Língua tem contribuído muito na definição daquilo que somos

O filólogo italiano Simone Celani afirmou que a língua contribui directamente para a definição da nossa identidade.
A declaração foi feita durante a última edição das “Conversas da Academia à Quinta-feira”, onde dissertou sobre o tema “Estatuto do Português de Angola nas Gramáticas e na Investigação Linguística Contemporânea”. O evento, que reuniu académicos de Angola, Bélgica, Brasil, Canadá, Itália e Portugal, foi uma iniciativa da Academia Angolana de Letras (AAL) para assinalar o seu 10.º aniversário. Sob a moderação do crítico literário António Quino, o conferencista abordou a forma como o português de Angola vem sendo referenciado na literatura especializada. Celani mencionou a existência de 499 referências bibliográficas globais sobre a variante angolana, observando que esta ainda enfrenta uma relativa marginalização quando comparada à norma europeia. “A variante angolana do português continua a ocupar um lugar relativamente marginal na manualística linguística de uso académico”, apontou o académico, lembrando o paradoxo de o idioma ser falado por mais de 70% da população de Angola. Simone Celani defendeu a superação do epicentrismo tradicional — focado maioritariamente nas normas europeia e brasileira — em prol de uma visão pluricêntrica. Para isso, propôs explorar a evolução das fontes de estudo, transitando da análise puramente literária para o desenvolvimento de bases de dados orais. O Professor Catedrático da Universidade de Roma La Sapienza abordou também os empréstimos mútuos entre as diferentes variantes da língua (angolana, moçambicana, brasileira e europeia). O especialista destacou que a literatura regista trocas recíprocas entre Angola e o Brasil desde o período do tráfico transatlântico de escravos até à actualidade, sublinhando a forte influência brasileira contemporânea no português falado em Angola. No que toca à relação com as línguas de matriz bantu, Celani explicou que o contacto secular gerou influências bilaterais: existem termos bantu integrados na variante culta do português europeu, assim como vocábulos de origem portuguesa enraizados nas línguas bantu de Angola e Moçambique. Diante da criação de um novo Museu da Língua na Universidade La Sapienza, o filólogo considerou fundamental que o português de Angola garanta uma presença de destaque. Em relação ao futuro da lusofonia, Simone Celani apresentou dados demográficos de longo prazo. As projecções para o ano 2100 apontam para um universo de 520 milhões de falantes de português no mundo — quase o dobro dos actuais 300 milhões. Nesse cenário, o bloco africano e o Brasil vão concentrar 96% dos falantes, liderados pelo Brasil (190 milhões), seguido de perto por Angola (173 milhões) e Moçambique (135 milhões). Com estes indicadores, Angola caminha firmemente para se tornar o grande eixo central da língua portuguesa no próximo século.



