Os músicos Carlitos Vieira Dias, Paulo Flores, Gersy Pegado, Toty Sa’Med e Raul Tollingas destacaram, na segunda-feira, no Miami Beach, em Luanda, a História como princípio fundamental no resgate da identidade nacional.
O posicionamento foi apresentado durante a roda- de-conversa “Debates e Testemunhos sobre o Semba e Suas Origens”, uma actividade enquadrada na 2ª edição do Festival Semba Sound - 1975/ 2026, que vai ocorrer no próximo dia 28 de Novembro, na Marginal de Luanda.
Na ocasião, Paulo Flores, um dos mentores da iniciativa, afirmou ser importante e motivador promover encontros desta natureza com o objectivo de transmitir conhecimento sobre a origem do semba e a identidade nacional.
Para o conhecido “Ti Paulito”, os artistas devem conversar mais e de uma forma frequente, porque existe a premente necessidade de transmitir o conhecimento às novas gerações. Contudo, a construção de uma escola de semba é apontada como uma mais-valia no sentido de especificar os instrumentos e as rítmicas, de maneira a que este estilo musical, enquanto Património Imaterial, continue cada vez mais vivo com relação aos anos anteriores.
O músico disse ser crucial os angolanos valorizarem as riquezas rítmicas, as línguas e a identidade nacionais, porque quando canta nas línguas nacionais, sobretudo o kimbundu, em outros palcos fora de Angola, torna-se uma entidade para os africanos.
“Actualmente sinto-me honrado por fazer parte deste género musical do país, sobretudo porque permite o resgate da nossa identidade, mas sinto que cada vez mais esta está deturpada”, desabafou.
Carlitos Vieira Dias defendeu de forma rigorosa a preservação histórica e uma revolução inovadora e estética dos ritmos, por acreditar que a música é dinâmica e não se pode tocar sempre a mesmice; deve-se, sim, apresentar novas sonoridades sem perder o essencial, o que é de extrema importância.
O guitarrista apresentou uma visão desafiadora sobre o semba, que consiste em manter viva a “verticalidade” e a raiz rítmica deste Património Imaterial Nacional, de modo a influenciar outras gerações. A perspectiva da música angolana, reforçou, é melhorar, e existe um grupo de artistas que tem apostado no conhecimento de forma diferenciada, mas sem descurar a matriz dos ritmos nacionais.
Outro elemento apontado por Carlitos Vieira Dias foi a questão da falta de aprofundamento dos ritmos do semba pelos bateristas e instrumentistas de sopro; entretanto, há necessidade de estes profissionais reestudarem a forma de tocar a mística musical do estilo. “Da mesma forma como muitos instrumentistas procuraram apresentar a célula rítmica dos tambores para o violão, os sopristas devem trazê-la nos instrumentos que tocam”, argumentou.
Na visão de Raul Tollingas, o semba começou nos musseques com as “turmas”, assim como com os instrumentos musicais puita, dikanza, chocalho e os tambores. Entretanto, é necessário o regresso deste estilo musical aos musseques, porque se continuar só no asfalto pode desaparecer.
“Devemos respeitar as nossas raízes e tradições, no sentido de termos um futuro consistente”, exortou.
Raúl Tollingas defendeu a permanência dos instrumentos tradicionais para manter o ritmo místico do semba, sobretudo o tambor, a puita, o bombo e a dikanza, porque não existe cadência do estilo sem estes instrumentos de percussão. “É necessário incentivar os jovens a tocar estes instrumentos, no sentido de garantir a continuidade do semba.”
Toty Sa’Med, o mais jovem entre os artistas, admitiu que se tem a base rítmica do semba e há evolução, mas esta deve estar cimentada e devidamente estudada nas academias, de maneira a não perder a originalidade quando se puxarem as fronteiras deste estilo musical. O músico sugeriu a padronização dos ritmos nacionais, sem retirar os aspectos essenciais das cadências, no sentido de criar uma marca própria, porque ajuda a um melhor entendimento da origem por parte das novas gerações.
Já Gersy Pegado vê a arte e a música como elementos centrais da identidade, da história e da coesão dos angolanos, por isso, defendeu que se deve preservar e divulgar o semba nos palcos nacionais e internacionais, dando voz e visibilidade, com orgulho, à identidade do país.
“Sendo uma força indispensável para a construção e o fortalecimento da sociedade e na representação cultural, temos que manter o compromisso com os ritmos tradicionais angolanos como o semba, valorizando a herança musical passada entre gerações”, finalizou a cantora.
Armindo Canda



