A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola) volta a apresentar a peça “Sona 137” hoje e amanhã, às 19h00, no Elinga Teatro, espaço onde fez a estreia, no passado dia 1 do corrente mês.
A obra assinala os 35 anos de existência da companhia e marca a abertura da Temporada 2026, que vai incluir uma dúzia de espectáculos, de quinta-feira a domingo, estendendo-se até ao próximo dia 18 do corrente mês.
“Sona 137” conta com a coreografia assinada por Ana Clara Guerra Marques e Andy Rodriguez, com música original de David López Sáez. O projecto parte dos Sona, desenhos tradicionais cokwe traçados na areia e recolhidos, na altura, por Mário Fontinha.
Formados por linhas contínuas e entrelaçadas que se fecham sobre si mesmas e circundam pontos alojados no solo, os Sona preservam a memória, o conhecimento e a ancestralidade de um povo. O processo de criação envolveu directamente bailarinos e coreógrafos, que cruzaram as suas histórias e experiências com as narrativas inscritas nos desenhos.
Das palavras e interpretações surgidas durante a fase de pesquisa, emergiu um padrão comum: a submissão. Na peça, os Sona são lidos como estruturas simbólicas que impõem códigos, obrigações e percursos fixos; representam um legado, bem como um limite.
A peça alarga esta leitura ao presente: à política, à religião, à tradição, às normas sociais e às relações humanas, universos onde regras e sistemas condicionam comportamentos que raramente são questionados.
Em cena, os bailarinos percorrem com o corpo os itinerários ocultos nos desenhos, num espaço tenso entre a pertença e a obrigação, entre a escolha e a obsessão. Imagens e gestos simbólicos evocam estados de entrega, resistência e desistência.
A peça, que não apresenta soluções definitivas, mostra como a memória, às vezes, apagada ou de forma deliberada silenciada, pode desencorajar o passo seguinte.
A direcção artística defende que a preservação do património não se cumpre apenas pela mera repetição, mas pela sua transposição para códigos artísticos que dialoguem abertamente com o presente e permitam à tradição atingir novos níveis de significação.
Num país ainda sem um ensino profissional de dança eficaz, a CDC Angola mantém o palco como um espaço de pensamento crítico e propõe, uma vez mais, uma reflexão sobre um mundo cada vez mais obediente e conformado.
Fundada em 1991, a CDC Angola é a única companhia profissional angolana e a grande embaixadora da dança contemporânea nacional no mundo, tendo já apresentado o seu trabalho em 17 países e 40 cidades de todos os continentes. A CDC Angola tem como mecenas principal o Banco BAI, sendo que esta temporada conta também com o patrocínio da TotalEnergies.




