A crítica literária Noemi Alfieri recordou o percurso de António Jacinto nas letras e na luta anticolonial, tendo-o considerado como um poeta que “deu voz aos oprimidos” e contributo para a identidade nacional. A investigadora da Universidade Nova de Lisboa foi a conferencista na série “Conversas da Academia à Quinta-feira”, e abordou o tema “António Jacinto em Trânsito: Poesia, Censura e Circulações”.
A Academia Angolana de Letras realizou a primeira conferência do ciclo de Outubro da série “Conversas da Academia à Quinta-feira”, uma edição que assinala o 10.º aniversário da proclamação da instituição e que serviu para saudar o 98.º aniversário natalício do poeta António Jacinto.
A sessão, moderada pelo pedagogo Isaac Paxe, contou com a presença de académicos de Angola, Bélgica, Brasil, França, Moçambique e Portugal.
Co-fundador do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (1948), António Jacinto foi detido pela Polícia Política do regime colonial, julgado e condenado por acções consideradas subversivas, no âmbito do conhecido “Processo dos 50”, e deportado para o Tarrafal, em Cabo Verde.
A conferencista sublinhou que o poeta viveu num período de censura, com clara limitação da produção literária e jornalística. O debate incluiu a estética da obra de António Jacinto, a sua presença em publicações de resistência anticolonial e a influência da censura no seu estilo poético. Foi igualmente destacado o realismo social que caracteriza a sua obra, assente na denúncia das injustiças e no retrato do quotidiano das pessoas comuns.
Segundo Noemi Alfieri, “Sobreviver em Tarrafal de Santiago” aborda o mar, a saudade, a censura e o sentimento de revolta perante as difíceis condições de vida dos angolanos na sua própria terra.
Para a investigadora, esta poesia é vista como algo intangível, que surge onde tudo era censurado, restrito e regulamentado, mas escapa à domesticação, à ordem imposta e à repressão.
A dimensão humanista do poeta e político, cujos poemas integram várias antologias de poesia negra de expressão portuguesa, foi também realçada.
Noemi Alfieri referiu que o poeta se manteve firme nas suas convicções apesar da censura, tendo aprendido a conviver com a actuação das autoridades coloniais ao escrever uma poesia menos explícita.
A conferencista concluiu que António Jacinto deu voz aos oprimidos, sendo uma das vozes mais marcantes das letras angolanas, caracterizada por profundo engajamento político, social e humano em prol da liberdade e da identidade cultural de Angola.
Próxima conversa
A próxima série “Conversas da Academia à Quinta-feira” está agendada para 8 de Outubro, às 19 horas, também sob moderação de Isaac Paxe. O linguista polaco Eugeniusz Rzewuski, professor reformado da Universidade de Varsóvia, vai abordar o tema “Kiswahili: Macrolíngua Pan-africana de Identidade Regional”. A participação via Zoom é livre.




