A filóloga marroquina Meryem Belcadi, da Universidade Mohammed V de Rabat, afirmou, nas últimas Conversas da Academia à Quinta-feira, da Academia Angolana de Letras, que as Literaturas Africanas em Português são ensinadas na universidade, em Marrocos.
Ao dissertar o tema “Literaturas Africanas no Ensino do Português como Língua Estrangeira”, sob moderação do crítico literário senegalês Oumar Diallo, da Universidade Cheikh Anta Diop, de Dakar, a conferencista falou da forma como se processa o ensino da Língua Portuguesa e das Literaturas Africanas em Português, em Rabat.
Na Universidade Mohammed V, de Rabat, existe licenciatura em Estudos Portugueses, que inclui, no 3.º ano, a aprendizagem das literaturas africanas dos países de língua oficial portuguesa.
“O contacto com as literaturas só é possível depois de os estudantes aprenderem a língua portuguesa durante dois anos, com a particularidade de a maioria não ter tido qualquer contacto prévio com o idioma”, realçou a académica.
A intenção, explicou, é a utilização da literatura como ferramenta de mediação intercultural e linguística, superando a visão imediata do português como língua limitada a Portugal e ao Brasil.
De acordo com Meryem Belcadi, a carga horária dedicada à aprendizagem das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa é limitada, sobretudo devido ao desafio de abranger a produção literária de cinco países distintos — dos quais três são continentais e dois insulares.
O processo de ensino tem início com uma contextualização que apresenta o português como uma língua de expressão literária multifacetada. Esta abordagem diferencia o idioma em função das características geográficas e culturais dos vários povos, que absorveram a língua portuguesa e a transformaram com base em elementos identitários próprios de cada sociedade.
A professora da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade Mohammed V de Rabat esclareceu que, devido à carga horária limitada, a análise aprofundada está focada em Angola e Moçambique, mantendo-se apenas uma visão panorâmica em relação aos demais países.
Meryem Belcadi adiantou que se faz uma selecção pedagógica dos textos a abordar, tendo em conta que se trata da aprendizagem da língua portuguesa como língua estrangeira.
De Angola, o destaque vai para a poesia de Agostinho Neto, Viriato da Cruz e António Jacinto, bem como os textos de Luandino Vieira, Pepetela e Ondjaki. Para o caso de Moçambique, são destacados a poesia de Noémia de Sousa e José Craveirinha, bem como os textos de Luís Bernardo Honwana, Paulina Chiziane e Mia Couto. Este contacto com a literatura permite que os estudantes reflictam sobre a sua própria identidade e percebam a relação entre língua e identidade, memória e pertença.
Nas próximas ConversaS da Academia à Quinta-feira, agendada para 10 de Setembro, às 19h00, sob moderação do crítico literário Oumar Diallo, o também crítico literário Luca Fazzini, da Universidade de Lisboa, vai abordar o tema “Angola Atlântica, Angola Global: Perspectivas Literárias”.




