A sexta edição do Festival Infanto-Juvenil Nzonji Ya Mona Ndengue, que homenageou a professora Gabriela Antunes e os 450 anos da cidade de Luanda, reuniu, durante três dias, vários momentos de diversão para as crianças e encarregados de educação, tendo como foco principal oferecer um espaço gratuito de expressão, descoberta de talentos e valorização da identidade cultural.
A actividade, organizada pela Companhia de Artes Sol, encerrou domingo, no Palácio de Ferro, em Luanda.
O festival pretende deixar como principal legado para as crianças a promoção da interacção entre as mesmas, a descoberta de talentos, a vontade de representar e a oportunidade de se exprimirem sem medo, demonstrando que é possível ter um desenvolvimento cognitivo saudável por meio da prática de várias disciplinas artísticas. O encontro contou também com a participação de várias personalidades ligadas às artes e com um público diversificado.
A directora da Companhia de Artes Sol, Solange Feijó, fez um balanço positivo do festival, destacando a coragem da sua equipa em acreditar que era possível realizar a iniciativa. Sublinhou ainda a apresentação de um jogral em que as crianças alertaram para a necessidade de cuidar melhor da cidade.
“Trouxemos um jogral em que as crianças alertam para o melhor cuidado da nossa cidade, a fim de dizer que Luanda é todos os dias, não apenas no dia 25 de Janeiro, e que é de Luanda quem está em Luanda, independentemente do lugar onde nasceu,” afirmou.
A responsável afirmou que a iniciativa pretende ensinar as crianças, desde cedo, a cuidar e respeitar o que está à sua volta, reforçando ser necessário trazer as crianças para aprenderem esses assuntos desde cedo, que devem cuidar e respeitar o que está à sua volta. Por isso, trouxeram alguém que deixou um legado robusto. “É necessário que as pessoas se lembrem de quem existiu e fez as coisas à sua maneira e por Angola”, disse.
Segundo Solange Feijó, o balanço é também positivo pela forma como o público recebeu a iniciativa. Explicou que o feedback dos pais tem sido positivo, uma vez que muitos a aconselham a não desistir.
“Os pais vêem de perto o nosso esforço, mas nem todos têm possibilidade de apoiar. Outros apoiam com o que têm. Isso demonstra que o gesto é louvável, pois muitos deles sabem da importância do festival para as crianças”, afirmou.
A mentora acrescentou que, em alguns casos, a própria organização apoia famílias que se deslocam de zonas distantes.
“Às vezes também apoiamos pais que vêm de zonas muito distantes com várias crianças, porque percebemos o esforço e o quanto o festival é de extrema importância para o desenvolvimento cognitivo das crianças”, explicou.
A directora apontou o reforço da divulgação como uma das prioridades para garantir a participação de um número maior de crianças nas próximas edições. No entanto, defendeu a necessidade de maior apoio directo dos órgãos de comunicação social públicos.
“Precisamos de apoio directo para a divulgação por parte dos órgãos de comunicação social públicos. São parceiros que solicitamos frequentemente, mas que nem sempre dão um apoio massivo e constante”, afirmou.
“Às vezes é uma luta para conseguir participar num programa de televisão, quando deveria ser uma porta aberta. Ainda assim, agradeço à comunicação social, porque é através de determinadas divulgações que conseguimos trazer inúmeras crianças”, acrescentou.
Para Solange Feijó, é fundamental que iniciativas desta natureza recebam maior apoio.
“É imperioso que abracem obras desta natureza. Tentamos sempre fazer com que o nosso país seja diferente dos outros, mas não é. Podemos ser iguais aos outros que fazem bem. Copiar não faz mal; um dia chegaremos à nossa originalidade”, considerou.
Inclusão e participação artística
A actriz Cláudia Pucuta, figura activa na participação do festival, considerou que a iniciativa é de grande importância para as crianças, por promover a inclusão e a participação artística.
“É uma actividade de crianças do palco para crianças da plateia. A Solange tem feito um trabalho excelente. Quero parabenizá-la por todos os esforços que tem feito para juntar as crianças e os encarregados de educação. Não tinha como não marcar presença nesta grande iniciativa. Consegui ver a alegria nos olhos das crianças e foi bastante gratificante”, afirmou.
A actriz contou que um dos momentos que mais a marcou foi a apresentação de um grupo musical a dançar tchianda.
“É um deleite ver crianças a dançarem tão bem as danças tradicionais, com cuidado nos movimentos, que foram muito bem executados”, destacou.
Cláudia Pucuta deixou também um apelo aos pais e às pessoas que possam contribuir para a continuidade do festival.
Experiências das crianças
Débora Alexandra Sapalo Gomes, membro da Companhia de Artes Sol, contou que a experiência tem sido positiva e que tem aprendido várias competências através da participação no grupo.
“Tenho aprendido muitas coisas, como a me libertar, a falar com o público e a não guardar aquilo que sinto. Também aprendi muitas brincadeiras. Dentro da companhia, gosto de brincar com os meus colegas, aprender teatro, dançar e interagir com todo o mundo”, contou. Por outro lado, a pequena Eulália Antonella da Cunha da Silva, que entrou na companhia aos dois anos, afirmou que gosta de fazer parte do grupo.
A criança apelou aos encarregados de educação para que permitam que os filhos participem nas actividades artísticas, por considerar que estas contribuem para o desenvolvimento cognitivo.
O actor José de Freitas, que entrou na companhia aos quatro anos e está agora com onze anos, contou que a aprendizagem na instituição é contínua.
Segundo o jovem actor, a participação na companhia ensinou-lhe a ser mais aberto, a dizer a verdade, a não roubar, a respeitar os mais-velhos e a conhecer os seus direitos.
“Aqui na companhia, cada dia e cada ensaio são uma forma de aprendizagem”, afirmou.
Para o engenheiro Adilson Jaime, que participa pela segunda vez no festival, explicou que o projecto é de grande importância por despertar as crianças para questões relacionadas com a identidade e a diversidade cultural. Considera que a globalização tem contribuído para que alguns aspectos da diversidade cultural sejam menos visíveis em determinadas famílias.
“Hoje, por influência da globalização, quase já não se nota, em algumas famílias, essa diversidade cultural: o modo de vestir, a gastronomia em fim. É muito valioso, porque acaba por mostrar às nossas crianças aquilo que efectivamente representa a nossa sociedade, o povo angolano”, concluiu.




