A aproximação entre artistas plásticos de diferentes regiões do país marcou a quarta edição da residência artística Sinergia, que reuniu, em Luanda, 20 criadores provenientes de 15 províncias, num programa dedicado à criação colectiva, formação e troca de experiências.
Realizada na sede da Oficina de Gravura da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), a iniciativa procura contribuir para a descentralização das artes visuais e dar maior visibilidade aos criadores que desenvolvem a sua actividade fora da capital.
Sob o lema “Amizade e Reconciliação para a Paz”, a residência juntou artistas com diferentes experiências e linguagens, que durante dez dias desenvolveram trabalhos inspirados em temas como a convivência social, reconciliação, resiliência e fortalecimento dos laços comunitários.
Além da produção artística, o programa incluiu mesas-redondas, debates e sessões de intercâmbio, permitindo aos participantes discutir técnicas, experiências e os desafios enfrentados pelos profissionais das artes plásticas nas diferentes regiões do país.
Em declarações ao Jornal de Angola, o curador da residência, Hermenegildo Kindala, disse que a iniciativa pretende contrariar a percepção de que a produção artística nacional está concentrada em Luanda.
A reunião de criadores de 15 províncias, explicou, permite demonstrar a diversidade da produção artística existente no país e criar condições para que os profissionais partilhem conhecimentos e estabeleçam relações de colaboração.
Um dos momentos destacados da residência foi a realização de pinturas colectivas, nas quais vários artistas trabalharam sobre uma mesma obra, cruzando diferentes estilos e sensibilidades.
A experiência, segundo a organização, permitiu aos participantes explorar formas de criação baseadas no diálogo e na cooperação.
As obras produzidas durante a residência serão apresentadas numa mostra de encerramento, na qual os artistas deverão apresentar os conceitos e as respectivas fichas técnicas.
A organização pretende igualmente aproximar as obras produzidas do público e sensibilizar instituições públicas e privadas para a sua aquisição, como forma de criar novas oportunidades de rendimento para os artistas.
Mercado continua a ser desafio
Apesar do crescimento de iniciativas de promoção das artes visuais, o acesso aos materiais e ao mercado continua a ser apontado como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da actividade artística no país.
O curador da residência considera que muitos artistas produzem trabalhos de qualidade, mas enfrentam dificuldades na aquisição de tintas, telas e outros materiais, além da insuficiência de espaços destinados à exposição e comercialização das obras.
Defende, por isso, maior envolvimento das instituições públicas e do sector privado na criação de condições para o desenvolvimento das artes visuais.
A quarta edição da Sinergia contou essencialmente com apoio logístico da UNAP, que assegurou o alojamento, a alimentação e o espaço de trabalho dos participantes. Os restantes encargos foram suportados pelos próprios artistas.
Artistas querem mais oportunidades
A artista plástica Ana Gomes, do Cuanza Sul, considera que a convivência entre criadores de diferentes províncias constitui um dos principais ganhos da residência.
Para a artista, além da produção de obras, o encontro permite a construção de relações profissionais e a transmissão de conhecimentos entre criadores com experiências distintas.
Ana Gomes, chama igualmente a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos artistas nas províncias, sobretudo devido à falta de galerias, oficinas e outros espaços destinados à divulgação e comercialização das obras.
A artista defende que o mercado cultural deve desenvolver-se para além de Luanda, de modo a permitir que os criadores possam trabalhar e encontrar oportunidades nas próprias províncias.
Na sua perspectiva, a falta de espaços de exposição leva muitos artistas a deslocarem-se para a capital em busca de melhores condições para apresentar e comercializar os trabalhos.
Uíge reclama infra-estruturas
António Zinga, artista plástico representante do Uíge, considera igualmente importante a realização de iniciativas que aproximem os criadores das diferentes regiões do país.
Segundo o artista, a residência permite dar visibilidade ao trabalho desenvolvido fora de Luanda e criar redes de colaboração entre profissionais.
O representante do Uíge chama, no entanto, a atenção para a insuficiência de infra-estruturas culturais na província, nomeadamente galerias, oficinas e espaços adequados para exposições.
A situação, afirmou, contribui para que alguns artistas procurem melhores condições de trabalho na capital.
Para António Zinga, a continuidade de iniciativas de intercâmbio poderá contribuir para a formação dos artistas, circulação das obras e fortalecimento do movimento das artes plásticas nas províncias.
Descentralização cultural
A realização da residência artística Sinergia insere-se, assim, num movimento de aproximação entre criadores de diferentes pontos do país, numa tentativa de reduzir a concentração das actividades artísticas na capital.
A organização pretende realizar futuras edições noutras províncias, levando o intercâmbio artístico para mais próximo das comunidades e criando condições para maior circulação das artes visuais no território nacional.
A aposta na descentralização poderá permitir não apenas revelar novos criadores, mas também estimular o surgimento de espaços de produção, exposição e comercialização de arte fora de Luanda.




