o seu impulso artístico para o ambiente familiar. Supõe-se que exerceu uma certa influência na carreira do cantor Bangão, de quem era tio. Joy tinha o grau de irmão mais novo da mãe do autor de “Dioguito”.
“No palco, possuiam muitas semelhanças. Transformavam os gestos poéticos em palavras capazes de provocar reflexão, além de exploração da dança das palavras em harmonia com o sentimento”, revelou ao Jornal de Angola João Sabalo, antigo trombonista do Semba Tropical.
Em suma, ao longo de quatro décadas de carreira gravou um repertório constituído por cinco singles, um LP e um CD, totalizando mais de 50 músicas. Ao mesmo tempo, realizou mais de 100 concertos, o último dos quais em Dezembro de 2024 no Show do Mês, em Luanda.
No palco, a extraordinária fúria criativa e um entusiasmo quase juvenil com que reagia à simpatia do público pareceriam não ter fim. Mas foi traído pelo coração que o levaria à morte aos 21 de Maio do presente ano. A 25 do mesmo mês, o projecto “Um Semba em Cada Canto”, promovido pela Galeria do Semba, prestou uma merecida homenagem ao autor de “Rainha Ietu”, no Centro Cultural e Recreativo Kilamba, na capital angolana, num espectáculo acompanhado – magnificamente, é preciso reconhecer – pela banda Onjago. O resultado foi, porém, pouco emocionante. Não conseguiu superar o nosso eterno Joy Artur. No fundo, a grande questão é que não é possível olhar o futuro, esquecendo o passado. Sobretudo quando existe tanto de passado. E tão brilhante.
O que os colegas disseram sobre Joy Artur
“Prefiro ‘Rainha Yetu’”
Mas atenção, a música ‘Rainha Yetu’ na versão do Semba Tropical. Aquela que foi gravada ao vivo no largo da Mutamba, em Luanda, em cima dos escritórios da TCUL (Transportes Colectivos Urbanos de Luanda), em Novembro de 1982. Com uma assistência de mais de 60 mil pessoas. Nesse dia, o Bonga também esteve em palco. Em suma, este é um ano triste para todos nós, para o Semba e para a música angolana que perdeu um dos seus maiores intérpretes de sempre”.
João Sabalo (Ex-trombonista do Semba Tropical)
“Digna de lembrança e gratidão à ancestralidade”
“Classifico o tema 'Xieto lo Tambuile Okulo', de Joy Artur como um dos clássicos angolanos mais lindos da nossa rica discografia. Cantado em kimbundu com intenso sentimento de apurada performance, digna de lembrança e gratidão à ancestralidade. Proprietário de magníficas obras de arte recomendáveis para pesquisas abrangentes pelo seu perfil agregador de valores que impactam de forma expressiva no desenvolvimento cultural angolano.
Solicitado pela Sonangol, tive o privilégio de ser o produtor musical e arranjador do CD intitulado ‘Cantangolando’, com dez faixas vocalizadas por Joy Artur, Mizé, Nelson Santos, José Agostinho e Bartolomeu Silva, que com o seu melhor orgulharam a classe artística. Na referida abordagem discográfica, constam os temas designados por 'Eye Ngo' e 'Makixe', abordados pelo saudoso Joy Artur, que expõem um denominador comum de excelência artística intrínseco na sua alma. Apesar da distância física por motivos geográficos, nutríamos um espírito irmanado de cumplicidade genuína em prol do bem comum. Que Deus, em sua infinita misericórdia, lhe proporcione um descanso sereno. Sakidila, panguiame Joy Artur. Xibidom!"
Betinho Feijó (Guitarrista, arranjador e produtor angolano radicado em Lisboa)
“Os Merengues contribuíram para a consolidação do Joy”
“As suas obras foram referência tanto nos anos pré e pós Independência. Considerando a versatilidade e a qualidade artística de Joy Artur, é difícil escolher uma única canção que o represente. As obras dele foram referência nos anos pré e pós Independência de Angola. Elas exerceram grande influência não apenas como entretenimento, mas também como estímulo para os angolanos enfrentarem os desafios quotidianos. O conjunto Os Merengues contribuiu decisivamente para a consolidação das obras do Joy Artur, no seu melhor momento”.
Zeca Moreno (Co-fundador da orquestra Os Bongos do Lobito)
“Era uma terapia”
“Para mim, foi um mestre, tal como eu preferi chamá-lo sempre: O Makixe. Era uma terapia para mim. Um dos meus exemplos de como ser artista”.
Ndaka yo Wiñi (Músico e compositor de Jazz)
“A interpretação soava bem ao ouvido”
“A linha melódica e a interpretação de Joy soavam bem ao ouvido. Um dos maiores da história do Semba. Homem de grande nobreza mas simultaneamente humilde. Tinha uma dimensão humana fantástica. A música dele preferida por mim é ‘Xieto lo Tambuile Okulo’.
Mike Pemba (Ex-trompestista do Semba Tropical)
“A sua autenticidade era encantadora”
“O que achava mais encantador na obra do Joy Artur era esse diálogo estreito entre a autenticidade do Semba e a voz quase rouca. O poder das suas palavras, enquanto cantava, era um constante ensinamento. Diverti-me muito ao lado dele. E também ser um arranjador do CD intitulado ‘Cantangolando’. É tão grande o legado e tudo o que ele nos deixou!
Boto Trindade (Fundador dos Bongos do Lobito, ex-guitarra solo do Semba Tropical e arranjador musical)
“Ergam as palmas para Joy"
“Para mim foi um dos intérpretes maiores do verdadeiro Semba. Dava-me prazer acompanhá-lo. Ouvir aquelas duas músicas, principalmente ‘Xieto Io Tambuile Okulo’ e viver aquelas palavras ditas e cantadas em kimbundu naquela voz única e sem igual, devidamente acompanhadas pelos primeiros cinco instrumentistas dos Merengues, dava a impressão que o país vivia naquela conjunção. Ergam as palmas para Joy Artur”
Joãozinho Morgado (Percussionista, antigo instrumentista dos Merengues e Semba Tropical)
“Um enquadramento vocal raro”
“Resumir a apenas um tema o legado de um músico da magnitude de Joy Artur configura-se uma tarefa constrangedora, pois trata-se de alguém com uma trajectória recheada de inúmeras referências musicais e um enquadramento vocal raro. Porém, a primeira vez que ouvi ‘Kudizanga Dia Veia Ngongo’, tinha apenas 12 anos. Fiquei impressionado com a introdução vocal, suportada por uma beleza harmónica rara que me influenciou na evolução para o género kilapanga.
No entanto, ‘Xieto Io Tambuile Okulo’ é outro dos hits de Joy a que não poderia deixar de mencionar”.
Eduardo Paim(Músico, multi-instrumentista e orquestrador)




