A escassez de adaptações de obras de autores angolanos, como Agostinho Neto, Manuel Rui Monteiro, Pepetela e José Mena Abrantes, a liberdade criativa e os limites do artista, bem como a sensibilidade do público angolano, apontadas como um elemento a considerar no processo de criação e encenação, estiveram entre os principais temas abordados no segundo dia da masterclass sobre Dramaturgia, realizada, ontem, no Elinga Teatro, em Luanda.
A aula, dirigida pelo presidente da Associação Angolana de Teatro (AAT), Tony Frampênio, alimentou várias discussões. O encontro permitiu aos participantes compreenderem as diferentes etapas de materialização de uma obra dramática e reflectir sobre os desafios inerentes à sua transposição para o palco.
Na sequência, foram analisadas as trajectórias de dramaturgos africanos e as dificuldades contextuais enfrentadas ao longo dos seus percursos criativos, com destaque para os mecanismos de censura e para as estratégias artísticas utilizadas para contornar as limitações impostas pelos sistemas de poder.
O debate procurou chamar a atenção dos dramaturgos angolanos para a sua inserção numa sociedade marcada por diferentes hierarquias. Nesse contexto, foi defendida a ideia de que a arte não precisa recorrer à literalidade ou ao realismo absoluto para abordar questões sociais e políticas. Pelo contrário, a ficção pode constituir um instrumento eficaz para questionar a realidade e estimular a reflexão do público.
Outro tema abordado foi a longevidade das obras teatrais. Segundo a reflexão apresentada durante a aula, os grandes clássicos conseguem permanecer relevantes ao longo das gerações, porque conciliam dimensões psico-emocionais e socioculturais, alcançando uma dimensão universal.
A falta desse diálogo, segundo a análise apresentada, pode levar à produção de peças excessivamente centradas em experiências imediatas e superficiais, com menor capacidade de promover debates críticos. A consequência pode reflectir-se também na relação com o público, que, ao procurar conteúdos com maior profundidade e substância, pode afastar-se das salas de espectáculo.
A aula concluiu com um apelo ao fortalecimento da formação dos dramaturgos, à valorização da literatura angolana e à construção de um teatro capaz de dialogar com a sociedade sem abdicar da liberdade criativa, da responsabilidade ética e da qualidade artística.
Segundo Tony Frampênio, a Formação Artística em Angola ainda enfrenta desafios, sobretudo por ser um sector relativamente recente, e, em muitos casos, pouco valorizado enquanto componente estratégica do desenvolvimento cultural.
Durante o debate, o curador de cinema André Gomes apontou que a capacidade de questionar estruturas de poder está directamente relacionada com a imaginação e a criatividade do artista.
Na sua perspectiva, o artista deve ser capaz de reconfigurar a realidade e encontrar formas criativas de expor aquilo que considera estar errado na sociedade.
Já o actor Silvério Ramos considerou que a relação entre liberdade e criação artística é fundamental para compreender o papel do artista na sociedade, pois a intervenção do mesmo passa, muitas vezes, pela capacidade de questionar e propor mudanças na realidade que o rodeia.
A encenadora Sunny Dilage, por sua vez, defendeu uma arte livre, autêntica e sem limitações impostas pela necessidade de agradar a terceiros.




